terça-feira, 12 de dezembro de 2017


MAIS, MUITO MAIS!!!

Reflexões Sobre a Superioridade de Jesus



Mais, melhor, mais alto, mais rápido - este é o lema do nosso tempo. Mais dinheiro, mais férias, mais conforto. Já percebeu que, em alguns jardins, a decoração de Natal fica mais elaborada a cada ano? Precisamos de mais e melhores presentes, ferramentas mais rápidas.
"Mais, melhor, mais rápido", às vezes, é necessário para nos manter focados num objetivo. Por outro lado, pode tornar-se uma "corrida de rato". Há ainda, outro problema: Num ponto ou noutro - se somos bem-sucedidos - podemos nos sentir superiores aos outros, tornando-nos arrogantes e orgulhosos. Isso me lembra um vendedor talentoso que fechava suas vendas com a seguinte frase: "Deixe-me mostrar-lhe uma coisa que vários dos seus vizinhos pensam que você não tem condições de comprar."

Assim Como Nós
Ouvi a história de dois patos e um sapo que viviam muito felizes juntos, num lago da fazenda. Eram os melhores amigos, divertiam-se e brincavam na água juntos. Quando, porém, os dias quentes de verão chegaram, o lago começou a secar, e ficou evidente que teriam que se mudar dali. Isso não era nenhum problema para os patos, mas o sapo estava preso. Para ajudá-lo, eles montaram um esquema genial. Iriam segurar, com o bico, as duas pontas de uma vara e o sapo poderia ir pendurado pela boca, no meio dela, enquanto as aves voavam para outro lago. O plano funcionou, mas enquanto os patos voavam, um fazendeiro olhou admirado e pensou: "Mas que solução inteligente! Quem será que teve essa ideia?"
O sapo abriu a boca e disse: "Fui eu!" E o resultado foi trágico.
Estamos todos viajando em nosso ego e em exaltações egoístas, mas existe apenas Alguém superior. Esse é o assunto abordado no livro de Hebreus: A Superioridade. Ali encontramos que o bom foi ultrapassado pelo melhor, e o melhor, tem um nome: Jesus, nosso Senhor.

A Superioridade de Jesus
Em Hebreus 1, Jesus é descrito como muito superior aos anjos. O capítulo 3 de Hebreus descreve Jesus como superior a Moisés, um dos maiores líderes e administradores de todos os tempos e um dos profetas mais importantes, o que teve o privilégio que nenhum outro ser humano jamais teve - ver Deus face a face. Em Hebreus 4, Jesus ultrapassa Josué e no capítulo 5, fica acima de Arão.
Em Hebreus 7, Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus altíssimo (e símbolo de Jesus), é apresentado como maior que Abraão, e coloca o sacerdócio de acordo com sua ordem: sacerdócio de Cristo, acima do sacerdócio levita. Jesus é o verdadeiro sumo sacerdote - "santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores e feito mais alto do que os céus." (7:26).
Jesus - mais exaltado, melhor, superior.
De acordo com Hebreus 9:23, o santuário celestial, para sua purificação, requer "sacrifício superior" ao sangue de novilhos e bodes. Requeria o único Filho, um sacrifício por todos (9:25-28). Seu "sangue da aspersão que fala coisas superiores ao que fala o próprio Abel" (12:24); Seu sacrifício, única oferta eficaz, supera todas as outras. Ele é o Autor da nossa salvação.

Por que Ele é Superior
O autor de Hebreus apresenta Jesus como superior por tês razões básicas:
1. Por causa de Sua posição. Jesus é melhor, superior, mais exaltado, porque Ele é o Filho, o Criador, Sustenedor, o único Sacerdote-Rei legítimo.
2. Por causa de Seu ministério no passado. Em outras palavras, Ele é superior porque Se humilhou, tornou-Se humano, viveu entre nós, sofreu e morreu por nós - e tudo sem pecado.
O autor da carta aos hebreus usa um capítulo quase inteiro para falar da encarnação e humilhação de Cristo. Essa é uma verdade que devemos manter em mente o tempo todo, permitindo que nosso Senhor esteja connosco e aprofundando nosso amor por Ele.
3. Por causa do que Ele está fazendo por nós hoje e fará no futuro. Ele nos redimiu e, por meio dEle, com plena confiança, temos acesso ao trono de Deus.
Nada e ninguém mais nos pode salvar. Jesus é sem igual, e nós, como Seus seguidores, devemos proclamar Sua singularidade, não mantendo-a escondida por ser politicamente correto. Não há dúvida de que devemos ser corretos, polidos e amáveis para com os membros de outras religiões no mundo. Mas, como Paulo, "nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios" (I Coríntios 1:23).
Jesus é maior e mais digno de glória porque Se tornou um connosco, simpatizou connosco, ajudou-nos, intercede por nós e, conforme prometeu, dará fim a todas as coisas com Seu reino de glória.

Resultados do Ministério Superior de Jesus
Nas palavras de Hebreus, os resultados do ministério superior de Cristo por nós incluem uma melhor aliança (7:22; 8:6); melhor esperança (7:19); melhor promessa (8:6); melhor purificação (9:13, 14); melhor herança (9:13, 14); melhor pátria (11:16) e, finalmente, melhor ressurreição (11:35). Ele preparou "um plano ainda melhor para nós" (11:40, NTLH).
É interessante notar que muito do resultado da superioridade de Jesus parece ser direcionada para o futuro. Nossa vida aqui é um prelúdio para a vida futura. Embora esse prelúdio seja importante, provê a oportunidade de recebermos vida eterna por meio de Jesus Cristo. Mas Suas "melhores promessas" e "melhor aliança" já nos afetam aqui e agora. É em vida que devemos ter certeza da salvação. É agora que Ele coloca em nós o desejo de guardá-la e de obedecer a Jesus e amá-Lo. Jesus dá sentido à nossa vida hoje e provê um futuro brilhante para nós.

A Superioridade de Cristo e Nós
Como somos afetados pela superioridade de Jesus?
1. Somos chamados para honrar a Jesus como Aquele a quem pertencem a glória e a honra, não somente durante a época do Natal, mas durante o ano todo. Diariamente meditamos e lemos sobre Ele, abrimos nosso coração em oração a Ele, confiamos nEle. Obedecemos aos Seus mandamentos e, pela Sua graça, vivemos pelos princípios que governaram Sua vida na Terra. Unimo-nos às hostes celestes, adorando-O e curvando-nos diante dEle.
2. Somos chamados a abandonar o orgulho e a confiança-própria. Em sua auto-biografia, Franklin afirmou corretamente: "Não existe, talvez, nenhuma de nossas paixões naturais tão difícil de subjugar como o orgulho... Podemos espancá-lo, abafá-lo, mortificá-lo, quanto quisermos, que ele se mantém vivo... Ainda que julgue crer que o superei completamente, eu poderia, provavelmente, orgulhar-me de minha humildade."
O orgulho nunca foi encontrado em Jesus, assim como não deveria ser encontrado em Seus seguidores, pois, afinal de contas, tudo que somos e temos é presente de Deus e não temos de que nos orgulhar. Se queremos nos gloriar, que nos gloriemos em nosso Senhor Jesus Cristo.
3. Somos chamados a renovar nossa decisão por esse maravilhoso Senhor e esperar tudo dEle. Todos os heróis da fé, em Hebreus 11, nos ensinam como escolher a Cristo e nunca abandoná-Lo.

