sábado, 26 de dezembro de 2015


A PÁGINA EM BRANCO

"Tudo o que decidires acontecerá e a luz brilhará sempre no teu caminho."
Job 22:28, TIC (Tradução Inter-Confessional).

       Uma página em branco poderá parecer, à primeira vista, que não nos diz nada, porque nela nada está escrito, mas pode sugerir ou insinuar muitas coisas. Uma página branca é uma página imaculada, limpa, sem borrões nem manchas. Também é símbolo do inédito; é o espaço onde ainda se podem escrever projetos, traçar itinerários, determinar ações futuras.
       Rabindranath Tagore, no seu livro Lição de Um Poeta, escreveu o seguinte poema: "No teu livro já escreveste muitas páginas; umas são tristes, outras alegres, umas limpas e claras, outras são manchadas e obscuras. Porém, ainda resta uma página em branco, a que vais escrever neste dia. Falta-te preencher a página de hoje. Deseja e pensa que esta pode ser a página mais bela, e a mais sincera, a mais sentida. Cada amanhã, ao despertar, recorda que ainda vais preencher a tua melhor página, a que dirá o melhor que podes deixar no livro que estás a escrever com a tua própria vida. Pensa sempre que ainda te falta escrever a página mais bela."
       No começo de um novo ano, a página em branco significa tempo de oportunidade, de começar de novo, de deixar para trás experiências frustradas. É tempo, para alguns, de ressuscitar como o filho da viúva de Naim, quando Jesus lhe disse: "Mancebo, a ti te digo: Levanta-te" (Lucas 7:14). E a oportunidade traz-nos a nós, Cristãos, reptos e desafios.
       Neste Novo Ano, somos chamados a marcar o rumo da Igreja num mar de confusão e ventos vertiginosos. Hoje, quando temos de fazer frente aos feitiços de um mundo devorador de consciências, quando o tempo para o cumprimento da missão se torna curto, Deus dá-nos a oportunidade providencial de escrever a página mais bela, a nossa melhor página.
       A página em branco representa ainda tempo de aceitar compromissos. Daniel, ao chegar a Babilónia, deportado, separado dos pais, apesar de escolhido para fazer parte da corte caldeia, e mesmo sabendo o perigo que corria naquele ambiente corrupto, tomou uma importante resolução, que escreveu nessa nova página da sua vida: "Assentou no seu coração não se contaminar" (Daniel 1:8).
       Neste ano proponha, também, não contaminar a sua vida com más influências. Deixe que o Céu o use como um poderoso testemunho de que há um Deus nos Céus!
Texto do livro de Meditações Matinais para 2016 "Mas há um Deus no Céu" (Daniel 2:28), 1 de janeiro de 2016, Publicadora SerVir.
Sobre o autor: "Carlos Puyol Buil é natural de Saragoça (Espanha). Iniciou o seu ministério pastoral no ano de 1964. Serviu a Igreja como pastor, professor e administrador na União Adventista Espanhola, na Divisão Inter-Americana, no Colégio Adventista de Sagunto e na Editorial Safeliz. Entre os seus interesses contam-se as leituras literárias históricas, o excursionismo e o colecionismo de fósseis."


Nº 7 ("Vivendo em Antecipação")

"O CONFLITO TERMINOU"


Terminados os mil anos, Cristo volta finalmente à Terra. É acompanhado pelo exército dos remidos e seguido por um cortejo de anjos. Descendo com grande majestade, ordena aos ímpios mortos que ressuscitem para receberem a condenação. Estes surgem como um grande exército, inumerável como a areia do mar. (...)

       Cristo desce sobre o Monte das Oliveiras. ... Descendo do Céu a Nova Jerusalém no seu deslumbrante resplendor, repousa sobre o lugar purificado e preparado para a receber, e Cristo, com o Seu povo e os anjos, entram na Santa Cidade.
       Agora Satanás prepara-se para a última e grande luta pela supremacia. Enquanto esteve privado do seu poder e impedido de realizar a sua obra de engano, o príncipe do mal sentia-se infeliz e abatido. Mas, com a ressurreição dos ímpios mortos, e vendo as vastas multidões ao seu lado, as suas esperanças revivem e decide não se render no Grande Conflito. Arregimentará sob a sua bandeira todos os exércitos dos perdidos, e por meio deles esforçar-se-á por executar os seus planos. ...
       Naquela vasta multidão há muitos que pertenceram à raça de grande longevidade que existiu antes do Dilúvio. Homens de estatura elevada e intelecto gigantesco. ... Há reis e generais que venceram nações, homens corajosos que nunca perderam nenhuma batalha, guerreiros orgulhosos, ambiciosos, cuja aproximação fazia tremer os reinos. ...
       Satanás consulta os seus anjos e, depois, esses reis vencedores e guerreiros poderosos. ... Finalmente é dada a ordem de avançar, e o inumerável exército põe-se em movimento. ... Com precisão militar, as fileiras cerradas avançam pela superfície da Terra, quebrada e desigual, em direção à cidade de Deus. Por ordem de Jesus são fechadas as portas da Nova Jerusalém, e os exércitos de Satanás rodeiam a cidade, preparando-se para o assalto.

CRISTO, COROADO, JULGA
       Agora Cristo aparece novamente à vista dos Seus inimigos. Muito acima da cidade, sobre um fundamento de ouro polido, está um trono, alto e sublime. Neste trono está sentado o Filho de Deus, à Sua volta estão os súbditos do Seu reino. ... Na presença dos habitantes da Terra e do Céu, reunidos, é efetuada a coroação final do Filho de Deus. E agora, investido de majestade e poder supremos, o Rei dos reis pronuncia a sentença sobre os rebeldes contra o Seu governo, e executa justiça sobre aqueles que transgrediram a Sua lei e oprimiram o Seu povo. Diz o profeta de Deus: "Vi um grande trono branco e Aquele que nele se senta, de cuja presença fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para eles. Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, que estavam diante do trono, e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida; e os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras" (Apocalipse 20:11 e 12).
       Logo que se abrem os livros de registo e o olhar de Jesus incide sobre os ímpios, eles tornam-se conscientes de todo o pecado cometido. Veem exatamente onde os seus pés se desviaram do caminho da pureza e santidade, precisamente até onde o orgulho e a rebelião os levaram na violação da Lei de Deus. ...
       Todo o mundo ímpio está em julgamento perante o tribunal de Deus, acusado de alta traição contra o governo do Céu. Não há ninguém para defender a sua causa. Estão sem desculpa e a sentença de morte eterna é pronunciada contra eles. ...
       Satanás vê que a sua rebelião voluntária o incapacitou para o Céu. Orientou as suas faculdades para guerrear contra Deus. A pureza, paz e harmonia do Céu seriam para ele uma suprema tortura. As suas acusações contra a misericórdia e a justiça de Deus agora silenciaram. A culpa que se esforçou por lançar sobre Jeová repousa inteiramente sobre ele. E agora Satanás curva-se e confessa a justiça da sua sentença.
       "Quem não Te respeitará, Senhor? Quem não honrará o Teu nome? Só Tu és santo! Todas as nações hão de vir ajoelhar-se diante de Ti, pois as Tuas sentenças justas estão à vista de todos" (Apocalipse 15:4, BBN, Tradução - Bíblia Boa Nova). ... As próprias obras de Satanás condenaram-no. A sabedoria de Deus, a Sua justiça e bondade, estão plenamente reivindicadas. ...

O MAL ERRADICADO
       Do Céu desce fogo da parte de Deus. A terra abre-se. ... As próprias rochas estão a arder. ...
       Os ímpios recebem a sua recompensa na Terra (Provérbios 11:31). "Serão como a palha; e o dia que está para vir os abrasará, diz o Senhor dos exércitos" (Malaquias 4:1). ... Está para sempre terminada a obra de ruína de Satanás. Durante seis mil anos efetuou a sua vontade, enchendo a Terra de miséria e causando tristeza por todo o Universo. ... Agora as criaturas de Deus estão para sempre livres da sua presença e das suas tentações. ...
       Enquanto a Terra está envolta nos fogos da vingança de Deus, os justos habitam em segurança na Santa Cidade. Sobre os que tiveram parte na primeira ressurreição, a segunda morte não tem poder (Apocalipse 20:6). Ao mesmo tempo que Deus é para os ímpios um fogo consumidor, é para o Seu povo tanto Sol, como Escudo (Salmo 84:11).
       "Vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram" (Apocalipse 21:1). O fogo que consome os ímpios purifica a Terra. Todos os vestígios de maldição são removidos. Nenhum inferno a arder eternamente conservará perante os resgatados as terríveis consequências do pecado.

SÓ UMA LEMBRANÇA
       Apenas uma lembrança permanece: o nosso Redentor conservará, para sempre, os sinais da Sua crucifixão. Na Sua fronte ferida, no Seu lado, nas Suas mãos e pés, estão os únicos vestígios da obra cruel que o pecado efetuou. ... E os sinais da Sua humilhação são a Sua mais elevada honra. Através da eternidade, os ferimentos do Calvário proclamarão o Seu louvor e declararão o Seu poder.
       "E a ti, ó torre do rebanho, monte da filha de Sião, a ti virá; sim, a ti virá o primeiro domínio" (Miqueias 4:8). É chegado o tempo, para o qual os homens santos têm olhado com anseio desde que a espada inflamada vedou o Éden ao primeiro par - tempo "para a completa libertação dos que pertencem a Deus" (Efésios 1:14, BBN). A Terra, dada originariamente ao homem como o seu reino, traída por ele nas mãos de Satanás, e durante tanto tempo retida pelo poderoso adversário, foi recuperada pelo grande Plano da Redenção. Tudo o que se tinha perdido pelo pecado foi restaurado. ...
       "O meu povo habitará em moradas de paz, em moradas bem seguras, e em lugares quietos e tranquilos" (Isaías 32:18, ARA, Tradução - Almeida Revista Atualizada). "Nunca mais se ouvirá de violência na tua terra, de desolação ou destruição nos teus termos; mas aos teus muros chamarás Salvação, e às tuas portas Louvor" (Isaías 60:18). "Edificarão casas, e nelas habitarão; plantarão vinhas e comerão o seu fruto. Não edificarão para que outros habitem; não plantarão para que outros comam; ... os meus eleitos desfrutarão de todas as obras das suas próprias mãos" (Isaías 65:21 e 22, ARA). ...
       A dor não pode existir na atmosfera do Céu. Ali, não haverá mais lágrimas, cortejos fúnebres, manifestações de pesar. "Não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, ... porque já as primeiras coisas são passadas" (Apocalipse 21:4).

GLÓRIAS DA ETERNIDADE
       Ali, está a Nova Jerusalém, a capital da nova Terra glorificada. ... Na cidade de Deus "não haverá noite". Ninguém necessitará ou desejará repouso. Não haverá cansaço em fazer a vontade de Deus e oferecer louvor ao Seu nome. Sentiremos sempre a frescura da manhã, e estaremos sempre longe do seu termo. "Não necessitarão de lâmpada nem da luz do Sol, porque o Senhor Deus brilhará sobre eles" (Apocalipse 22:5). A luz do Sol será excedida por um brilho que não é ofuscante e, contudo, suplanta incomensuravelmente o fulgor do nosso Sol ao meio-dia. A glória de Deus e do Cordeiro inunda a santa cidade, com luz imperecível. Os remidos andam na glória de um dia perpétuo, independentemente do Sol.
       "Nela não vi templo, porque o seu templo é o Senhor Deus todo-poderoso, e o Cordeiro" (Apocalipse 21:22). O povo de Deus tem o privilégio de entreter franca comunhão com o Pai e o Filho. ... Estaremos na Sua presença, e contemplaremos a glória do Seu rosto.
       Ali os remidos conhecerão como são conhecidos. O amor e a simpatia que o próprio Deus plantou na alma encontrarão ali o mais verdadeiro e suave exercício. ...
       Ali, ... *mentes imortais contemplarão, com incansável prazer, as maravilhas do poder criador, os mistérios do amor que redime. ... A aquisição de conhecimentos não cansará o espírito nem esgotará as energias. Ali, os mais grandiosos empreendimentos poderão ser levados avante, alcançadas as mais elevadas aspirações, realizadas as mais altas ambições. ... *E surgirão ainda novas alturas a atingir, novas maravilhas a admirar, novas verdades a compreender, novos objetivos a avivar as faculdades do **espírito (inteligência, pensamentos), da **alma (instintos, emoções, desejos) e do corpo.
       Todos os tesouros do Universo estarão abertos ao estudo dos remidos de Deus. Livres da mortalidade, levantarão um incansável voo para os mundos distantes - mundos que estremeceram de tristeza perante o espetáculo da desgraça humana, e ressoaram com cânticos de alegria ao ouvir as novas de uma alma resgatada. Com indescritível prazer, os filhos da Terra entram na posse da alegria e da sabedoria dos seres não caídos. ...
       E no decorrer dos anos da eternidade, trarão cada vez mais abundantes e gloriosas revelações de Deus e de Cristo. Assim como o conhecimento é progressivo, o amor, a reverência e a felicidade também aumentarão. Quanto mais os homens aprendem acerca de Deus, mais admiram o Seu caráter. Quando Jesus lhes revelar as riquezas da redenção e os extraordinários factos do grande conflito com Satanás, a alma dos resgatados vibrará com a mais fervorosa devoção, e com a mais arrebatadora alegria eles dedilharão as harpas de ouro. E milhares de milhares, e milhões de milhões de vozes unem-se para avolumar o potente coro de louvor.
       "Então, ouvi toda a criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra, e que está no mar, e todas as coisas que neles há, dizer: Àquele que está sentado no trono, e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o poder para todo o sempre" (Apocalipse 5:13).
       O Grande Conflito terminou. Pecado e pecadores já não existem. O Universo inteiro está purificado. Um sentimento único de harmonia e júbilo vibra por toda a vasta Criação. D'Aquele que tudo criou, emanam vida, luz e alegria por todos os domínios do Espaço infinito. Desde o minúsculo átomo até ao maior dos mundos, todas as coisas, animadas e inanimadas, na sua serena beleza e perfeito regozijo, declaram que Deus é amor.