Mais, muito mais e melhor? Sim, como em Jesus Cristo. E também naqueles que, após serem salvos, O seguem de perto, servindo a Ele e aos outros cada vez mais, sendo elevados para mais e mais alto, esquecendo-se de si mesmos e focalizando no mais excelente Senhor - para todo o sempre.


Ekkehardt Mueller é diretor associado do Instituto de Pesquisas Bíblicas da Associação Geral da Igreja Adventista do 7º Dia em Silver Spring, Maryland, EUA. Devocional da Revista ADVENTIST WORLD, Dez 2007. (Pode encontrar estas Revistas nos Links 3I).



JESUS É MELHOR, SIM!!!



MILAGRE NUM CÁRCERE...

Israel Martinez era chefe do serviço secreto em Minatitlán, México. Na véspera do ano novo, ele e outro oficial sob suas ordens embebedaram-se. Na manhã seguinte, quando já havia começado o ano de 1969, o companheiro de Israel, que ainda não estava totalmente sóbrio, tentou tirar a arma do seu chefe.
"Não toque no meu revólver", gritou Israel. Houve uma breve luta entre os dois homens uniformizados. No meio da confusão, o revólver disparou e o amigo de Israel caiu ao chão, morto. A bala atravessou-lhe o coração.
As autoridades policiais prenderam Israel. A arma fatal era sua. Tinha morto outro oficial. Para piorar a situação, a vítima era filho do prefeito, e a tragédia ocorreu a alguns passos da prefeitura. Israel sabia que o seu caso era extremamente sério. Sem dúvida, passaria muitos anos na cadeia. Tinha 26 anos e havia estado na polícia e no exército desde os 15 (um oficial o aceitara como se tivesse 21 anos). O futuro mostrava-se muito escuro.
No cárcere encontrou ladrões que ele mesmo aprisionara em ruas escuras, viciados em drogas que ele tinha descoberto nos seus esconderijos e mandara prender, criminosos cujos planos havia descoberto enquanto ouvia suas conversas em salões de bebidas. Eram seus inimigos, pois ele os tinha conduzido às barras da justiça. Agora estava à mercê de todos eles, e decidiram vingar-se. Bateram-lhe cruelmente e o torturaram até vencer sua resistência. Obrigaram-no a assinar papéis que ele mais tarde descobriu serem confissões de sua culpabilidade. Sua situação era desesperadora. Tentou suicidar-se, mas não conseguiu.
Nessas circunstâncias, um amigo da prisão convidou-o a estudar a Bíblia.
"Pelo menos vou quebrar a rotina da prisão", pensou. E seu amigo comentou: "Deus pode ajudar." Depois de 5 meses de estudo conjunto das Escrituras, seu amigo foi posto em liberdade. Deus o havia ajudado.
Agora Israel deveria continuar sozinho com seus estudos bíblicos. Como tinha ouvido falar na Voz da Esperança (Voz da Profecia), conhecido programa religioso através da rádio, escreveu ao seu diretor pedindo informações. Dos escritórios centrais entraram em contacto com um representante local, membro da Igreja Adventista. Este visitou Israel no cárcere, continuando com ele o estudo da Bíblia. Orou fervorosamente para que Deus tivesse misericórdia de Israel e o ajudasse a resolver os seus problemas.
A vida de Israel começou a mudar à medida que compreendia o amor divino. Aceitou a Jesus como seu Salvador. Sentiu a alegria do perdão e a segurança de que Deus estava ao seu lado e haveria de protegê-lo e dirigir a sua vida. Começou a compartilhar com outros presos o que havia aprendido nas Escrituras, animando-os a ouvir o programa de rádio que tanto o havia ajudado.
Israel já estava no cárcere há 1 ano e meio e o seu caso ainda não havia sido tratado nos tribunais. Ele continuava orando e os seus amigos adventistas continuavam visitando-o e orando em seu favor.
Poucos meses depois o júri absolveu-o sob a alegação de que o homicídio tinha sido acidental, como aliás havia ocorrido. Deus tinha escutado e respondido às suas orações.
Dois anos e oito meses depois da sua prisão, Israel foi posto em liberdade. Os presos que o haviam hostilizado, agora eram seus amigos. Fizeram-lhe uma festa de despedida e até os guardas o trataram bondosamente e lhe deram algum dinheiro.
Israel havia prometido servir a Deus se recuperasse a liberdade. A primeira coisa que fez foi ir à Igreja e dar o seu testemunho de gratidão a Deus.
Já se passaram quase 10 anos. Israel Martinez está casado, tem uma oficina de soldador com a qual sustenta a família. Mas o seu verdadeiro trabalho é servir a Deus e a Sua Igreja. Com uma alegria incontida, fala de Jesus aos outros, como o Salvador que perdoa os pecados, que ouve as orações e dá sentido à existência. Cada semana visita os presos no cárcere e explica-lhes a Palavra de Deus. Quer que experimentem o gozo que ele sente e alcancem a liberdade espiritual que ele alcançou.

Bárbara Westphal in Revista Sinais dos Tempos, 1980, Publicadora SerVir.


NATAL  É  JESUS,
O  DOM  PERFEITO  DO  AMOR  DE  DEUS!!!