Questões Para REFLETIR E PARTILHAR
1. Ao ansiar pelo fim do pecado, há alguma coisa que o amedronta? O que é?
2. O que significa Jesus manter as marcas da Sua crucificação por toda a eternidade?
3. Para si, qual será a melhor parte de viver na presença de Deus?


Revista Adventista, Especial, Setembro 2015 - 7 Artigos nos meus 2 Blogs, de 23 a 26.12.15



"Este artigo, de Ellen White, foi retirado de O GRANDE CONFLITO, (Publicadora SerVir) Págs. 551-564. Os ADVENTISTAS DO SÉTIMO DIA acreditam que ELLEN G. WHITE (1827-1915) exerceu o DOM BÍBLICO DA PROFECIA durante mais de 70 anos de Ministério Público." (Pode conhecer mais em Links 1R - Ellen G. White - Centro de Pesquisas.)

* - No Céu, como se pode ler, poderá ser satisfeito o desejo de Cesário Verde: «Se eu não morresse nunca! E eternamente buscasse e conseguisse a perfeição das coisas!» Que pena ele não ter sabido disso!... Sem dúvida que sim! E é esse o desejo também de toda a gente.
Por isso o mais importante é, para começar, lá querermos estar!!! Porque Jesus já fez tudo para isso!... Só que Ele como Cavalheiro que é não nos empurra, muito menos nos obriga. Depende apenas de nós o querermos, e o aceitarmos Jesus no nosso coração, porque esse é também o Maior desejo da Divindade, a quem amamos e adoramos!
** - Pode ler alguma coisa sobre a diferença entre espírito e alma, por exemplo, aqui: http://www.adventistas-bereanos.com.br/2005fevereiro/igrejaadventistaemnatal.htm

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Nº 5 ("Vivendo em Antecipação")

"Cristo em Nós, a Esperança da Glória"
A SEGUNDA VINDA É CERTA


Os serviços de emergência de Los Angeles, Califórnia, tiveram muita dificuldade em retirar para uma estrada de acesso um homem caído num íngreme declive. Embora o resgate, em si mesmo, fosse perigoso e arriscado, o homem acidentado estava a tornar as coisas ainda mais difíceis e perigosas para todos. Enquanto o helicóptero sobrevoava o local, pronto para evacuar o homem seriamente magoado, ele ficou histérico e agitado. O homem receava ter de pagar o resgate. Só quando a equipa de resgate o convenceu de que não teria de pagar absolutamente nada, é que ele permitiu que o resgatassem.1

PAGANDO O NOSSO PREÇO
       Como é que se sente sobre o seu resgate? Está pronto a ser resgatado por Jesus? Estaria pronto para se encontrar com Ele, hoje? Embora todos digamos que cremos que Jesus nos salva, é provável que a maioria de nós hesitasse um momento com a parte "hoje" da pergunta. Se Jesus viesse hoje, estaria eu pronto? O padrão para se ganhar o Céu é elevado. Quando examinamos honestamente a nossa vida, só chegamos a uma conclusão - somos todos pecadores (Romanos 3:9). Não nos qualificamos para o Céu. Algo tem de ser feito.
       A maior parte das religiões importantes do mundo têm algo em comum. Tem de se fazer alguma coisa para se obter alguma coisa; a salvação tem de ser ganha. Mesmo no Cristianismo, esta ideia pode infiltrar-se. Podemos começar por depender de orações, da leitura da Bíblia ou até de fazer coisas boas para, de alguma maneira, darmos a nós próprios a certeza de que nos vamos sair bem. Ali, bem no fundo, está a vaga noção de que é Cristo mais as coisas que eu faço que me salvam.

BOAS NOTÍCIAS
       Talvez sejamos um pouco como o homem acidentado, receosos do resgate, porque sabemos que não o podemos pagar. Há, no entanto, boas notícias; na realidade, são muito boas notícias. É verdade que somos todos pecadores, incapazes de pagar a pena. Mas Jesus morreu pelos nossos pecados para que não tenhamos de morrer por eles (II Coríntios 5:21). Jesus tomou o nosso lugar na cruz para que possamos ser livres. Não temos de pagar por este resgate - foi pago na totalidade no Calvário. Quando aceitamos Jesus como nosso Salvador pessoal, podemos ter a certeza absoluta de que, se Jesus viesse agora mesmo, estaríamos prontos para nos encontrarmos com Ele.

GRÁTIS - NÃO BARATA
       Deus quer dar-nos a certeza da salvação (Romanos 8:31 e 32). Mas só teremos esta certeza quando deixarmos de olhar para os nossos próprios esforços e para nós próprios e nos centrarmos naquilo que Jesus fez por nós.
       Neste ponto, muitos Cristãos ficam nervosos. Aceitar a certeza dada por Deus parece demasiado fácil, e eles têm receio de que a salvação se torne "graça barata", com as pessoas a continuar a viver em pecado, clamando simplesmente por perdão, sem fazerem qualquer mudança na sua vida. A Salvação é gratuita, mas não é barata. O dom da vida eterna tem um preço mais alto do que podemos imaginar. Este resgate custou a vida de Jesus; e embora seja grátis, nós temos uma parte a fazer. Um olhar mais atento ao resgate bíblico pode ser útil.

MANTENDO-NOS AGARRADOS ACONTEÇA O QUE ACONTECER
       Jacob sabia que precisava de ser resgatado. Tinha recebido notícias de que o seu irmão, Esaú, estava a caminho com homens armados para se encontrar com ele. A oferta de paz que enviara à sua frente não parecia ter feito diferença alguma. Esaú estava a chegar com intenção de se vingar. Jacob mandou a sua família à frente, para atravessar o rio, e ficou sozinho a suplicar a Deus por ajuda.
       Ele necessitava de ser resgatado de Esaú, mas também sabia que ele - o mentiroso enganador - não tinha o direito de pedir ajuda a Deus. Quando a ajuda chegou, Jacob não a reconheceu. Ele lutou com Deus, pensando que estava a ser atacado. Só de madrugada, quando se deu conta de contra Quem estava a lutar, é que Jacob recebeu a certeza de que precisava. Porquê? Porque Jacob parou de lutar contra Deus e, em vez disso, agarrou-se a Ele. (Génesis 32:22-29).
       Ao nos agarrarmos a Jesus, Ele dá-nos a salvação e a certeza de que necessitamos. Ellen White põe isso desta forma: "Cada crente deve submeter inteiramente a sua vontade à vontade de Deus, e manter-se em estado de arrependimento e contrição, exercendo fé nos méritos expiatórios do Redentor e avançando de força em força, e de glória em glória."2 Ellen White continua, fazendo notar que há mais na salvação do que apenas acreditar e aceitar mentalmente. Saber que Jesus é o nosso Salvador é mais do que apenas um pensamento reconfortante ou uma ideia intelectual tentadora. É "exercitar a fé" e "avançar de força em força".
       Tiago afirma claramente que a crença não faz sentido, a não ser que seja apoiada pela ação (Tiago 2:19). O livro de Tiago explica, com exemplos práticos, que, como sabemos que Deus nos perdoou, e temos fé de que Ele nos salvará, obedecemos-Lhe. Viver uma vida com Deus tem um efeito prático na nossa vida diária. Podemos ter a certeza de que estamos prontos para nos encontrarmos com Jesus, se Ele viesse hoje.

A DERRADEIRA MISSÃO DE RESGATE
       A Segunda Vinda de Jesus será o maior resgate da história da Terra. A Bíblia descreve o Céu sendo enrolado para trás como um rolo (Isaías 34:4), a Terra a cambalear como um bêbado (Isaías 24:20).
       Encontrarmo-nos com Jesus requer uma espécie de santidade especial? Alguns Adventistas do Sétimo Dia afirmam que o caráter de Deus será reivindicado nas vidas perfeitas da última geração de crentes. Esta afirmação está baseada em certas citações de Ellen White lidas isoladamente sem o contexto do resto dos seus escritos. Esta afirmação leva, muitas vezes, ao medo e inclina-se a dirigir o foco dos Cristãos para si em vez de para Jesus. Deus sempre quis que cada geração de Cristãos obtivesse a vitória sobre o poder do pecado na sua vida (Romanos 6:11-14). Contudo, deste lado do Céu, a perfeição é sempre um processo de crescimento, não um estado estagnado; e não interessa o que façamos, não chegaremos lá. Em vez disso, temos de nos agarrar a Jesus. A luta diária é deixar tudo o que nos separa e, tal como Jacob, concentrarmo-nos em agarrarmo-nos a Jesus, em vez de lutar contra o Seu Espírito ou de interferir com o Seu trabalho, ao tentar ajudar o resgatador. Termos a certeza de que estamos prontos para nos encontrarmos com Jesus não depende de chegarmos a um certo padrão. A certeza é encontrada, como no caso de Paulo, em "morrer diariamente" para tudo o que nos separa de Deus, agarrarmo-nos às Suas promessas.
       Enquanto o Céu se enrola e a Terra cambaleia, podemos dizer com confiança: "Eis que este é o nosso Deus, a Quem aguardávamos, e Ele nos salvará" (Isaías 25:9).

1. Ver www.coloradoSARboard.org
2. Ellen G. White, Refletindo a Cristo, Meditações Matinais de 1986 (Sacavém, Publicadora Atlântico, SA), p. 74.
3. Ver Angél Manuel Rodriguez, "Theology of the Last Generation" (Teologia da Última Geração), Adventist Review, 10 out. de 2013. p. 42.

Questões Para REFLETIR E PARTILHAR

1. Como podemos ter a certeza de que estamos prontos para nos encontrarmos com Jesus, se Ele viesse hoje?
2. O que é que Deus espera de cada geração de crentes? Como é que isto difere da crença de que a última geração tem de ser perfeita?
3. Se tenho a certeza de que estou salvo se Jesus viesse hoje, significa que ainda terei essa certeza para o mês que vem? Porquê, ou porque não?
4. Como podemos ajudar as nossas crianças e os jovens a descobrir a alegria da certeza da salvação?
Revista Adventista, Especial, Setembro 2015 - 7 Artigos nos meus 2 Blogs, de 23 a 26.12.15


quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Nº 3 ("Vivendo em Antecipação")

"Então Como Devemos Esperar?"
PACIENTE PERSEVERANÇA E A SEGUNDA VINDA


Tinha sido uma Semana de Oração emocionante num dos nossos colégios Adventistas. O pastor tinha pregado sobre os eventos do tempo do fim: Jesus voltaria em breve!

       Na realidade, tão em breve que alguns dos pais receberam chamadas telefónicas dos seus filhos nos seguintes termos:
       Filha: "Pai, Jesus vai voltar em breve. Os sinais da Sua vinda já se cumpriram. Está mesmo ao virar da esquina. Acho que devia desistir do meu curso e começar a bater às portas."
       Pai: "Estou muito feliz por estares a gostar desta Semana de Oração. Porque é que queres desistir de tudo agora?"
       Filha: "Mas, Pai, isto é urgente. Não podemos continuar como até aqui. Jesus vai voltar."
       Pai: "Estou tão emocionado por te ouvir a falar assim! No entanto, não conseguirás servir melhor Jesus quando terminares os teus estudos? Não podes arranjar formas criativas de partilhar Jesus - mesmo enquanto estudas?"

       Por vezes, temos dificuldade em esperar. "Quando ganharei o meu primeiro cheque de vencimento?", perguntam os alunos universitários quando chegam ao seu último ano. "Quando é que o Natal chega?", perguntam as crianças com impaciência. "Quando é que vou melhorar?", perguntam-se os que sofrem de uma doença crónica. "Paciência é uma virtude", diz um adágio, e as virtudes, ao que parece, estão fora de moda. Vivemos num mundo de gratificação instantânea.
       Abraão e Sara tiveram de esperar - 25 anos, para ser exato (Génesis 12:4; 21:5). A espera nem sempre foi fácil. Na realidade, o nascimento de Ismael, 11 anos depois da promessa inicial de Deus, parece ter sido um desvio que causou muita dor a todos os envolvidos. No entanto, Abraão e Sara esperaram e voltaram a esperar, e continuaram a instalar-se na terra que Deus tinha prometido dar-lhes. Tal como muitos outros que se seguiram, viveram pela fé (Hebreus 11:8-12) e confiaram que Deus cumprisse.
       E Ele cumpriu. E voltará a fazê-lo naquele grande dia, quando finalmente aparecer nas nuvens dos céus. Apocalipse 14:12 fala-nos das características do povo de Deus dos últimos dias. Sabemos da fé de Jesus e da guarda dos mandamentos. Lutamos, contudo, com a "paciente perseverança" (versículo 12; cf. Apocalipse 13:10) que é parte do núcleo essencial deste grupo. É um grupo de pessoas fiel; compreende os prazos de Deus para o tempo do fim; crê no dom profético dado por Deus; contudo, o traço de caráter que é mais urgentemente necessário é a paciente perseverança.
       Em Apocalipse 13:10, a paciência e a perseverança estão intimamente ligadas à fé. Aqueles que distinguem o mal e resistem aos encantos da besta (apresentada no Apocalipse) e das suas tomadas de posição, são pacientes e perseverantes. Não se comprometerão; contudo, também não se esconderão em mosteiros e em regiões selvagens remotas. Solidamente plantados nas cidades e nos caminhos deste mundo, representam as mãos e os pés de Jesus e estão empenhados em servir "os pequeninos irmãos" (Mateus 25:40).

A ESPERA DO TEMPO DO FIM
       No Seu sermão sobre o tempo do fim, Jesus inclui uma história que nos faz pensar. Descrevendo uma cena de julgamento real, coloca um grupo de ovelhas à direita e um grupo de bodes à esquerda no salão do trono real (cf. Mateus 25:31-46). É claro que Jesus não queria falar sobre criação de gado ou sobre as características das ovelhas e dos bodes. Na história de Jesus, o Rei, falando para as ovelhas à Sua direita, louva-as por O terem alimentado, quando estava com fome; darem-Lhe água fresca, quando tinha tido sede; visitarem-n'O; vestirem-n'O; convidarem-n'O.
Jesus conta a história com tal mestria que, como leitores, quase conseguimos ver o ar comprometido no rosto dos justos. "Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer?" (v. 37), replicam. Então o Rei responderá: "Quando o fizeste a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizeste" (v. 40).
       A espera do tempo do fim é uma espera ativa. Envolve servir os necessitados e associar-se com os rejeitados. Convoca-nos para sairmos da nossa zona de conforto e para envolvermo-nos com aqueles com quem, normalmente, não nos envolveríamos. Quer seja num centro de influência numa pobre e secular cidade do interior ou numa pequena e mal equipada clínica na África rural; quer seja na sala da direção de uma sofisticada instituição educacional que oferece Doutoramentos e Mestrados, ou numa vila do interior, Deus quer que o Seu povo mostre ao mundo o que significa realmente esperar pela Sua vinda.
       "Estamos aguardando e vigiando a grande e terrível cena que encerrará a história da Terra", escreve Ellen White. "Mas não devemos simplesmente esperar; devemos estar vigilantemente trabalhando com relação a este solene acontecimento. A Igreja viva de Deus estará aguardando, vigiando e trabalhando. Ninguém deve ficar numa posição neutra. Todos devem representar Cristo num esforço ativo e sincero para salvar as almas que perecem."1
       Aqui está outro elemento da paciente perseverança do tempo do fim: Esperar pela vinda do Mestre para nos levar para o lar não significa estar dependente de sinos de alarme. As pessoas à nossa volta não necessitam de um entusiasmo febril e de rumores sobre conspirações que as deixem de olhos arregalados. As Escrituras confirmam a existência de poderes satânicos prontos a enganar - até mesmo os eleitos (Mateus 24:24). A perseguição, a informação enganosa, a distorção, o fanatismo e a manipulação são - e sempre foram - ferramentas disponíveis na caixa de ferramentas do arqui-inimigo de Deus.
       No entanto, o foco de Jesus nos Seus sermões sobre o tempo do fim está no serviço e na missão. "E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim" (v. 14). Quão encorajador é saber que Jesus não pode ser surpreendido.

PLANTANDO UM JARDIM
       Todos os dias, o condutor de autocarro tinha de esperar sete minutos no fim da sua rota na parte feia da cidade. Aguardando para recomeçar o seu turno, reparou num lote de terreno devoluto, cheio de lixo. Havia sacos de plástico e sucata espalhados por todo o lado. Dia-a-dia o condutor de autocarro observava aquele lugar devoluto. Então, um dia tomou uma decisão. Alguma coisa tinha de ser feita acerca daquela vista tão feia. Saiu do seu autocarro e começou a encher um grande saco com o lixo. Sete minutos mais tarde, estava de novo no seu caminho. Isto tornou-se na sua rotina diária. Ele estacionava, saía do autocarro e começava a limpar.
       As pessoas da área notaram a mudança. Quando todo o lixo e sucata tinham sido tirados, o condutor de autocarro trouxe sementes de flores e sacos de terra para o lote. Começou a plantar um jardim. As pessoas que leram a notícia no jornal começaram a apanhar o autocarro até à última paragem. Algumas ajudavam o condutor de autocarro enquanto plantava e cuidava do seu jardim. Outras ficavam apenas a olhar e a desfrutar da beleza da vista. Sete minutos, todos os dias, foram suficientes para mudar e inspirar toda a comunidade.
       A espera pode ser desconcertante e desanimadora; ela desafia-nos até ao cerne da nossa alma.
       Contudo, no meio da nossa espera, Deus deseja dar-nos a paciente perseverança dos Seus santos do tempo do fim. Enquanto esperamos, somos chamados a examinar, silenciosamente, o nosso coração e a trabalhar. Sim, Jesus voltará em breve. Sim, Ele está à procura de pessoas com o coração e mente totalmente empenhados. Mas, enquanto esperamos, vamos servi-l'O onde quer que estejamos - com todo o nosso coração, a nossa alma e a nossa força (Deuteronómio 6:5).

       1. Ellen G. White, Testemunhos para Ministros, p. 163.

Questões Para REFLETIR E PARTILHAR

1. Há mais de 170 anos que pregamos sobre a volta de Jesus. O que podemos aprender com os muitos personagens bíblicos que também tiveram de esperar?
2. Que elemento do conceito bíblico de paciente perseverança é um desafio maior para si? Porquê?
3. Onde quer que viva, como pode ser, na prática, as mãos e os pés de Jesus?
Revista Adventista, Especial, Setembro 2015 - 7 Artigos nos meus 2 Blogs, de 23 a 26.12.2015


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Nº 1 ("Vivendo em Antecipação")

"Eu Sabia Que Vinhas"
A CERTEZA DA SEGUNDA VINDA


Foi um dos mais devastadores terramotos que alguma vez atingiram a Arménia. A 7 de dezembro de 1988, às 11:41 (hora local), a parte norte da Arménia junto a Spitak foi abalada por um terramoto de magnitude 6.8 na escala de Richter, que destruiu cidades, arrasou casas, e custou a vida de mais de 30 000 pessoas. A história de um pai anónimo à procura do seu filho nos destroços de um edifício escolar tem, desde então, inspirado milhares.

       Imediatamente após o primeiro tremor de terra, o pai tinha corrido para a escola, que tinha sido totalmente arrasada. Recordando-se de uma promessa que fizera há muito, ele começou a escavar com as mãos nuas. "Aconteça o que acontecer, podes contar sempre comigo", tinha prometido ao seu filhinho, quando este estava com medo.
       Definindo a localização aproximada da sala de aula do seu filho, ele começou a remover o entulho e o cimento. Outras pessoas chegaram e, ao verem a destruição, tentaram retirá-lo dali. No entanto, ele não se deixava distrair. Tinha feito uma promessa. Os bombeiros e o pessoal de emergência tentaram impedir o pai. Devido a fugas de gás, os incêndios e explosões eram um perigo real. "Nós tratamos disto", tinham-lhe dito. "Não há qualquer possibilidade de o seu filho ter sobrevivido."
       O pai continuou a escavar - uma pedra de cada vez. Por fim, após 38 horas de esforço, ele ouviu, de repente, a voz do seu filho. "Papá, és tu? Eu sabia que vinhas. Papá, eu disse às outras crianças que não se preocupassem, porque tu tinhas dito que virias." Nesse dia, o homem salvou 14 crianças, incluindo o seu filho. Ele tinha cumprido a sua promessa.*

OUTRA ESPERA
       Já se passou muito tempo desde que os anjos perguntaram aos discípulos: "Porque estais olhando para os céus? Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima, no céu, há de vir, assim como para o céu o vistes ir" (Atos 1:11). E continuamos à espera.
       Paulo esperou (Romanos 12:11-13; I Tessalonicenses 1:10); Pedro esperou (I Pedro 1:7-9; 4:7; II Pedro 3:9-14); João esperou (Apocalipse 22:12, 20); e milhões de outros seguidores de Jesus têm esperado desde então. Por vezes, aqueles que estão à espera da gloriosa volta do Mestre dão por si presos, perseguidos ou ridicularizados. Outras vezes, a mornidão ameaça transformar, lentamente, discípulos ativos em observadores com taças de pipocas na mão, mais interessados nas últimas "engenhocas" do que no regresso do seu Senhor. A espera nem sempre é fácil.