"O dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus"
                              (Romanos 6:23)



(Pode ouvir músicas de Natal no último grupo dos links de Leituras para a Vida
e de O Caminho para a Esperança)

terça-feira, 31 de outubro de 2017


31 de OUTUBRO de 2017

CELEBRAÇÃO DOS 500 ANOS DA REFORMA PROTESTANTE



O PODER TRIUNFANTE DA VERDADE


       Um novo imperador, Carlos V, subira ao trono da Alemanha, e os emissários de Roma se apressaram a apresentar suas congratulações e induzir o monarca a empregar seu poder contra a Reforma. De um lado, o eleitor da Saxônia, a quem Carlos em grande parte devia a coroa, rogava-lhe não dar passo algum contra Lutero antes de lhe conceder oportunidade de se fazer ouvir. O imperador ficou assim colocado em posição de grande perplexidade e embaraço. Os adeptos do papa não ficariam satisfeitos com coisa alguma a não ser um edito imperial sentenciando Lutero à morte. O eleitor declarava firmemente que "nem sua majestade imperial, nem outra pessoa qualquer tinha demonstrado haverem sido refutados os escritos de Lutero"; portanto, pedia "que o Dr. Lutero fosse provido de salvo-conduto, de maneira que pudesse comparecer perante um tribunal de juízes sábios, piedosos e imparciais." — D’Aubigné.
       A atenção de todos os partidos dirigia-se agora para a assembleia dos Estados alemães que se reuniu em Worms logo depois da ascensão de Carlos ao poder imperial. Havia importantes questões e interesses políticos a serem considerados por esse concílio nacional. Pela primeira vez os príncipes da Alemanha deveriam encontrar-se com seu jovem monarca numa assembleia deliberativa. De todas as partes da pátria haviam chegado os dignitários da Igreja e do Estado. Fidalgos seculares, de elevada linhagem, poderosos e ciosos de seus direitos hereditários; eclesiásticos principescos, afetados de sua consciente superioridade em ordem social e poderio; cavalheiros da corte e seus partidários armados; e embaixadores de países estrangeiros e longínquos — todos se achavam reunidos em Worms. Contudo, naquela vasta assembleia, o assunto que despertava o mais profundo interesse era a causa do reformador saxônio.
       Carlos previamente encarregara o eleitor de levar consigo Lutero à Dieta, assegurando-lhe proteção e prometendo franco estudo das questões em contenda, com pessoas competentes. Lutero estava ansioso por comparecer perante o imperador. Sua saúde achava-se naquela ocasião muito alquebrada; não obstante escreveu ao eleitor: "Se eu não puder ir a Worms com boa saúde, serei levado para lá, doente como estou. Pois se o imperador me chama, não posso duvidar de que é o chamado do próprio Deus. Se desejarem usar de violência para comigo (e isto é muito provável, pois não é para a instrução deles que me ordenam comparecer), ponho o caso nas mãos do Senhor. Ainda vive e reina Aquele que preservou os três jovens na fornalha ardente. Se Ele me não salvar, minha vida é de pouca importância. Tão-somente evitemos que o evangelho seja exposto ao escárnio dos ímpios; e por ele derramemos nosso sangue, de preferência a deixar que eles triunfem. Não me compete decidir se minha vida ou minha morte contribuirá mais para a salvação de todos. ... Podeis esperar tudo de mim ... exceto fuga e abjuração. Fugir não posso, e menos ainda me retratar." — D’Aubigné.
       Quando em Worms circularam as notícias de que Lutero deveria comparecer perante a Dieta, houve geral excitação. Aleandro, o delegado papal a quem fora especialmente confiado o caso, estava alarmado e enraivecido. Via que o resultado seria desastroso para a causa papal. Instituir inquérito sobre um caso em que o papa já havia pronunciado sentença de morte, seria lançar o desdém sobre a autoridade do soberano pontífice. Além disso, tinha apreensões de que os eloquentes e poderosos argumentos daquele homem pudessem desviar da causa do papa muitos dos príncipes.
       Com muita insistência, pois, advertiu Carlos contra o aparecimento de Lutero em Worms. Por este tempo foi publicada a bula que declarava a excomunhão de Lutero. Este fato, em acréscimo às representações do legado, induziu o imperador a ceder. Escreveu ao eleitor que, se Lutero não se retratasse, deveria permanecer em Wittenberg.
       Não contente com esta vitória, Aleandro trabalhou com toda a força e astúcia que possuía, para conseguir a condenação de Lutero. Com uma persistência digna de melhor causa, insistiu em que o caso chegasse à atenção dos príncipes, prelados e outros membros da assembleia, acusando o reformador de "sedição, rebelião e blasfêmia." Mas a veemência e paixão manifestadas pelo legado revelaram demasiadamente claro o espírito que o impulsionava. "Ele é movido pelo ódio e vingança", foi a observação geral, "muito mais do que pelo zelo e piedade." — D’Aubigné. A maior parte da Dieta estava mais do que nunca inclinada a considerar favoravelmente a causa de Lutero.
       Com redobrado zelo insistia Aleandro com o imperador sobre o dever de executar os éditos papais. Mas, pelas leis da Alemanha, não se poderia fazer isto sem o apoio dos príncipes; e vencido finalmente pela importunação do legado, Carlos ordenou-lhe apresentar seu caso à Dieta.
       "Foi um dia pomposo para o núncio. A assembleia era grandiosa; a causa ainda maior. Aleandro deveria pleitear em favor de Roma, ... mãe e senhora de todas as igrejas." Deveria reivindicar a soberania de Pedro perante os principados da cristandade, reunidos em assembleia. "Possuía o dom da eloquência e ergueu-se à altura da ocasião. Determinava a Providência que Roma aparecesse e pleiteasse pelo mais hábil de seus oradores, na presença do mais augusto tribunal, antes que fosse condenada." — Wylie. Com alguns receios, os que favoreciam o reformador anteviam o efeito dos discursos de Aleandro. O eleitor da Saxônia não estava presente, mas por sua ordem alguns de seus conselheiros ali se achavam para tomar notas do discurso do núncio.
       Com todo o prestígio do saber e da eloquência, Aleandro se pôs a derribar a verdade. Acusação sobre acusação lançou ele contra Lutero, como inimigo da Igreja e do Estado, dos vivos e dos mortos, do clero e dos leigos, dos concílios e dos cristãos em geral. "Nos erros de Lutero há o suficiente", declarou ele, para assegurar a queima de "cem mil hereges."
       Em conclusão esforçou-se por atirar o desprezo aos adeptos da fé reformada: "O que são estes luteranos? Uma quadrilha de insolentes pedantes, padres corruptos, devassos monges, advogados ignorantes e nobres degradados, juntamente com o povo comum a que transviaram e perverteram. Quanto lhes é superior o partido católico em número, competência e poder! Um decreto unânime desta ilustre assembleia esclarecerá os simples, advertirá os imprudentes, firmará os versáteis e dará força aos fracos." — D’Aubigné.
       Com tais armas têm sido, em todos os tempos, atacados os defensores da verdade. Os mesmos argumentos ainda se apresentam contra todos os que ousam mostrar, em oposição a erros estabelecidos, os simples e diretos ensinos da Palavra de Deus. "Quem são estes pregadores de novas doutrinas?" Exclamam os que desejam uma religião popular. "São indoutos, pouco numerosos, e das classes pobres. Contudo pretendem ter a verdade e ser o povo escolhido de Deus. São ignorantes e estão enganados. Quão superior em número e influência é a nossa igreja! Quantos grandes e ilustres homens existem entre nós! Quanto mais poder há do nosso lado!" Tais são os argumentos que têm influência decisiva sobre o mundo; mas não são mais conclusivos hoje do que o foram nos dias do reformador.

       A Reforma não terminou com Lutero, como muitos supõem. Continuará até ao fim da história deste mundo. Lutero teve grande obra a fazer, transmitindo a outros a luz que Deus permitira brilhar sobre ele; contudo, não recebeu toda a luz que deveria ser dada ao mundo. Desde aquele tempo até hoje, nova luz tem estado continuamente a resplandecer sobre as Escrituras, e novas verdades se têm desvendado constantemente.
       O discurso do legado produziu profunda impressão na Dieta. Não havia presente nenhum Lutero, com as claras e convincentes verdades da Palavra de Deus, para superar o defensor papal. Nenhuma tentativa se fez para defender o reformador. Era manifesta a disposição geral de não somente condená-lo e as doutrinas que ele ensinava mas, sendo possível, desarraigar a heresia. Roma fruíra da mais favorável oportunidade para defender sua causa. Tudo que ela poderia dizer em sua própria reivindicação, fora dito. Mas a aparente vitória foi o sinal da derrota. Dali em diante o contraste entre a verdade e o erro seria visto mais claramente, ao entrarem para a luta em campo aberto. Nunca mais desde aquele dia Roma se havia de sentir tão segura como estivera.
       Conquanto a maior parte dos membros da Dieta não tivesse hesitado em entregar Lutero à vingança de Roma, muitos deles viam e deploravam a depravação existente na igreja, desejosos da supressão dos abusos de que sofria o povo alemão em consequência da corrupção e cobiça da hierarquia. O legado apresentara sob a luz mais favorável o dogma papal. O Senhor então constrangeu um membro da Dieta a dar uma descrição verdadeira dos efeitos da tirania papal. Com nobre firmeza, o Duque Jorge da Saxônia se levantou naquela assembleia principesca e especificou com terrível precisão os enganos e abominações do papado e seus horrendos resultados. Disse ao concluir:
       "Tais são alguns dos abusos que clamam contra Roma. Toda a vergonha foi posta à parte, e seu único objetivo é ... dinheiro, dinheiro, dinheiro, ... de maneira que os pregadores que deveriam ensinar a verdade, nada proferem senão falsidade, e são não somente tolerados mas recompensados, porque quanto maiores forem suas mentiras, tanto maior seu ganho. É dessa fonte impura que fluem tais águas contaminadas. A devassidão estende a mão à avareza. ... Ai! É o escândalo causado pelo clero que arremessa tantas pobres almas à condenação eterna. Deve-se efetuar uma reforma geral." — D’Aubigné.
       Uma denúncia mais hábil e convincente contra os abusos papais não poderia ter sido apresentada pelo próprio Lutero; e o fato de ser o orador inimigo decidido do reformador, deu maior influência às suas palavras.

       Se se abrissem os olhos dos que constituíam a assembleia, teriam visto anjos de Deus no meio deles, derramando raios de luz através das trevas do erro e abrindo mentes e corações à recepção da verdade. Era o poder do Deus da verdade e sabedoria que dirigia até os adversários da Reforma, preparando assim o caminho para a grande obra prestes a realizar-se. Martinho Lutero não estava presente; mas a voz de Alguém, maior do que Lutero, fora ouvida naquela assembleia.

       Uma comissão foi logo designada pela Dieta para apresentar um relatório das opressões papais que tão esmagadoramente pesavam sobre o povo alemão. Esta lista, contendo cento e uma especificações, foi apresentada ao imperador, com o pedido de que ele tomasse imediatas medidas para a correção de tais abusos. "Que perda de almas cristãs", diziam os suplicantes, "que depredações, que extorsões, por causa dos escândalos de que se acha rodeada a cabeça espiritual da cristandade! É nosso dever evitar a ruína e desonra de nosso povo. Por esta razão, nós, de maneira humilde, mas com muita insistência rogamo-vos ordeneis uma reforma geral, e empreendais a sua realização." — D’Aubigné.
       O concílio pediu então o comparecimento do reformador a sua presença. Apesar dos rogos, protestos e ameaças de Aleandro, o imperador finalmente consentiu, e Lutero foi intimado a comparecer perante a Dieta. Com a intimação foi expedido um salvo-conduto, assegurando sua volta a um lugar de segurança. Ambos foram levados a Wittenberg por um arauto que estava incumbido de conduzir o reformador a Worms.
       Os amigos de Lutero estavam aterrorizados, angustiados. Sabendo do preconceito e inimizade contra ele, temiam que mesmo seu salvo-conduto não fosse respeitado, e rogavam-lhe não expusesse a vida ao perigo. Ele replicou: "Os sectários do papa não desejam minha ida a Worms, mas minha condenação e morte. Não importa. Não orem por mim, mas pela Palavra de Deus. ... Cristo me dará Seu Espírito para vencer esses ministros do erro. Desprezo-os em minha vida; triunfarei sobre eles pela minha morte. Estão atarefados em Worms com o intuito de me obrigarem a renunciar; e esta será a minha abjuração: anteriormente eu dizia que o papa é o vigário de Cristo; hoje assevero ser ele o adversário de nosso Senhor e o apóstolo do diabo." — D’Aubigné.