APRENDENDO COM ATOS
       A Igreja Cristã Primitiva, tal como nos é mostrada em Atos dos Apóstolos, dá um grande exemplo de como devemos esperar. Logo que deixaram de olhar para o céu, começaram a esperar. Enquanto esperavam, começaram a orar (Atos 1:14). Enquanto oravam, tornaram-se mais unidos (Atos 2:1). E então, aconteceu: a espera em oração tornou-se numa audácia cheia do Espírito. O reavivamento levou a um foco na missão que não pôde ser contido. O testemunho de Pedro, traduzido pelo Espírito Santo para chegar aos corações, levou a múltiplas conversões. Três mil pessoas foram batizadas nesse dia, e isso foi só o princípio (v. 41).
       O convívio em oração, o cuidar das necessidades da comunidade, e o louvor centrado em Deus levaram a um crescimento da Igreja, porque "todos os dias acrescentava o Senhor" (v. 47). Pessoas tímidas, cansadas, sobrecarregadas eram transformadas em pregadores da Palavra - corajosos, centrados na missão. A perseguição levou-os para Samaria, para a Ásia Menor, para Roma. Levou-os até aos confins do mundo. Esperavam e tinham a paixão de pregarem sobre o Salvador ressuscitado num mundo em que a cruz era loucura para a maioria (I Coríntios 1:18).
       Dois fatores-chave impulsionavam-nos: Primeiro - tinham estado com Jesus. Falavam sobre um Salvador que conheciam intimamente. Tinham experimentado Deus Connosco em pessoa, e essa experiência tinha-os transformado.
       Segundo, estavam firmemente enraizados nas Escrituras e prestavam atenção à Profecia. O sermão de Pedro no Pentecostes está cheio de citações do Velho Testamento. Tinham visto como Deus cumprira, com exatidão, o tempo da chegada do Messias (Gálatas 4:4) e confiavam que Ele cumpriria, com exatidão, o tempo em que ocorreria a volta do Seu Filho.
       Aqui está algo que podemos aprender com a Igreja Primitiva: Tal como os discípulos de então, precisamos de conhecer o nosso Salvador pessoal e intimamente. A graça não pode ser comunicada pelo ouvir. A salvação não é ganha por laços familiares ou por formulários de filiação de membros. Um encontro pessoal com o Senhor ressuscitado é a base para uma espera confiante. Confiamos nas pessoas que conhecemos verdadeiramente; e para conhecer verdadeiramente Jesus temos de passar tempo com Ele, em oração e no estudo da Sua Palavra.
       Outra faceta importante da nossa espera por Jesus envolve a compreensão da mensagem profética de Deus para o nosso tempo.
       Desde o fim do tempo profético de 1844, estamos a viver no tempo do fim. Daniel 9:24-27 ajuda-nos a ancorar o longo período de 2300 tardes e manhãs (ou dias), dado em Daniel 8:14, que preocupou claramente Daniel. As 70 semanas que foram "cortadas" do período profético maior começaram em 457 a.C., quando o rei da Medo-Pérsia, Artaxerxes I, deu a Esdras a autorização para "bem fazerdes, do resto da prata e do ouro" (Esdras 7:18). Isso permitiu que Esdras reconstruísse, finalmente, as muralhas da cidade de Jerusalém, providenciando uma ligação clara com Daniel 9:25 e com a proclamação do decreto para "restaurar e reconstruir Jerusalém".
       A profecia bíblica é digna de confiança. Quando o momento exato, predito pelos profetas, chegou, Jesus deu entrada na história desta Terra e mudou-a para sempre. Se os traços largos de Deus que esboçam um prazo profético fazem sentido e são de confiança, quanto mais devemos nós confiar n'Aquele que disse: "Olhem, Eu voltarei em breve!"? (Apocalipse 22:12)

QUÃO BREVE É BREVE?
       Os pioneiros Adventistas compreenderam que o "breve" de Deus era realmente breve. As suas vidas, as suas prioridades, as suas esperanças estavam focalizadas neste momento glorioso da História. Em breve Jesus voltaria para levar para o lar os Seus remidos. Contudo, já se passaram mais de 170 anos desde essa altura.
       "Quão breve é breve?", perguntamo-nos enquanto esperamos. Sim, os sinais da Sua vinda são claramente visíveis e cumulativos (Mateus 24), vemos isso todas as vezes que ligamos a nossa televisão, visitamos as nossas páginas favoritas do Facebook, ou lemos as notícias sobre guerras, catástrofes naturais, fomes, doenças, crueldade, falta de determinação e de valores morais, e desigualdades sociais. Quando olhamos para o espelho, até pode ser que vejamos a complacência laodiceana. Este mundo está, claramente, numa crise - moral, económica, social e ecológica.
       A vida não pode continuar assim para sempre. Os nossos recursos são limitados; os nossos problemas parecem insolúveis; o nosso egoísmo é sem limites. Contudo, temos esta esperança que só Cristo nos dá. Tal como os discípulos, somos assegurados pela "mensagem profética" que é "totalmente digna de confiança" e que nos guiará como uma luz brilhando em lugar escuro (II Pedro 1:19).
       Tal como no Pentecostes, podemos ver o Espírito de Deus a trabalhar à nossa volta. A mensagem do Seu breve regresso está a transformar vidas e a entrar em cidades, vilas, matas e topos de montanha. Nós esperamos e trabalhamos porque esse é o modus operandi dos filhos de Deus desde esse dia em que os discípulos viram Jesus desaparecer nas nuvens do céu.
       O reino de Deus é aumentado oração a oração. No meio da dor e do sofrimento do mundo, até mesmo no meio da nossa própria dor e sofrimento, esperamos paciente e confiadamente. E nesse grande dia que brilhará mais do que qualquer outro, correremos para os braços do nosso amado Salvador e dir-Lhe-emos: "Jesus, sabíamos que virias buscar-nos, porque Tu nos disseste."

* Baseado no livro Chicken Soup for the Soul (Canjinha para a Alma) de Jack Can Field e Mark Victor Hansen, eds. (Deefield Beach, Fla.: HCI Books, 1993), pp. 273 e 274.

Questões Para REFLETIR E PARTILHAR

1. Como podemos esperar, ativamente, pela volta de Jesus num mundo que não tem lugar para Deus?
2. Qual é a relação entre o Reavivamento e a Esperança na Segunda Vinda?
3. Porque ficamos desatentos, e até desanimados, na nossa espera por Jesus? Qual é o remédio para esse desânimo e para essa desatenção?
4. Como podemos esperar fielmente como parte da comunidade de Deus e sermos uma bênção para os que nos rodeiam?


Revista Adventista, Especial, Setembro 2015 - 7 Artigos nos meus 2 Blogs, de 23 a 26.12.15




CONHEÇA OS AUTORES

Gerald e Chantal Klingbeil gostam do ensino em equipa e são apaixonados pelos jovens da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Gerald, nascido na Alemanha, serve como editor associado das revistas Adventist Review e Adventist World e é também professor de Investigação do Velho Testamento e de Estudos do Próximo Oriente Antigo no Seminário Teológico Adventista do Sétimo Dia, da Universidade de Andrews. Fez o seu Doutoramento em Estudos do Próximo Oriente Antigo na Universidade de Stellenbosch, África do Sul, e, nas últimas duas décadas, tem exercido o cargo de professor em várias universidades Adventistas da América do Sul e da Ásia.

Chantal, nascida e criada na África do Sul, é editora assistente do Ellen G. White Estate, focando o seu trabalho nas crianças, nos jovens e nos jovens adultos. Chantal tem um Mestrado em Filosofia e Linguística da Universidade de Stellenbosch, África do Sul. Tem exercido os cargos de professora do ensino secundário, de professora universitária, de mãe responsável pelo ensino doméstico, de autora e de editora. Gerald e Chantal têm a alegria de ter três filhas adolescentes, Hannah, Sarah e Jemima, que os mantêm alerta.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Dia Internacional da Pessoa com Deficiência

Aproveito este dia para apresentar aqui uma homenagenzinha à Andreia, uma sobrinha muito querida e especial. E muito amada por Deus! Mas ela também O ama muito pois o que mais gosta é de passar tempo com Ele e a Sua Palavra. Logo de manhã, ao fim de semana, e durante a semana quando chega a casa da Quinta da Conraria, o Centro de Reabilitação, vai logo ler a Meditação Matinal desse dia, assim como estudar a Lição da Escola Sabatina e ler na Bíblia os versículos apresentados. Leva muito a sério esta amizade especial e todos os familiares, amigos e até conhecidos, sabem que as suas conversas passam sempre por essa Grande Pessoa.
Também gosta muito de cantar e até sabe a maioria dos números dos hinos do Hinário de cor, na perfeição. Nos Encontros ao Pôr do Sol (abaixo) vão conhecê-la melhor e o seu Hino Preferido. Agora anda muito feliz pois faz parte do grupo musical aqui apresentado (e que é impressionante!), onde ela está à frente, um pouco para a direita, assim como na foto abaixo num centro comercial com os seus professores é a 2ª menina à frente, na sua "«Permobill» que é a Mercedes das cadeiras de rodas eléctricas", como está escrito no Perfil do seu blog www.ojardimdaandreia.blogspot.com que podem visitar sempre que quiserem e apanhar muitas flores.


A ARTE DE FAZER NASCER A MÚSICA


     É um músico apaixonado, sempre repartido por várias tarefas que lhe preenchem os dias.
     Mas nem as adversidades nem a pouca disponibilidade o levam a abdicar de um tempo muito especial:
O que ele dedica às crianças e aos jovens da
ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE PARALISIA CEREBRAL

     Desde 1991 que Carlos Guerreiro, músico do conjunto "Gaiteiros de Lisboa", caminha, todas as semanas, para a Associação onde, em classes especiais, inicia na música grupos de jovens com deficiências. Nestes casos, a música é usada no âmbito de um processo de tratamento ou de profilaxia chamado musicoterapia.
     Os jovens têm, quase todos, paralisia cerebral, deslocam-se em cadeiras de rodas, os seus movimentos são descoordenados e não se percebe o que dizem.
     Mas possibilitar-lhes os momentos de satisfação que eles mostram sentir com o manejo dos vários instrumentos é, para Carlos Guerreiro, razão suficiente para estar e continuar. "Estou sempre a mudar de vida mas isto é uma coisa que quero guardar" - afirma.

     Carlos Canadas, um jovem com paralisia cerebral, é seu aluno desde há sete anos. Está agora a adaptar-se a uma outra fase de utilização de novos instrumentos com os quais Carlos Guerreiro pretende criar uma orquestra mecânica.
     Sorridente, Canadas experimenta, maravilhado, a sensação que lhe chega através do "soundbeam", um instrumento que emite ultrasons que são projectados contra um alvo - qualquer movimento feito na sua direcção, seja com que parte do corpo for, provoca diferentes sons que ele utiliza como num jogo.
     Estranhos instrumentos musicais ocupam, aliás, aquele espaço. Objectos inventados e construídos pacientemente por Carlos Guerreiro, adaptados com cuidado às capacidades dos jovens. Através de um cordel ou de um pedal, há violas que tocam. E outros instrumentos suspensos por fios de nylon e amarrados a tubos metálicos, para facilitar o seu manejamento.
     Recentemente, foram ali colocados novos objectos musicais que funcionam através de computadores. "Achei que não tinha o direito de os privar das coisas novas que estão a ser experimentadas por toda a Europa", afirma Carlos Guerreiro. O objectivo é agora "juntar os instrumentos electrónicos com os acústicos" e compor a nova orquestra, com as diferentes sensibilidades de cada uma das pessoas. "Não há fórmulas para lidar com elas", explica o músico. "Faz-se um cerco, vê-se por onde se consegue entrar, é isso... ". Com os que não falam, Carlos Guerreiro comunica através do código Bliss. É um quadro com 100 símbolos que representam palavras como "por favor", "obrigado", "dormir", "gostar", "telefone", "preto", "triste" ou "difícil".

     Para se fazer entender, o jovem aponta para estes símbolos cujo significado aprende logo que entra na associação. É um trabalho longo e persistente mas que, muitas vezes, acaba por ser gratificante - "quando, por exemplo, eles conseguem encontrar alguma felicidade... uma felicidade que quero levar cada vez mais longe", diz Carlos Guerreiro.
     Já conseguiu levar um grupo de jovens com paralisia cerebral a tocar música popular portuguesa durante um festival organizado pelo centro do Alcoitão nos arredores de Lisboa. Acredita que muitas outras acções semelhantes podem ser repetidas por meio da musicoterapia. O seu objectivo é abrir, através da música, canais de comunicação com os doentes. Este método foi introduzido em Portugal, por volta dos anos 70, no ensino especial. Em outros países é utilizado também em psiquiatria e em geriatria. E, em alguns casos, em enfermarias de doentes terminais, em dentistas e na preparação para o parto, situações em que os doentes se limitam a ouvir a música.
     A maioria dos técnicos que utiliza a técnica da musicoterapia em Portugal, não tem formação especial neste campo, mas vai cumprindo as recomendações básicas para o exercício deste método, entre as quais, a ligação com outros técnicos de saúde, como psiquiatras e terapeutas.
     Tão importante como a técnica é, no entanto, o empenhamento e a ternura com que os monitores como Carlos Guerreiro se entregam à "missão" de fazer nascer a música nas pessoas.

Ana Torres (texto) Carlos Gil (fotos), Revista TEMPOlivre, Novembro 1998.