       Lutero não deveria fazer sozinho sua perigosa viagem. Além do mensageiro imperial, três de seus amigos mais certos se decidiram a acompanhá-lo. Melâncton ardorosamente quis unir-se a eles. Seu coração estava ligado ao de Lutero, e anelava segui-lo sendo necessário, à prisão ou à morte. Seus rogos, porém, não foram atendidos. Se Lutero perecesse, as esperanças da Reforma deveriam centralizar-se neste jovem colaborador. Disse o reformador quando se despediu de Melâncton: "Se eu não voltar e meus inimigos me matarem, continua a ensinar e permanece firme na verdade. Trabalha em meu lugar. ... Se sobreviveres, minha morte terá pouca consequência." — D’Aubigné. Estudantes e cidadãos que se haviam reunido para testemunharem a partida de Lutero ficaram profundamente comovidos. Uma multidão, cujo coração havia sido tocado pelo evangelho, deu-lhe as despedidas, em pranto. Assim, o reformador e seus companheiros partiram de Wittenberg.
       Viram em viagem que o espírito do povo se achava oprimido por tristes pressentimentos. Nalgumas cidades honras nenhumas lhes eram tributadas. Ao pararem para o pouso, um padre amigo exprimiu seus temores, segurando diante de Lutero o retrato de um reformador italiano que sofrera o martírio. No dia seguinte souberam que os escritos de Lutero haviam sido condenados em Worms. Mensageiros imperiais estavam proclamando o decreto do imperador, e apelando ao povo para trazerem aos magistrados as obras proscritas. O arauto, temendo pela segurança de Lutero no concílio e julgando que sua resolução já pudesse estar abalada, perguntou se ele ainda desejava ir avante. Respondeu: "Posto que interdito em todas as cidades, irei." — D’Aubigné.
       Em Erfurt, Lutero foi recebido com honras. Cercado de multidões que o admiravam, passou pelas ruas que ele muitas vezes atravessara com a sacola de pedinte. Visitou sua capela no convento e pensou nas lutas pelas quais a luz que agora inundava a Alemanha se derramara em sua alma. Insistiu-se com ele a que pregasse. Isto lhe havia sido vedado, mas o arauto concedeu-lhe permissão, e o frade que fora outrora o serviçal do convento, subiu agora ao púlpito.
       A uma multidão que ali se reunira, falou ele sobre as palavras de Cristo: "Paz seja convosco." "Filósofos, doutores e escritores", disse ele, "têm-se esforçado por ensinar aos homens o meio para se obter a vida eterna, e não o têm conseguido. Contar-vos-ei agora: ... Deus ressuscitou dos mortos um Homem, o Senhor Jesus Cristo, para que pudesse destruir a morte, extirpar o pecado e fechar as portas do inferno. Esta é a obra da salvação. ... Cristo venceu! Estas são as alegres novas; e somos salvos por Sua obra, e não pela nossa própria. ... Disse nosso Senhor Jesus Cristo: 'Paz seja convosco; olhai Minhas mãos'; isto quer dizer: Olha, ó homem! Fui Eu, Eu só, que tirei teu pecado e te resgatei; e agora tens paz, diz o Senhor."
       Continuou, mostrando que a verdadeira fé se manifestará por uma vida santa. "Visto que Deus nos salvou, ordenemos nossos trabalhos de tal maneira que possam ser aceitáveis perante Ele. És rico? Administra teus bens às necessidades dos pobres. Se teu trabalho é útil apenas para ti, o serviço que pretendes prestar a Deus é uma mentira." — D’Aubigné.

       O povo ouvia como que extasiado. O pão da vida fora partido àquelas almas famintas. Perante elas Cristo foi levantado acima de papas, legados, imperadores e reis. Lutero não fez referência alguma à sua posição perigosa. Não procurou fazer-se objeto dos pensamentos e simpatias. Na contemplação de Cristo perdera de vista o eu. Escondera-se por trás do Homem do Calvário, procurando apenas apresentar a Jesus como o Redentor do pecador.
       Prosseguindo viagem, o reformador era em toda a parte olhado com grande interesse. Uma ávida multidão acotovelava-se em redor dele, e vozes amigas advertiam-no dos propósitos dos romanistas. "Eles vos queimarão", diziam alguns, "e reduzirão vosso corpo a cinzas, como fizeram com João Huss." Lutero respondia: "Ainda que acendessem por todo o caminho de Worms a Wittenberg uma fogueira cujas chamas atingissem o céu, em nome do Senhor eu caminharia pelo meio delas; compareceria perante eles; entraria pelas mandíbulas desse hipopótamo e lhe quebraria os dentes, confessando o Senhor Jesus Cristo." — D’Aubigné.
       A notícia de sua aproximação de Worms estabeleceu grande comoção. Os amigos tremiam de receio pela sua segurança; os inimigos temiam pelo êxito de sua causa. Fizeram-se acérrimos esforços para dissuadi-lo de entrar na cidade. Por instigação dos adeptos do papa, insistiu-se com ele para que se retirasse para o castelo de um cavalheiro amigo, onde, declarava-se, todas as dificuldades poderiam ser amigavelmente resolvidas. Os amigos esforçavam-se por excitar-lhe os temores, descrevendo os perigos que o ameaçavam. Todos os seus esforços falharam. Lutero, ainda inabalável, declarou: "Mesmo que houvesse tantos demónios em Worms como telhas nos telhados, eu ali entraria." — D’Aubigné.
       À sua chegada em Worms, vasta multidão se congregou às portas para lhe dar as boas-vindas. Concorrência tão grande não houvera para saudar o próprio imperador. A excitação foi intensa, e do meio da multidão, uma voz penetrante e lamentosa entoava um canto fúnebre como aviso a Lutero quanto à sorte que o esperava. "Deus será a minha defesa", disse ele, ao descer da carruagem.
       Os chefes papais não tinham acreditado que Lutero realmente se aventurasse a aparecer em Worms, e sua chegada encheu-os de consternação. O imperador imediatamente convocou seus conselheiros para considerarem como deveriam agir. Um dos bispos, romanista rígido, declarou: "Temo-nos consultado durante muito tempo acerca deste assunto. Livre-se vossa majestade imperial, de uma vez, deste homem. Não fez Sigismundo com que João Huss fosse queimado? Não somos obrigados a dar nem a observar o salvo-conduto de um herege." "Não", disse o imperador; "devemos cumprir nossa promessa." — D’Aubigné. Decidiu-se, portanto, que o reformador fosse ouvido.
       A cidade toda se achava sôfrega por ver este homem notável, e uma multidão de visitantes logo encheu suas estalagens. Lutero havia-se apenas restabelecido de enfermidade recente; estava cansado da jornada, que levara duas semanas inteiras; deveria preparar-se para enfrentar os momentosos acontecimentos do dia seguinte, e necessitava de sossego e repouso. Tão grande, porém, era o desejo de o ver, que havia ele gozado apenas o descanso de algumas horas quando ao seu redor se reuniram avidamente nobres, cavalheiros, sacerdotes e cidadãos. Entre estes se encontravam muitos dos nobres que tão ousadamente haviam pedido ao imperador uma reforma contra os abusos eclesiásticos e que, diz Lutero, "se tinham todos libertado por meu evangelho." — Vida e Tempos de Lutero, de Martyn. Inimigos, bem como amigos foram ver o intrépido monge. Ele, porém, os recebeu com calma inabalável, respondendo a todos com dignidade e sabedoria. Seu porte era firme e corajoso. O rosto, pálido e magro, assinalado com traços de trabalhos e enfermidade, apresentava uma expressão amável e mesmo alegre. A solenidade e ardor profundo de suas palavras conferiam-lhe um poder a que mesmo seus inimigos não podiam resistir completamente. Tanto amigos como adversários estavam cheios de admiração. Alguns estavam convictos de que uma influência divina o acompanhava; outros declaravam, como fizeram os fariseus em relação a Cristo: "Ele tem demónio."
       No dia seguinte, Lutero foi chamado para estar presente à Dieta. Designou-se um oficial imperial para conduzi-lo até ao salão de audiência; foi, contudo, com dificuldade que ele atingiu o local. Todas as ruas estavam cheias de espectadores, ávidos de ver o monge que ousara resistir à autoridade do papa.
       Quando estava para entrar à presença de seus juízes, um velho general, herói de muitas batalhas, disse-lhe amavelmente: "Pobre monge, pobre monge, vais agora assumir posição mais nobre do que eu ou quaisquer outros capitães já assumimos nas mais sanguinolentas de nossas batalhas! Mas, se tua causa é justa, e estás certo disto, vai avante em nome de Deus e nada temas. Deus não te abandonará." — D’Aubigné.

       Finalmente Lutero se achou perante o concílio. O imperador ocupava o trono. Estava rodeado das mais ilustres personagens do império. Nunca homem algum comparecera à presença de uma assembleia mais importante do que aquela diante da qual Martinho Lutero deveria responder por sua fé. "Aquela cena era por si mesma uma assinalada vitória sobre o papado. O papa condenara o homem, e agora estava ele em pé, diante de um tribunal que, por esse mesmo ato, se colocava acima do papa. Este o havia posto sob interdito, separando-o de toda a sociedade humana; e no entanto era ele chamado em linguagem respeitosa, e recebido perante a mais augusta assembleia do mundo. O papa condenara-o ao silêncio perpétuo, e agora estava ele prestes a falar perante milhares de ouvintes atentos, reunidos das mais longínquas partes da cristandade. Imensa revolução assim se efetuara por intermédio de Lutero. Roma descia já do trono, e era a voz de um monge que determinava esta humilhação." — D’Aubigné.
       Na presença daquela poderosa assembleia de titulares, o reformador de humilde nascimento parecia intimidado e embaraçado. Vários dos príncipes, observando sua emoção, aproximaram-se dele, e um lhe segredou: "Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma." Outro disse: "Quando fordes levados perante os governadores e reis por Minha causa, ser-vos-á ministrado, pelo Espírito de vosso Pai, o que devereis dizer." Assim, as palavras de Cristo foram empregadas pelos grandes homens do mundo para fortalecerem Seu servo na hora de prova.

       Lutero foi conduzido a um lugar bem em frente do trono do imperador. Profundo silêncio caiu sobre a assembleia ali congregada. Então um oficial imperial se levantou e, apontando para uma coleção dos escritos de Lutero, pediu que o reformador respondesse a duas perguntas: Se ele os reconhecia como seus, e se se dispunha a retratar-se das opiniões que neles emitira. Lidos os títulos dos livros, Lutero respondeu, quanto à primeira pergunta, que reconhecia serem seus os livros. "Quanto à segunda", disse ele, "visto ser uma questão que respeita à fé e à salvação das almas, e que interessa à Palavra de Deus, o maior e mais precioso tesouro quer no Céu quer na Terra, eu agiria imprudentemente se respondesse sem reflexão. Poderia afirmar menos do que as circunstâncias exigem, ou mais do que a verdade requer, e desta maneira, pecar contra estas palavras de Cristo: 'Qualquer que Me negar diante dos homens, Eu o negarei também diante de Meu Pai, que está nos Céus.' Mateus 10:33. Por esta razão, com toda a humildade, rogo a vossa majestade imperial conceder-me tempo para que eu possa responder sem ofensa à Palavra de Deus." — D’Aubigné.
       Fazendo este pedido, Lutero agiu prudentemente. Sua conduta convenceu a assembleia de que não agia por paixão ou impulso. Semelhante calma e domínio próprio, inesperados em quem se mostrara audaz e intransigente, aumentaram-lhe o poder, habilitando-o mais tarde a responder com uma prudência, decisão, sabedoria e dignidade que surpreendiam e dececionavam seus adversários, repreendendo-lhes a insolência e orgulho.
       No dia seguinte deveria ele comparecer para dar sua resposta final. Durante algum tempo seu coração se abateu, ao contemplar as forças que estavam combinadas contra a verdade. Vacilou-lhe a fé; temor e tremor lhe sobrevieram, e oprimiu-o o terror. Multiplicavam-se diante dele os perigos; seus inimigos pareciam a ponto de triunfar, e os poderes das trevas, de prevalecer. Nuvens juntavam-se em redor dele, e pareciam separá-lo de Deus. Ansiava pela certeza de que o Senhor dos exércitos estaria com ele. Em angústia de espírito lançou-se com o rosto em terra, derramando estes clamores entrecortados, lancinantes, que ninguém, senão Deus, pode compreender perfeitamente:
       "Ó Deus, todo-poderoso e eterno", implorava ele, "quão terrível é este mundo! Eis que ele abre a boca para engolir-me, e tenho tão pouca confiança em Ti. ... Se é unicamente na força deste mundo que eu devo pôr minha confiança, tudo está acabado. ... É vinda a minha última hora, minha condenação foi pronunciada. ... Ó Deus, ajuda-me contra toda a sabedoria do mundo. Faze isto, ... Tu somente; ... pois esta não é minha obra, mas Tua. Nada tenho a fazer por minha pessoa, e devo tratar com estes grandes do mundo. ... Mas a causa é Tua, ... e é uma causa justa e eterna. Ó Senhor, auxilia-me! Deus fiel e imutável, em homem algum ponho minha confiança. ... Tudo que é do homem é incerto; tudo que do homem vem, falha. ... Escolheste-me para esta obra. ... Sê a meu lado por amor de Teu bem-amado Jesus Cristo, que é minha defesa, meu escudo e torre forte." — D’Aubigné.

       Uma providência onisciente havia permitido a Lutero compreender o perigo, para que não confiasse em sua própria força, arrojando-se presunçosamente ao perigo. Não era, contudo, o temor do sofrimento pessoal, o terror da tortura ou da morte, que parecia iminente, o que o oprimia com seus horrores. Ele chegara à crise, e sentia sua insuficiência para enfrentá-la. Pela sua fraqueza, a causa da verdade poderia sofrer dano. Não para a sua própria segurança, mas para a vitória do evangelho lutava ele com Deus. Como a de Israel, naquela luta noturna, ao lado do solitário riacho, foi a angústia e conflito de sua alma. Como Israel, prevaleceu com Deus. Em seu completo desamparo, sua fé se firmou em Cristo, o poderoso Libertador. Ele se fortaleceu com a certeza de que não compareceria sozinho perante o concílio. A paz voltou à alma, e ele se regozijou de que lhe fosse permitido exaltar a Palavra de Deus perante os governadores da nação.
       Com o espírito repousado em Deus, Lutero preparou-se para a luta que diante dele estava. Meditou sobre o plano de sua resposta, examinou passagens de seus próprios escritos e tirou das Sagradas Escrituras provas convenientes para sustentar sua atitude. Então, pondo a mão esquerda sobre o Volume Sagrado, que estava aberto diante dele, levantou a destra para o céu, e fez um voto de "permanecer fiel ao evangelho e confessar francamente sua fé, mesmo que tivesse de selar com o sangue seu testemunho." — D’Aubigné.