Da autoria de PAULO JACOB "O ensemble Ligados às Máquinas é um projeto musical inovador da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra que recria, através do sampling, uma 'manta de retalhos sonoros' onde ambientes e estilos musicais díspares se cruzam de uma forma revigorante. Do hip-hop ao fado, do rock ao techno, do blues à world music, da música erudita à música concreta, dos sons da publicidade às séries televisivas... tudo se conjuga num espectáculo sonoro único, fruto das vivências do colectivo."
https://www.facebook.com/events/1030436460334763/
Publicado a 22.05.2015

O DEFICIENTE, SUA FAMÍLIA E A IGREJA

Todo o Deficiente Físico e/ou Mental é Carente de Atenção e Carinho

Li, faz pouco tempo, um livro diferente de quase todos os que já havia lido: Sempre Haverá um Amanhã, de Giselda L. Nicolelis, Editora Moderna. Nesse livro a autora retrata a realidade de um pai de criança deficiente mental e sua família.
Quando nos vemos pessoalmente envolvidos com a deficiência mental, é que começamos a pensar naqueles que enfrentam a mesma situação. É uma pena que o ser humano seja assim. Lembro-me, com tristeza, de uma família que ia todos os sábados à igreja que eu frequentava. Eles tinham uma menina deficiente física e mental. Hoje me pergunto: Por que jamais me aproximei deles para conversar, para dar uma palavra de apoio, para mostrar minha solidariedade? Acho que era porque não tinha algo em comum. Afinal, eu não tinha um problema semelhante, não tinha ideia do que significava ter uma filha especial. Foi preciso acontecer comigo para eu poder compreender. E louvo a Deus por esta sublime e dolorosa luz.
Lembro-me, especialmente, da maneira como eu olhava para aquela criança, que já não era mais tão pequena; devia ter seus 12 anos. Olhava-a apenas com um sentimento de pena, de curiosidade. Olhava-a como quem olha para uma coisa deformada e estranha, que chama a atenção por ser diferente de algum modo. Toda a vez que alguém olha para a minha filha desta maneira, lembro-me de como eu mesma olhava para aquela criaturinha de Deus, e procuro compreender seus pensamentos.
Quanta coisa há para se aprender na vida! Quanto ensinamento para se receber! Pensando nisto, decidi compartilhar com meus irmãos em Cristo uma pequena parcela de minha experiência, na tentativa de levar a igreja a dar melhor atenção ao deficiente mental e à sua família.


Aceitação

No livro Como Ensinar Crianças na Escola Sabatina, de Donna Habenicht, editado pela CASA, à pág. 74, lemos o seguinte:

"As crianças retardadas precisam ser aceites como pessoas de valor e como almas preciosas aos olhos de Deus e como alguém por quem Cristo morreu. Elas têm sentimentos como qualquer outra criança normal. Relacione-se com elas numa base individual. Partilhe de seus problemas e de suas alegrias. Conheça-as pessoalmente visitando-as em casa. Mostre-lhes o amor de Deus através do tato. Muitos há que repelem as pessoas retardadas, mas essas pessoas precisam muito do amor físico. Ouça com os olhos e os ouvidos. O que elas não conseguirem dizer em palavras expressarão em linguagem física, justamente como fazem as crianças pequenas. Se você notar que não está sendo compreendida(o) diga o que pretende dizer, de outra maneira, uma maneira mais simples."
Caso seu filho queira saber por que determinada criança deficiente é daquele jeito, Donna Habenicht dá a seguinte orientação: "Joel é especial. Seu corpo é muito maior que o de vocês, mas a sua mente não cresceu tanto quanto seu corpo. Jesus ama Joel de maneira muito especial. Nós também o amamos."
A família do deficiente mental e/ou físico carrega um pesado fardo. Uma criança deficiente carece de atenção e carinho diuturnamente. Precisa se sentir amada e aceite, e às vezes os pais quase sucumbem sob o peso de tantas lutas. Diante disto, essas pessoas precisam da igreja mais do que ninguém. É preciso se aproximar em lugar de se afastar.
"Os pais de crianças retardadas estão sofrendo. Eles precisam de consolo e apoio. Frequentemente carregam uma terrível dor, perguntando-se por que Deus permitiu que isto acontecesse. O cuidado de uma criança como esta exige muito de seus pais. Eles sentem tristeza e se ressentem dos olhares maldosos e descorteses das pessoas; por isso, com frequência podem deixar de ir à igreja. Estas famílias constituem uma excelente busca para sua igreja. Elas responderão com prazer a uma igreja que se preocupa com elas." - Idem, págs. 75 e 76.

Como ajudar

Existem algumas regras que você pode pôr em prática na tentativa de se aproximar de uma família que tenha um deficiente mental e/ou físico.

1- Jamais pergunte o que aconteceu com a criança. Espere que os pais lhe contem. Eles o farão assim que se sentirem à vontade na sua presença.
2- Aproxime-se sempre com um sorriso e muita cordialidade.
3- Convide a família para almoçar, jantar, ou tomar um lanche em sua casa.
4- Convide a família para um passeio de sábado à tarde.
5- Trate a criança com ternura, mas sem afetação. Trate-a como trataria qualquer outra criança.
6- Converse com seus filhos antes de receber a visita. Tente lhes mostrar que aquela criança merece respeito e amor e peça que os pais da criança deficiente os orientem para saberem como brincar com ela.
7- Se sua igreja tiver alguma família com um deficiente, explique aos seus filhos o que significa uma deficiência e incentive-os a fazer amizade com ele. Procure ser um exemplo.
8- Sempre que surgir uma atividade social na igreja, convide a família do deficiente e, na medida do possível, inclua aquela criança. Por exemplo: aniversários, horas sociais, junta-panelas, piqueniques, etc.
9- Procure ter paciência com a criança deficiente. Às vezes, pode ser agressivo, dependendo do tipo de deficiência que tem. Se você notar que ele quer puxar o cabelo, bater, beliscar, empurrar, chutar, morder ou cuspir, mantenha certa distância para que ele não o atinja. Não pare de lhe dar atenção, mostrando-lhe, assim, que é amado. Caso ele o acerte, jamais revide. Ele não vai entender a razão de sua violência. O melhor a fazer é chamar um dos pais. Oriente seus filhos para que façam o mesmo.
10- Evite palpites bem-intencionados, porém, mal-colocados. Eles ferem mais do que ajudam. É muito difícil aconselhar alguém que esteja passando por uma situação da qual você não tem ideia alguma. Para pais de deficientes, o mais importante é ter amigos que os ouçam. Existem pessoas especializadas em aconselhar esses pais; deixe que elas façam esta parte.
11- Se você souber abordar a temática da deficiência de maneira prudente e natural, seus filhos saberão aceitar uma pessoa que é diferente deles e a tratarão com dignidade e respeito.


Temos, em nossa experiência, algumas crianças que sabem amar nossa filha e vêm a nossa casa para brincar com ela. Por enquanto são umas três ou quatro, apenas. Essas crianças fazem a alegria em nosso lar. Em todos os casos os pais destas crianças lhes explicaram o que significa a deficiência mental com palavras simples, e as estimularam a vir brincar com a nossa menina. Todas elas se sentem úteis e amadas, não só pela pequena, como por nós, que as prezamos muito.
Uma coisa importante que os pais de deficientes têm necessidade de aprender é não se importar com olhares estranhos. Tudo o que é diferente sempre chama a atenção. Busquem esses pais o apoio dos amigos e orem para que Deus os ajude a encarar a curiosidade alheia através dos olhos da misericórdia, da paciência e do perdão.
Outra coisa muito importante: falem sobre seu filho deficiente. Contem à igreja sua experiência. Mostrem o que é ter um filho assim, e quanta coisa há para se aprender e ensinar quando se passa por esta experiência. Em suma: transformem sua provação num ministério. Deus pode usá-los para alertar, ensinar, animar, ajudar e salvar almas que arfam sob um peso semelhante ao seu. Tenho procurado agir desta forma, pela graça do Senhor, e Ele tem me fortalecido e amenizado minha dor em grande medida. Lembremo-nos: Não estamos sozinhos. Há milhares de pais, como nós, que estão esperando uma palavra de compreensão e consolo. Existe alguém mais apropriado que nós para lhes estender a mão?

Artigo da Revista Adventista Brasileira, Agosto, 1996, escrito por "Charlotte Fermum Lessa - Natural de Bremen, Alemanha - formada em Pedagogia, pós-graduada em Psicopedagogia, especialista em PEI – Programa de Enriquecimento Instrumental, níveis I e II de Reuven Feuerstein. Presidente e fundadora do Instituto de Desenvolvimento Humano Kathia Lessa. Além de tradutora e intérprete, Charlotte é também escritora, com oito obras publicadas pela Casa Publicadora Brasileira, na área infanto-juvenil, entre elas: Deus me Fez Assim, Deus Fez Meus Sentidos, Um Amigo pra Jesus, Deus Ama os que São Diferentes, Sou Down e Sou Feliz, e O Mundo Maravilhoso da Bíblia Para Crianças."
É a esposa do Pastor Rubens Lessa, Redator da Casa Publicadora Brasileira e também autor de vários livros, nomeadamente o de Meditações Matinais de 2002, A Esperança do Terceiro Milénio, onde a certa altura da sua Dedicatória, escreve: "Quero, contudo, dedicar este livro à Kathia, a minha filha mais nova, que é deficiente mental. Ela jamais entenderá, neste mundo, o sentido deste meu gesto. No Céu, porém, compreenderá que o seu pai se tornou menos rude ao penetrar no seu maravilhoso universo infantil."
Vários sites na internet, nomeadamente:
http://institutokl.blogspot.pt/2010/09/saiba-mais-sobre-o-instituto-de.html

Para conhecerem melhor a nossa querida Andreia podem assistir a este belo programa com a sua família, num cantinho da grande sala comum da sua linda casa.



A Andreia também tem Muiiitos Amigos!!!
Mas, sem dúvida, porque ela também procura ser para eles uma "Amiga do Coração"! Vejamos:

POEMA

Era uma vez um ...
Não.
Era uma vez dois ...
Não.
Era uma vez ... quantos?
Já sei! Era uma vez muitos, não muitos, muitos, mas muitos "diferentes".
E era uma vez muitos, mas mesmo muitos "iguais".
Um dia os "grandes" pensaram:
- Vamos juntar os "diferentes" e os "iguais" e ver o que isto dá.
Então os "diferentes" que estavam nos seus "sítios" ou andavam por aí espalhados,
foram todos a pé ou de rodas, para os "sítios" dos "iguais".
Quando lá chegaram, pensaram espantados:
- Ena, tantos "diferentes"! ...
E os "iguais", mais admirados, murmuraram:
- Ena, tantos "iguais"! ...
Mas que confusão !
Então os "diferentes" são iguais e os "iguais" deram as mãos e foram brincar.
Passados uns tempos, os "grandes" voltaram àqueles "sítios" e ficaram muito contentes
quando viram que estavam todos cada vez mais iguais:
Os "diferentes" quase "iguais" e os "iguais" mais "iguais".

Bela poesia, inspiradora, oferecida à Andreia pelo seu grande amigo Dr João Craveiro (e seus familiares, amigos de há muitos anos).


BOA NOTÍCIA!

O grupo "LIGADOS ÀS MÁQUINAS" está disponível para participar
em espetáculos pelo país.

É só contatar o professor Paulo Jacob na Quinta da Conraria, na Paralisia Cerebral de Coimbra.
E pode informar-se e atualizar-se das suas atividades, através do site já apresentado.

No próximo dia 12 deste mês, pelas 21 horas, eles irão participar num espetáculo no Cine-Teatro Messias, na Mealhada, numa iniciativa de angariação de fundos.

DE  CERTEZA  QUE  A  SUA  PRESENÇA  JAMAIS  SERÁ  ESQUECIDA!!!

sábado, 7 de novembro de 2015

O DEUS DA BÍBLIA


"Uma mente finita só compreende o que lhe é revelado."

"A paz, se possível, mas a Verdade, a qualquer preço." Martinho Lutero

"As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei."
Deuteronómio 29:29


Conheça Dez Razões Para Crer Na Trindade

O mundo cristão vive novamente um intenso debate sobre a melhor maneira de entender o Deus da Bíblia. Desde o 4º século, quando houve uma enorme polarização em torno da divindade e do status de Cristo e do Espírito Santo, não se via tanto interesse no assunto da Divindade. Há uma verdadeira renascença na área da "trinitologia", para criar uma palavra. Os especialistas creditam o início do moderno interesse pela Trindade a dois grandes teólogos chamados Karl - Larl Barth (1886-1968), e Karl Rahner (1904 - 1984).