Não perca o cântico final!!! - É Lindo... Lindo... Lindo... É mesmo o sentir do meu/creio que do nosso coração... Apetece ouvir vezes sem fim...
Parabéns ao seu autor! EE

       Ao ser de novo introduzido à presença da Dieta, seu rosto não apresentava traços de receio ou embaraço. Calmo e cheio de paz, ainda que extraordinariamente valoroso e nobre, manteve-se como testemunha de Deus entre os grandes da Terra. O oficial imperial pediu então sua decisão sobre se desejava retratar-se de suas doutrinas. Lutero respondeu em tom submisso e humilde, sem violência nem paixão. Suas maneiras eram tímidas e respeitosas; manifestou, contudo, confiança e alegria que surpreenderam a assembleia.
       "Sereníssimo imperador, ilustres príncipes, graciosos fidalgos", disse Lutero; "compareço neste dia perante vós, em conformidade com a ordem a mim dada ontem, e pela mercê de Deus conjuro vossa majestade e vossa augusta alteza a escutar, com graça, a defesa de uma causa que, estou certo, é justa e verdadeira. Se, por ignorância, eu transgredir os usos e etiquetas das cortes, rogo-vos perdoar-me; pois não fui criado nos palácios dos reis, mas na reclusão de um convento." — D’Aubigné.
       Então, referindo-se à pergunta, declarou que suas obras publicadas não eram todas do mesmo caráter. Em algumas havia tratado da fé e das boas obras, e mesmo seus inimigos as declaravam não somente inofensivas, mas proveitosas. Abjurá-las seria condenar verdades que todos os partidos professavam. A segunda classe consistia em escritos que expunham as corrupções e abusos do papado. Revogar estas obras fortaleceria a tirania de Roma, abrindo uma porta mais larga a muitas e grandes impiedades. Na terceira classe de seus livros atacara indivíduos que haviam defendido erros existentes. Em relação a eles confessou, francamente, que tinha sido mais violento do que convinha. Não pretendia estar isento de falta; mas mesmo esses livros não poderia revogar, pois que tal procedimento tornaria audaciosos os inimigos da verdade, e então aproveitariam a ocasião para esmagar o povo de Deus com crueldade ainda maior.
       "Não sou, todavia, senão mero homem, e não Deus", continuou ele; "portanto, defender-me-ei como fez Cristo: 'Se falei mal, dá testemunho do mal.' ... Pela misericórdia de Deus, conjuro-vos, sereníssimo imperador, e a vós, ilustríssimos príncipes, e a todos os homens de toda a categoria, a provar pelos escritos dos profetas e apóstolos, que errei. Logo que estiver convicto disso, retratarei todo o erro e serei o primeiro a lançar mão de meus livros e atirá-los ao fogo."
       "O que acabo de dizer, claramente mostra, eu o espero, que pesei e considerei cuidadosamente os perigos a que me exponho mas, longe de me desanimar, regozijo-me por ver que o evangelho é hoje, como nos tempos antigos, causa de perturbação e dissensão. Este é o caráter, este é o destino da Palavra de Deus. 'Não vim trazer paz à Terra, mas espada', disse Jesus Cristo. Deus é maravilhoso e terrível em Seus conselhos; acautelai-vos para que não aconteça que, supondo apagar dissensões, persigais a santa Palavra de Deus e arrosteis sobre vós mesmos um pavoroso dilúvio de perigos insuperáveis, de desastres presentes e desolação eterna. ... Poderia citar muitos exemplos dos oráculos de Deus. Poderia falar dos Faraós, dos reis de Babilónia e dos de Israel, cujos trabalhos não contribuíram nunca mais eficazmente para a sua própria destruição do que quando buscavam, mediante conselhos, prudentíssimos na aparência, fortalecer seu domínio. Deus 'é O que transporta montanhas, sem que o sintam.'" — D’Aubigné.

       Lutero falara em alemão; foi-lhe pedido então repetir as mesmas palavras em latim. Embora exausto pelo esforço anterior, anuiu e novamente fez seu discurso, com a mesma clareza e energia que a princípio. A providência de Deus dirigiu isto. O espírito de muitos dos príncipes estava tão obliterado pelo erro e superstição que à primeira vez não viram a força do raciocínio de Lutero; mas a repetição habilitou-os a perceber claramente os pontos apresentados.
       Os que obstinadamente fechavam os olhos à luz e se decidiram a não convencer-se da verdade, ficaram enraivecidos com o poder das palavras de Lutero. Quando cessou de falar, o anunciador da Dieta disse, irado: "Não respondeste à pergunta feita. ... Exige-se que dês resposta clara e precisa. ... Retratar-te-ás ou não?"
       O reformador respondeu: "Visto que vossa sereníssima majestade e vossas nobres altezas exigem de mim resposta clara, simples e precisa, dar-vo-la-ei, e é esta: Não posso submeter minha fé quer ao papa quer aos concílios, porque é claro como o dia, que eles têm frequentemente errado e se contradito um ao outro. Portanto, a menos que eu seja convencido pelo testemunho das Escrituras ou pelo mais claro raciocínio; a menos que eu seja persuadido por meio das passagens que citei; a menos que assim submetam minha consciência pela Palavra de Deus, não posso retratar-me e não me retratarei, pois é perigoso a um cristão falar contra a consciência. Aqui permaneço, não posso fazer outra coisa; Deus queira ajudar-me. Amém." — D’Aubigné.

       Assim se manteve este homem justo sobre o firme fundamento da Palavra de Deus. A luz do Céu iluminava-lhe o semblante. Sua grandeza e pureza de caráter, sua paz e alegria de coração, eram manifestas a todos ao testificar ele contra o poder do erro e testemunhar a superioridade da fé que vence o mundo.
       A assembleia toda ficou por algum tempo muda de espanto. Em sua primeira resposta Lutero falara em tom baixo, em atitude respeitosa, quase submissa. Os romanistas haviam interpretado isto como sinal de que lhe estivesse começando a faltar o ânimo. Consideraram o pedido de delonga simples prelúdio de sua retratação. O próprio Carlos, notando, meio desdenhoso, a constituição abatida do monge; seu traje singelo e a simplicidade de suas maneiras, declarara: "Este monge nunca fará de mim um herege." A coragem e firmeza que agora ele ostentara, bem como o poder e clareza de seu raciocínio, encheram de surpresa todos os partidos. O imperador, possuído de admiração, exclamou: "Este monge fala com coração intrépido e inabalável coragem." Muitos dos príncipes alemães olhavam com orgulho e alegria a este representante de sua nação.
       Os partidários de Roma haviam sido vencidos; sua causa parecia sob a mais desfavorável luz. Procuraram manter seu poder, não apelando para as Escrituras, mas com recurso às ameaças — indefetível argumento de Roma. Disse o anunciador da Dieta: "Se não se retratar, o imperador e os governos do império consultar-se-ão quanto à conduta a adotar-se contra o herege incorrigível." Os amigos de Lutero, que com grande alegria lhe ouviram a nobre defesa, tremeram àquelas palavras; mas o próprio doutor disse calmamente: "Queira Deus ser meu auxiliador, pois não posso retratar-me de coisa alguma." — D’Aubigné.