     No momento, a Igreja Adventista do 7º Dia enfrenta a acusação por parte de um grupo minoritário, de que ela se distanciou do ensino dos pioneiros e adoptou uma doutrina não bíblica. O que é que há de verdade nisso?
     Com relação à 1ª parte da afirmação, não precisamos de gastar espaço aqui: sabe-se há bastante tempo que pioneiros como Tiago White, Uriah Smith e John Loughborough eram antitrinitarianos. Alguns deles tinham vindo de igrejas que não aceitavam a Trindade, como a Conexão Cristã, e ainda defendiam esse ponto de vista. Porém sabe-se também que eram defensores da verdade progressiva e que a igreja começou a mudar a sua posição ainda no fim do século XIX, especialmente por influência de Ellen White.
     Para os Adventistas (e evangélicos) que têm a Bíblia como única regra de fé e prática, a grande questão é se a doutrina da Trindade tem uma base bíblica sólida ou não. Se não tem, deve ser abandonada; se tem, deve ser defendida e aprofundada. Considerando que a Bíblia não faz nenhuma declaração directa, explícita e indiscutível sobre o assunto, temos que trabalhar com os dados e as evidências disponíveis. Que o tema é complexo, ninguém discute. Agostinho (354-430), influente teólogo cristão, já dizia, a brincar, que quem nega a Trindade corre o risco de perder a salvação, mas quem tenta entendê-la corre o risco de perder a mente!
     Os teólogos que crêem na Trindade estão divididos quanto ao nível de presença do tema na Bíblia, especialmente no Antigo Testamento. Para Roger Olson e Christopher Hall, autores do livro The Trinity (Eerdmans, 2002), a igreja desenvolveu o tema porque ele aparece na Bíblia. "Se não fosse o testemunho bíblico enraizado na própria história da salvação, a igreja, à medida que se desenvolvia, teria tido pouca motivação, necessidade ou desejo de desenvolver um modelo trinitário de Deus", sugerem eles. "Embora a palavra Trindade não apareça na Bíblia, há evidência de que o conceito é bíblicamente apoiado no Antigo Testamento."
     No seu livro The Tripersonad God (Paulist, 1999), Gerald O'Collins observa que "Sabedoria", "Palavra" e "Espírito" aparecem no Antigo Testamento como "vívidas personificações" ao mesmo tempo "identificadas com Deus" e "distintas de Deus". Os três são "agentes personificados da actividade divina", "ainda não reconhecidos formalmente como pessoas", mas operando "com características pessoais".
     Alguns identificam a "Sabedoria" com a "Palavra" (o Filho, Cristo) e outros com o Espírito. De modo que, juntamente com o Pai, formariam uma proto-trindade. "O Antigo Testamento contém, por antecipação, categorias usadas para expressar e aprofundar a Trindade", pensa O'Collins.
     Eu diria que a tri-unidade de Deus, com base num monoteísmo dinâmico, é sugerida no Antigo Testamento, evidenciada no Novo Testamento e desenvolvida ao longo da história da igreja. A matéria-prima está na Bíblia, mas a teoria veio depois. Naturalmente, seria necessário um enorme livro para justificar e documentar essa afirmação. Mas os factos e argumentos apresentados a seguir ajudarão a firmar a nossa confiança no ensino bíblico.

EVIDÊNCIAS BÍBLICAS

Algumas fortes evidências em favor da Trindade vêm do próprio Antigo Testamento. Outras encontram-se no Novo. Vamos começar pelo Antigo. Isso mostrará que a formulação posterior do ensino da Trindade não contraria a revelação inicial.

1. A Combinação de Nomes de Deus no Plural Com os Verbos no Singular Sugere uma Unidade Plural.
     Se os escritores do Antigo Testamento quisessem fechar totalmente a porta à interpretação de que Deus é uma unidade plural, poderiam ter usado apenas as palavras El, Elah, Eloah e Adoni, que são nomes singulares, em vez de Elohim e Adonai, que são formas plurais. Mas não foi isso que fizeram. Na verdade, como lembra John Metzger, autor de The Triunity of God Is Jewish (Cenveo, 2005) "eles usam uma palavra plural na vasta maioria das vezes."
     Elohim, por exemplo, é usado cerca de 2600 vezes para Deus/deuses. Desse total, 2350 vezes o termo refere-se ao Deus de Israel. Como observa Metzger, isso "é muito mais vezes do que os usos no singular de El (258 vezes), Elah (95) e Eloah (58)". Depois da palavra 'filho' (ben), Elohim é o substantivo que mais aparece no Antigo Testamento. Trata-se de um nome genérico para Deus e é empregado 930 vezes em combinação com Yahweh. O interessante é que, em todos esses casos, Elohim aparece com o verbo no singular. Em Génesis, o texto literal do hebraico diz: "No princípio, Deus (plural) criou (singular)."
     Quando a referência é aos deuses falsos, que são muitos, os autores e tradutores usam o verbo no plural. Mas com relação a Deus, que é um, usam no singular. Parece que, ao permitir que os escritores bíblicos usassem essa fórmula de substantivo plural/verbo singular, Deus estava a dizer algo sobre a Sua natureza - uma Divindade formada por várias pessoas. Deus está acima da gramática, fazendo o plural combinar com o singular, e acima da matemática, fazendo três serem um. Filosoficamente, portanto, a ideia de uma unidade complexa e indivisível tem apoio bíblico.

2. O uso do pronome "nós" em referência a Deus sugere a pluralidade na Divindade.
     Na verdade, Deus usa o "nós" apenas quatro vezes (Génesis 1:26; 3:22; 11:7; Isaías 6:8), mas os casos são significativos. Se a Divindade é formada por uma pessoa apenas, porque teria Deus usado a primeira pessoa do plural (nós)? Várias explicações têm sido sugeridas: plural de majestade, plural abstracto de grandeza e majestade, plural de intensidade, plural de universalização, plural para destacar exclusividade, plural de deliberação consigo mesmo, plural que inclui o conselho ou a corte celestial (não outras pessoas da Divindade). Será que essas explicações são convincentes?
     A explicação mais divulgada é que esse "nós" se refere a um plural de majestade, não a uma pluralidade real. Por exemplo, a rainha de Inglaterra diz "nós", mas, na verdade, quer dizer "eu". O problema com essa explicação é que ela se refere a um costume moderno. Essa prática parece estranha à Bíblia hebraica e ao mundo do antigo Próximo Oriente. Na Bíblia, os reis de Israel e Judá usam o singular (eu) e não o plural (nós).

3. Os casos em que aparecem múltiplos Elohim/Yahwehs no mesmo contexto sugerem a existência de pluralidade na Divindade.
     Em Génesis 18, três personagens celestiais aparecem a Abraão em forma humana e comem com ele. A sequência deixa claro que um é Yahweh e os outros dois são anjos. Depois de os anjos saírem para Sodoma, Yahweh e Abraão têm um diálogo sobre a possibilidade de poupar a cidade. O texto indica que Yahweh queria comprovar a situação do povo para o destruir ou não. Então, confirmada a maldade, Génesis 19:24 diz que "fez o Senhor (Yahweh) chover enxofre e fogo da parte do Senhor (Yahweh), sobre Sodoma e Gomorra". Aparentemente, um Yahweh na Terra enviou fogo da parte do outro Yahweh no Céu.
     No Salmo 45:6,7, uma passagem messiânica, há referência a dois personagens divinos. Um ser chamado Elohim fala de outro Elohim, ou seja, Deus chama Deus ao Messias/Ungido. Outros textos que parecem indicar a existência de mais de um ser chamado Yahweh são Isaías 44:6, Oseias 1:7 e Zacarias 2:8, 9, mas não temos espaço para os comentar.

4. Referências a Deus usando verbos/modificadores no plural sugerem pluralidade na Divindade.
     Abraão, Jacob e David referiram-se a Deus usando verbos ou modificadores no plural. Em Génesis 20:13, Abraão diz literalmente: "Quando Deus (Elohim) me fizeram andar errante." Em Génesis 35:7, falando de Jacob, a tradução literal seria: "Deus (Elohim) Se lhe revelaram quando fugia da presença do seu irmão." Em 2 Samuel 7:23, de maneira literal, David afirma: "a quem Deus (Elohim) foram resgatar para Eles mesmos."
     Se o padrão geral, como vimos, é usar a palavra Deus no plural e o verbo no singular, por que razão esses autores/personagens se referiram a Deus como se fosse uma pluralidade? Para a mentalidade hebraica, talvez a ideia da pluralidade interna do Deus único fosse conhecida e aceitável. O monoteísmo radicalmente estrito, no sentido de não aceitar complexidade em Deus, pode ter sido um desenvolvimento posterior.
     Um pormenor pouco lembrado é que o hebraico, assim como o árabe, tem a forma dual. O dual indica plural, mas apenas no sentido de "um par" formado por dois objectos ou seres. Porém, em referência a Deus, nunca é usado o dual, o que indica que se Deus é uma unidade plural, tem que envolver mais de duas personalidades.

5. A existência do Mensageiro (Anjo) de Yahweh que fala/age como Yahweh sugere pluralidade na Divindade.
     O Anjo do Senhor é mencionado 56 vezes no Antigo Testamento e o Anjo de Deus, dez vezes. Em várias passagens, o Anjo de Yahweh aparece como distinto de Yahweh e, depois, fala na primeira pessoa como se fosse Yahweh. Isso fica claro, por exemplo, em Génesis 22, Êxodo 3 e Juízes 6. Em Juízes 2:1, surpreendentemente, esse anjo chega mesmo a dizer que tirou o povo de Israel do Egipto e fez aliança com Israel. Sabemos que foi Deus (Yahweh) quem fez essas coisas. Conclusão: o Anjo de Yahweh é um Yahweh distinto de Yahweh.
     Num artigo recente intitulado "The Identity of the Angel of the Lord", publicado na revista Hiphil, Mart-Jan Paul sugere que esse anjo não era especial e que apenas representava o Enviador (Yahweh), não apenas em palavras, mas também na aparência. A ênfase estaria na mensagem do Enviador divino, não no mensageiro. No entanto, parece que esse Anjo tinha algo mais. Em Êxodo 23:21, Yahweh diz que o Seu nome está no Anjo do Senhor. Isto significa que o Anjo de Yahweh tem a glória, o poder e a reputação de Yahweh (ver Isaías 42:8). Portanto, é provável que o Anjo de Yahweh seja mais do que um mensageiro "vulgar", que falava em nome de Yahweh.
     O Anjo do Senhor não precisa ser um agente criado, como a palavra 'anjo' pode sugerir. A expressão original, Malak Yahweh significa Mensageiro de Yahweh. Acontece que a Septuaginta traduziu Malak como Aggelos (que é a palavra grega para mensageiro), a versão em latim transliterou aggelos como angelus, e as traduções para o português, seguindo esse uso, passaram a usar anjo.

6. A palavra hebraica usada na Shema para descrever Deus como "um" pode sugerir complexidade na Divindade.
     Deuteronómio 6:4-9 é o grande credo do judaísmo. Era recitado duas vezes por dia pelos judeus devotos. A essência do texto está no verso 4: "Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus, é o único Senhor." Outras versões dizem: "o Senhor é um".
Como interpretar a palavra echad (um, único) é a questão. Há várias traduções possíveis. Vou mencionar três: 1) Yahweh é um, no sentido matemático, estrito e absoluto; 2) Yahweh é único, no sentido de que o status de Yahweh diante de outras divindades é singular; 3) Yahweh é uma unidade composta, no sentido de que é um Deus, mas inclui mais de uma pessoa.
     Num excelente artigo académico sobre o assunto, publicado no Journal of the Evangelical Theological Society em 2004, Daniel Block diz que "a questão fundamental na Shema é a devoção exclusiva e total a Yahweh". A tradução mais provável, nesse caso, seria: "Ouve, ó Israel, Yahweh é nosso Deus, Yahweh somente." Block cita a observação de H. C. Brichto de que "uma tradução afirmando que uma pessoa conhecida pelo nome próprio 'é um' seria tão sem sentido no caso de uma divindade como seria no caso de um ser humano".
     Apesar disso, o texto ensina o monoteísmo. Mas, será que a ênfase está na singularidade absoluta de Deus? Não necessariamente. Moisés Maimónides (1135-1204), influente filósofo e erudito judeu medieval, escreveu 13 princípios da fé judaica. No segundo princípio, ele expressou a crença num Deus, mas substituiu a palavra echad por yachid em Deuteronómio 6:4, a fim de eliminar qualquer possibilidade de complexidade em Deus. No entanto, o texto original traz echad, que permite essa possibilidade.
     Segundo Metzger, echad aparece na Bíblia hebraica com três sentidos: 1) uma unidade composta (por exemplo, em Génesis 2:24, echad descreve a unidade entre o homem e a mulher no casamento); 2) coisas e pessoas num contexto plural, mas que não precisam de formar uma unidade composta (por exemplo, em Êxodo 17:12, Arão e Hur sustentam as mãos de Moisés "um (echad) de um lado, e o outro (echad) do outro"); 3) coisas ou pessoas individuais, mas normalmente num contexto em que aparecem dois ou mais itens (por exemplo, em Êxodo 40:17, o tabernáculo foi levantado no "primeiro (echad) dia do mês").
     Assim, como observa Metzger, se Moisés estivesse a ensinar o monoteísmo absoluto, diria: "Yahweh, nosso Eloah (ou El, Deus), Yahweh é yachid (um absoluto)". Mas ele escreveu: "Yahweh, nosso Elohenu (nossos Deuses), Yahweh é echad (unidade composta)". A primeira frase reflecte o pensamento de Maimónides; a segunda, o de Moisés. Portanto, a Shema não elimina a possibilidade de complexidade em Deus.

7. No Novo Testamento, Jesus é apresentado como divino, o que sugere pelo menos uma bi-unidade na Divindade.
     No evangelho de João, nas cartas de Paulo, em Hebreus e no Apocalipse, aparece a cristologia mais alta possível.
João inicia o seu evangelho dizendo que "o Verbo era Deus". Em Colossenses 1:15-17, Paulo atribui a Cristo a criação e a preservação do Universo. São funções divinas. Em Filipenses 2:5-8, o apóstolo fala do esvaziamento e da exaltação de Cristo. O Filho existia na forma de Deus (ou seja, reflectia a plenitude da divindade e exercia todos os poderes de Deus), abriu mão das Suas honras e talvez poderes para redimir a humanidade (tornou-Se ser humano), foi exaltado acima de todo o nome (ou seja, tem o status de Deus, pois o nome mais exaltado do Universo é o de Deus), e deve receber adoração de todos (todo o joelho deve dobrar-se diante d'Ele e reconhecê-l'O como Senhor). Em Hebreus 1:1-4, o autor exalta o Filho como Criador/Revelador/Redentor e diz que Ele é a "expressão exacta" de Deus. Por outras palavras, é Deus. No Apocalipse (1:8,17; 21:6; 22:13), o Pai e Cristo partilham o título de Alfa e Ómega, o Princípio e o Fim, o Primeiro e o Último. Note que o autor se baseou em Isaías 44:6 e 48:12, onde Deus aplica o título a Si mesmo.
     A expressão preferida por João para ressaltar a natureza divina de Cristo é "Filho de Deus", ou apenas, "Filho". Embora o termo filho fosse usado num sentido geral (por exemplo, Israel é filho de Deus), o apóstolo usa-o num sentido mais técnico. Filho indica igualdade, não diferença, mesmo quando usado num sentido metafórico. Não é por acaso que João (5:18) regista que os judeus queriam matar Jesus porque "dizia que Deus era Seu próprio Pai, fazendo-Se igual a Deus". Isso mostra a igualdade essencial do Filho com o Pai. Qualquer filho pertence à mesma categoria do pai. Alguns filhos podem até ter mais destaque do que os pais (por exemplo, Alexandre Magno sobrepujou o seu pai, Filipe, rei da Macedónia).
     Já o apóstolo Paulo preferia "Senhor" para indicar o status divino de Cristo. Além de usar o termo cerca de 180 vezes em referência a Cristo, usou-o também em relação ao Pai. Ele aplicou a Cristo passagens que originalmente falavam de Yahweh. Para citar um exemplo marcante, Filipenses 2:10, 11 é uma elaboração de Isaías 45:23-25, que fala de Yahweh. É importante relembrar aqui que Senhor é a tradução do termo grego Kyrios e Kyrios é a tradução do hebraico Yahweh, o nome pessoal do Deus de Israel. Kyrios é o termo que a Septuaginta (versão grega da Bíblia Hebraica) usa para traduzir Yahweh. Para Paulo, é o Espírito Santo que nos leva a reconhecer que Cristo é Senhor/Kyrios/Yahweh (1 Coríntios 12:3).
     Se não bastasse toda essa ênfase na divindade de Cristo, o próprio Jesus Se apresentou como divino. Em João 10:30, disse: "Eu e o Pai somos um." Em certo sentido, Jesus cria uma nova versão para a Shema, a declaração de Moisés em Deuteronómio 6:4 de que Deus é um. O facto é que Cristo Se identificou com o Pai de tal modo que os líderes judeus entenderam que Ele reivindicava o status divino (João 8).

8. No Novo Testamento, Jesus é adorado como Deus, o que sugere uma reinterpretação do monoteísmo judaico.
     Num artigo publicado na revista académica New Testament Studies, intitulado "The Worship of Jesus in Apocalyptic Christianity", o teólogo Richard Bauckham chamou a atenção para o facto de que, nos escritos judaicos e cristãos, as figuras angélicas recusam a adoração (Apocalipse 19:10, 22:8,9), mas Jesus é apresentado como digno de adoração (Apocalipse 5:6-14). No primeiro século depois da nossa era, figuras angélicas e humanas de destaque no Céu (como Moisés) eram exaltadas. Contudo, não eram adoradas, pois a adoração era reservada exclusivamente para Deus, o que configurava o monoteísmo judaico-cristão. Isso mostra a posição divina atribuída a Jesus. Ele é adorado como Deus, ao lado de Deus. A Sua adoração é legítima, porque Ele é Deus.
     Larry Hurtado fez um estudo monumental sobre a devoção a Jesus no período inicial do cristianismo, intitulado Lord Jesus Christ (Eerdmans, 2003). Segundo ele, Jesus era reverenciado e adorado como Deus, mas não tinha um culto separado. Jesus "é caracteristicamente reverenciado pelos primeiros cristãos como parte da sua adoração ao único Deus da tradição bíblica". Nesse sentido, a adoração a Jesus era diferente da adoração aos deuses do cenário religioso romano. "Há duas figuras distintas, Deus e Jesus, mas nas cartas de Paulo vê-se uma clara preocupação em entender a revelação dada a Jesus como uma extensão da adoração a Deus", escreve Hurtado.
     Alguns acham que a devoção a Jesus como divino surgiu tardiamente e num ambiente gentio. Mas Hurtado demonstra que essa devoção surgiu muito cedo, de forma rápida e no ambiente cristão judaico. Antes de os credos serem elaborados, os cristãos já adoravam Cristo e viviam/morriam por Ele. Como poderia um cristianismo nascido dentro do judaísmo adepto do monoteísmo adorar Jesus? Ele sugere que houve uma reelaboração do monoteísmo para incluir Jesus na identidade do Deus de Israel. O altíssimo conceito de Jesus no meio cristão e as revelações de Deus aos apóstolos permitiram que o cristianismo inicial desse esse passo e redefinisse a sua compreensão de Deus.

9. O Espírito Santo é apresentado na Bíblia como um agente inteligente e distinto de Deus, o que sugere a existência de uma terceira pessoa na Divindade.
     A perspectiva bíblica sobre o Espírito Santo é complexa, mas coerente. Em síntese, o Espírito é apresentado como um agente divino pessoal que possui todos os poderes e as qualidades de Deus. Ele pensa, sente, decide, guia e capacita, para citar algumas das Suas actividades. Tem mente e perscruta a mente de Deus. É identificado com Deus, faz o que Deus faz e pode ser enviado/retirado, o que sugere que é divino e distinto de Deus.
     A Bíblia apresenta duas ênfases sobre o Espírito: uma mais impessoal e metafórica (como vento, chuva e fogo), para destacar o Seu ilimitado poder e múltiplas actuações, e outra mais pessoal e realística (como confortador, representante de Cristo e revelador da verdade), para destacar a presença de Deus/Cristo com os crentes. A ênfase metafórica não deve ser usada para descaracterizar a personalidade do Espírito. No Novo Testamento há uma identificação dinâmica entre Deus, Cristo e o Espírito, sem ofuscar a distinção entre Eles. O Espírito incorpora e representa a personalidade de Deus/Cristo em acção, mas tem personalidade/identidade própria.
     Para a mentalidade moderna, a palavra 'espírito' pode sugerir algo etéreo e imaterial. Mas, a intangibilidade não era a ênfase dos antigos autores hebreus. Na Bíblia ruah (espírito, em hebraico) ou pneuma (em grego) não é apresentado como algo abstracto e imaterial, mas como um princípio de vida poderoso, dinâmico e subtil. A ideia de que Deus não pode ter corpo e forma vem da filosofia grega. Na tradição hebraica, Deus é retratado com uma forma antropomórfica gloriosa. Por isso, é perfeitamente bíblico entender o Espírito como um agente real e tangível. Tanto é que, em Hebreus 1:24, os anjos são descritos como 'espíritos' (pneumata) e, no entanto, têm matéria. O Espírito transcende a corporalidade, mas não é incompatível com ela.
     Quando a Bíblia define Deus como espírito, a ênfase está no poder sem limites e na capacidade de cruzar todas as fronteiras e ser efectivo em todos os lugares ao mesmo tempo.
A realidade infinita, poderosa e irresistível do Ruah/Pneuma divino está em oposição à realidade finita, fraca e vencível da carne (basar/sarx) humana. Esse contraste pode ser visto em Isaías 31:3. O Espírito é o glorioso e poderoso agente divino que permite que Deus esteja efectivamente presente em todos os lugares, sem depender das criaturas.

10. As fórmulas triádicas sugerem a tri-unidade da Divindade.
     No Novo Testamento há várias menções ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo (Mateus 28:18; 1 Coríntios 12:4-6; Romanos 15:30; 2 Coríntios 1:21,22; 13:14; Efésios 2:18; Judas 20, 21). Nos escritos de Paulo, há pelo menos 14 passagens com padrão trinitário, com diferentes ordens/combinações. Essas sequências sugerem uma igualdade em natureza e posição, embora não em função. Se os três aparecem no mesmo plano, então devem pertencer à mesma categoria divina. Além disso, não faria sentido os escritores bíblicos mencionarem duas pessoas reais e um poder impessoal em paralelo. Se o Pai e o Filho são seres pessoais, então o Espírito Santo também deve ser.

A UNIDADE DIVINA

Para concluir, podemos dizer que a fórmula da Trindade é baseada na revelação pessoal de Deus. Karl Barth disse: "Deus revela-Se a Si mesmo. Ele revela-Se a Si mesmo através de Si mesmo. Ele revela-Se a Si mesmo." A revelação de Deus em Cristo é directa/divina. A Sua comunicação connosco através do Espírito Santo é directa/divina. A ideia de um Deus que nos cria e salva pessoalmente, por meio do Filho e do Espírito Santo, faz parte da própria essência do evangelho.

     A nossa compreensão da identidade de Deus é definida pelos eventos temporais, ou seja, as acções divinas entre nós, as quais são evidentemente trinitárias. Querer raciocinar abstractamente sobre o ser de Deus, independente da Sua revelação, é quase um acto de incredulidade e presunção.
     É correcto, portanto, adoptar o paradoxo bíblico de um Deus singular e plural, uno e triúno. Deus não é complicado, mas é complexo. Embora certas interpretações trinitarianas sejam anti-bíblicas, o conceito é bíblico. Longe da rigidez, impassibilidade e atemporalidade das pressuposições metafísicas, a Divindade bíblica é composta por três pessoas reais, eternas e iguais, o que não significa uma simetria absoluta em todos os detalhes.
     Deus é uma sociedade de amor. O Pai, o Filho e o Espírito são distintos, mas não são deuses separados e concorrentes, o que seria triteísmo. Estão unidos por vínculos indissolúveis. São um em natureza, propósito, vontade, poder, amor, posição e glória. Mais do que isso, Jesus disse que podemos tornar-nos um com Deus através da união espiritual (João 17:20-23). Assim, o círculo trinitário de amor é expandido para incluir toda a humanidade.
     Não é fácil entender a complexidade do ser divino, especialmente porque não temos boas analogias disponíveis. Mas isso serve de estímulo para continuarmos a estudar. Se compreendêssemos totalmente Deus, perderíamos o interesse por Ele e pararíamos de crescer. Ao estudá-l'O, a compreensão é ampliada e a teologia refinada. O infinito expande a nossa mente.

Sem dúvida, o Deus bíblico é dinâmico, activo, inclusivo, envolvente e complexo de mais para ser entendido e explicado pela mente humana finita. Diante da Sua infinita grandeza, a última palavra não é teologia, mas doxologia.



Marcos de Benedicto, Editor de livros da Casa Publicadora Brasileira in Revista Adventista, Novembro 2007.
Pode ler mais em: http://centrowhite.org.br/perguntas/perguntas-e-respostas-biblicas/a-trindade-na-biblia/

LOUVOR  AO  TRINO  DEUS


(Gostará de ler mais em Leituras para a Vida, links 1R, 07.11.2015)

segunda-feira, 26 de outubro de 2015


NOVA  OPORTUNIDADE






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domingo, 4 de outubro de 2015

Dia Mundial do Animal



(Ai que ternurinhas!... eu não tenho nada disso!... Fiel)


FIEL
Na luz do seu olhar tão lânguido, tão doce, havia o que quer que fosse d’um íntimo desgosto: era um cão ordinário, um pobre cão vadio que não tinha coleira e não pagava imposto. Acostumado ao vento e acostumado ao frio, percorria de noite os bairros da miséria à busca dum jantar. E ao ver surgir da lua a palidez etérea, o velho cão uivava uma canção funérea, triste como a tristeza osseânica do mar. Quando a chuva era grande e o frio inclemente, ele ia-se abrigar às vezes nos portais; e mandando-o partir, partia humildemente, com a resignação nos olhos virginais. Era tranquilo e bom como as pombinhas mansas; nunca ladrou dum pobre à capa esfarrapada, e, como não mordia as tímidas crianças, as crianças então corriam-no à pedrada.

Uma vez casualmente, um mísero pintor, um boémio, um sonhador, encontrara na rua o solitário cão. O artista era uma alma heroica e desgraçada, vivendo numa escura e pobre água furtada, onde sobrava o génio e onde faltava o pão. Era desses que têm o rubro amor da glória, o grande amor fatal, que umas vezes conduz às pompas da vitória, e que outras vezes leva ao quarto do hospital. E ao ver por sobre o lodo o magro cão plebeu, disse-lhe:
- O teu destino é quase igual ao meu: eu sou como tu és, um proletário roto, sem família, sem mãe, sem casa, sem abrigo; e quem sabe se em ti, ó velho cão de esgoto, eu não irei achar o meu primeiro amigo!...

No céu azul brilhava a lua etérea e calma; e do rafeiro vil no misterioso olhar via-se o desespero e ânsia d’uma alma, que está encarcerada, e sem poder falar. O artista soube ler naquele olhar em brasa a eloquente mudez dum grande coração; e disse-lhe:
- Fiel, partamos para casa: tu és o meu amigo, e eu sou o teu irmão.
E viveram depois assim por longos anos, companheiros leais, heroicos puritanos, dividindo igualmente as privações e as dores. Quando o artista infeliz, exausto e miserável, sentia esmorecer o génio inquebrantável dos fortes lutadores; quando até lhe acudiu às vezes à lembrança partir com uma bala a derradeira esp’rança, pôr um ponto final no seu destino atroz; nesse instante do cão os olhos bons, serenos, murmuravam-lhe: "Eu sofro, e a gente sofre menos, quando se vê sofrer também alguém por nós."

Mas um dia, a Fortuna, a deusa milionária, entrou-lhe pelo quarto, e disse alegremente: "Um génio como tu, vivendo como um pária, agrilhoado da fome à lúgubre corrente! Eu devia fazer-te há muito esta surpresa, eu devia ter vindo aqui p’ra te buscar. Mas moravas tão alto! E digo-o com franqueza, custava-me subir até ao sexto andar. Acompanha-me; a glória há de ajoelhar-te aos pés!..." E foi; e ao outro dia as bocas das Frinés abriram para ele um riso encantador; a glória deslumbrante iluminou-lhe a vida como bela alvorada esplêndida, nascida a toques de clarim e a rufos de tambor! Era feliz. O cão dormia na alcatifa à borda do seu leito, e logo de manhã vinha beijar-lhe a mão, ganindo com um ar alegre e satisfeito.

Mas ai! O dono ingrato, o ingrato companheiro, mergulhado em paixões, em gozos, em delícias, já pouco tolerava as festivas carícias do seu leal rafeiro. Passou-se mais um tempo; o cão, o desgraçado, já velho e no abandono, muitas vezes se viu batido e castigado pela simples razão de acompanhar seu dono. Como andava nojento e lhe caíra o pelo, por fim o dono até sentia nojo ao vê-lo, e mandava fechar-lhe a porta do salão. Meteram-no depois num frio quarto escuro, e davam-lhe a jantar um osso branco e duro, cuja carne servira aos dentes d’outro cão. E ele era como um roto, ignóbil assassino, condenado à enxovia, aos ferros, às galés. Se se punha a ganir, chorando o seu destino, os criados brutais davam-lhe pontapés. Corroera-lhe o corpo a negra lepra infame. Quando exibia ao sol as podridões obscenas, poisava-lhe no dorso o causticante enxame das moscas nas gangrenas.

Até que um dia, enfim, sentindo-se morrer, disse: "Não morrerei ainda sem o ver; a seus pés quero dar meu último gemido..." e meteu-se-lhe no quarto, assim como um bandido. E o artista ao entrar viu o rafeiro imundo, e bradou com violência:
- Ainda por aqui o sórdido animal! É preciso acabar com tanta impertinência, que esta besta está podre, e vai cheirando mal!
E, pousando-lhe a mão cariciosamente, disse-lhe com um ar de muito bom amigo:
- Ó meu pobre Fiel, tão velho e tão doente, ainda que te custe anda daí comigo.
E partiram os dois. Tudo estava deserto. A noite era sombria; o cais ficava perto; e o velho condenado, o pobre lazarento, cheio de imensas mágoas sentiu junto de si um pressentimento, o fundo soluçar monótono das águas.

Compreendeu enfim! Tinha chegado à beira da corrente. E o pintor, agarrando uma pedra atou-lh’a na coleira, friamente cantando uma canção d’amor. E o rafeiro sublime, impassível, sereno, lançava o grande olhar às negras trevas mudas com aquela amargura ideal do Nazareno recebendo na face o ósculo de Judas. Dizia para si: "É o mesmo, pouco importa. Cumprir o seu desejo é esse o meu dever. Foi ele que me abriu um dia a sua porta. Morrerei, se lhe dou com isso algum prazer." Depois, subitamente, o artista arremessou o cão na água fria. E ao dar-lhe o pontapé caiu-lhe na corrente o gorro que trazia. Era uma saudosa, adorada lembrança outrora concedida pela mais caprichosa e mais gentil menina, que amara, como se ama uma só vez na vida.

E ao recolher a casa ele exclamava irado:
- E por causa do cão perdi o meu tesouro! Faria bem melhor se o tivesse envenenado! Maldito seja o cão! Dava montanhas d’oiro, dava a riqueza, a glória, a existência, o futuro, para tornar a ver o precioso objecto, doce recordação daquele amor tão puro.
E deitou-se nervoso, alucinado, inquieto. Não podia dormir. Até que ao nascer da manhã o vivido clarão, sentiu bater à porta. Ergueu-se e foi abrir. Recuou cheio de espanto: era o Fiel, o cão, que voltava arquejante, exânime, encharcado, a tremer, e ao uivar no último estertor, caiu-lhe da boca, ao tombar fulminado, o gorro do pintor!


Guerra Junqueiro (Apresentação livre)
E agora, quem tiver Coragem (não tive para colocar aqui), pode ver e chorar com este vídeo:
https://www.youtube.com/watch?v=P0CRbUDHCbc

PESSOAS  MARAVILHOSAS  QUE  FAZEM  A  DIFERENÇA

         
"... Até 1870, podia-se contar por milhões o número de bisontes que viviam em liberdade nas pradarias do continente americano. Quando chegava o Outono, época da sua migração, os índios viam desfilar rebanhos com longos quilómetros de comprimento. Conta-se que, um ano, se viu mesmo um rebanho de 60 km, o qual precisou de mais de 5 dias para atravessar a região! '... Os dorsos lanosos dos colossos formavam uma escura massa movente que se estendia até ao horizonte.'
         Durante as últimas décadas do século passado o número destes animais diminuía rapidamente em consequência da chegada do homem a estas regiões. Com efeito, cerca de 1830, o caminho-de-ferro transcontinental atravessava o território dos bisontes e, com ele, um exército de caçadores. Uns foram abatidos e abandonados, outros mortos por causa da sua pele e outros apenas porque a sua língua era um prato muito apreciado.


(Também é sorte demais... não era preciso tanto!)

         Em 1880, após um recenseamento no território dos Estados Unidos, contaram-se apenas 1600 bisontes... mais uma espécie animal estava em perigo de extinção à superfície da Terra! Foi preciso esperar por 1920, quando o número destes animais era ainda mais reduzido, para o Estado decretar leis que permitissem salvaguardar a espécie mais característica da pradaria americana. Foi escolhida uma área do parque nacional de Yellowstone, onde se encerraram todos os bisontes encontrados nos Estados Unidos: - e eles foram apenas 21!"

Tout L'Univers, 10 de Outubro 1962.


O MELHOR AMIGO DO HOMEM

"Ela, porém, respondeu, e disse-lhe: Sim, Senhor; mas também os cachorrinhos comem, debaixo da mesa, as migalhas dos filhos" (dos seus senhores). Marcos 7:28.

     O que lhe vem à mente quando ouve a frase "o melhor amigo do homem"? Se a sua mente estiver programada como a minha, pensará no seu cão preferido, ou talvez num animal de estimação que tem agora ou que já teve. É possível que conheça um cão que queira ficar ao seu lado, correr à sua frente quando vai dar um passeio, que volta constantemente para se certificar do seu progresso, se senta ao seu lado quando faz uma pausa para descansar, que apanha um pau ou uma pedra que quer que você atire para o ir apanhar. Um cão destes protegê-lo-á de pessoas suspeitas ou lutará por si até à morte.
     No número de novembro de 1878 de Our Dumb Animals (Os Nossos Animais Irracionais), newsletter da Associação de Massachusetts para a Prevenção da Crueldade para com os Animais, foi publicada a história de um cão chamado Delta.
     Delta e o seu dono, Severinus, viveram em Herculaneum pouco tempo antes da erupção do Monte Vesúvio. Delta não só salvou o seu dono de morrer afogado no mar, mas protegeu-o de um bando de ladrões e, de outra vez, de uma loba a quem tinham sido roubados os filhotes. A história continua a descrever como o animal se tornou no melhor amigo e protetor do único filho de Severinus. Quando se deu a erupção, Delta cobriu a criança com o seu corpo, mas sem sucesso. Ficaram os dois soterrados juntos.
     Embora os cães nos sirvam extraordinariamente bem nos dias de hoje (cães trabalhadores de todos os tipos, ex.: cães-polícias, guardas, pastores, socorristas, guias para cegos, cães de companhia e animais de estimação), a Bíblia tem pouco a dizer a seu favor nas 47 referências que faz a seu respeito. Job 30:1 menciona um cão-pastor de uma forma depreciativa. A conversa de Jesus com a mulher cananeia sugere que os cães eram animais de estimação que viviam nas casas, e apanhavam as migalhas que caíam da mesa, tal como o fazem hoje. Possivelmente os cães serviriam como cães de guarda (cf. Êxodo 11:7). Contudo, a maior parte das passagens referem-se a eles de forma negativa: como animais alimentados de carniça (Êxodo 22:31; I Reis 14:11; 16:4; 21:19), criaturas com hábitos nefastos (Juízes 7:5 e 6; Salmo 22:20; 59:14; Provérbios 26:11), e rejeitados (I Samuel 17:43; 24:14; II Reis 8:13; Filipenses 3:2; Apocalipse 22:15). Em sítio algum da Bíblia se descreve ternamente a devoção e o serviço de um cão pela humanidade.
     Faz-me pensar no porquê, uma vez que os cães são agora tão amados. Será, eventualmente, porque O Próprio Deus Quer Ser O Melhor Amigo Do Homem?


Senhor, o Teu amoroso cuidado, atenção, provisão, cura, proteção e salvação são infinitamente mais importantes para mim. Dá-me um coração que Te seja sempre fiel.

David A. Steen, Professor Catedrático de Biologia e Presidente do Departamento de Biologia da Universidade Adventista de Andrews, EUA, in O Deus das Maravilhas, 21 de dezembro de 2014.