       Ordenou-se-lhe que se retirasse da Dieta, enquanto os príncipes se consultavam juntamente. Pressentia-se que chegara uma grande crise. A persistente recusa de Lutero em submeter-se, poderia afetar a história da igreja durante séculos. Decidiu-se dar-lhe mais uma oportunidade para renunciar. Pela última vez foi ele levado à assembleia. Novamente foi feita a pergunta se ele renunciaria a suas doutrinas. "Não tenho outra resposta a dar", disse ele, "a não ser a que já dei." Era evidente que ele não poderia ser induzido, quer por promessas quer por ameaças, a render-se ao governo de Roma.
       Os chefes papais aborreceram-se de que seu poderio, o qual fizera com que reis e nobres tremessem, fosse dessa maneira desprezado por um humilde monge: almejavam fazê-lo sentir sua ira, destruindo-lhe a vida com torturas. Lutero, porém, compreendendo o perigo, falara a todos com dignidade e calma cristãs. Suas palavras tinham sido isentas de orgulho, paixão e falsidade. Havia perdido de vista a si próprio e aos grandes homens que o cercavam, e sentia unicamente que se achava na presença de Alguém infinitamente superior aos papas, prelados, reis e imperadores. Cristo falara por intermédio do testemunho de Lutero, com um poder e grandeza que na ocasião causou espanto e admiração tanto a amigos como a adversários. O Espírito de Deus estivera presente naquele concílio, impressionando o coração dos principais do império. Vários dos príncipes reconheceram ousadamente a justiça da causa de Lutero. Muitos estavam convictos da verdade; mas em outros as impressões recebidas não foram duradouras. Houve outra classe que no momento não exprimiu suas convicções, mas que, tendo pesquisado as Escrituras por si mesmos, tornaram-se em ocasião posterior destemidos sustentáculos da Reforma.
       O eleitor Frederico aguardara ansiosamente o comparecimento de Lutero perante a Dieta, e com profunda emoção ouviu seu discurso. Com alegria e orgulho testemunhou a coragem, firmeza e domínio próprio do doutor, e decidiu-se a permanecer mais firmemente em sua defesa. Ele contrastava as fações em contenda, e via que a sabedoria dos papas, reis e prelados, fora pelo poder da verdade reduzida a nada. O papado sofrera uma derrota que seria sentida entre todas as nações e em todos os tempos.
       Quando o legado percebeu o efeito produzido pelo discurso de Lutero, como nunca dantes temeu pela segurança do poderio romano, e resolveu empregar todos os meios ao seu alcance, para levar a termo a derrota do reformador. Com toda a eloquência e perícia diplomática, pelas quais tanto se distinguia, apresentou ao jovem imperador a loucura e perigo de sacrificar, pela causa de um monge desprezível, a amizade e apoio da poderosa Sé de Roma.
       Suas palavras não foram destituídas de efeito. No dia que se seguiu à resposta de Lutero, Carlos fez com que fosse apresentada uma mensagem à Dieta, anunciando sua resolução de prosseguir com a política de seus predecessores, mantendo e protegendo a religião católica. Visto que Lutero se recusara a renunciar a seus erros, seriam empregadas as mais rigorosas medidas contra ele e contra as heresias que ensinava. "Um simples monge, transviado por sua própria loucura, levantou-se contra a fé da cristandade. Para deter tal impiedade, sacrificarei meus reinos, meus tesouros, meus amigos, meu corpo, meu sangue, minha alma e minha vida. Estou para despedir o agostiniano Lutero, proibindo-lhe causar a menor desordem entre o povo; procederei então contra ele e seus adeptos como hereges contumazes, pela excomunhão, pelo interdito e por todos os meios calculados para destruí-los. Apelo para os membros dos Estados a que se portem como fiéis cristãos." — D’Aubigné. Não obstante, o imperador declarou que o salvo conduto de Lutero deveria ser respeitado, e que, antes de se poder instituir qualquer processo contra ele, deveria ser-lhe permitido chegar a casa em segurança.
       Insistiam agora os membros da Dieta em duas opiniões contrárias. Os emissários e representantes do papa, de novo pediam que o salvo-conduto do reformador fosse desrespeitado. "O Reno", diziam eles, "deveria receber suas cinzas, como recebeu as de João Huss, há um século." — D’Aubigné. Príncipes alemães, porém, conquanto fossem eles próprios romanistas e inimigos declarados de Lutero, protestavam contra tal brecha da pública fé, como uma nódoa sobre a honra da nação. Apontavam para as calamidades que se seguiram à morte de Huss e declaravam que não ousavam atrair sobre a Alemanha e sobre a cabeça de seu jovem imperador, a repetição daqueles terríveis males.
       O próprio Carlos, respondendo à vil proposta, disse: "Embora fossem a honra e a fé banidas do mundo todo, deveriam encontrar um refúgio no coração dos príncipes." — D’Aubigné. Houve ainda insistência por parte dos mais encarniçados inimigos papais de Lutero, a fim de tratar o reformador como Sigismundo fizera com Huss — abandonando-o à mercê da igreja; mas lembrando-se da cena em que Huss, em assembleia pública, apontara as suas cadeias e lembrara ao monarca a sua fé empenhada, Carlos V declarou: "Eu não gostaria de corar como Sigismundo." — (Ver História do Concílio de Constança, de Lenfant.)
       Não obstante, Carlos havia deliberadamente rejeitado as verdades apresentadas por Lutero. "Estou firmemente resolvido a imitar o exemplo de meus maiores", escreveu o monarca. Decidira não sair da senda do costume, mesmo para andar nos caminhos da verdade e justiça. Porque seus pais o fizeram, ele apoiaria o papado, com toda a sua crueldade e corrupção. Assim, assumiu sua posição, recusando-se a aceitar qualquer luz em acréscimo à que seus pais haviam recebido, ou cumprir qualquer dever que eles não cumpriram.

       Muitos hoje se apegam de modo idêntico aos costumes e tradições de seus pais. Quando o Senhor lhes envia mais luz, recusam-se a aceitá-la porque, não havendo ela sido concedida a seus pais, não foi por estes acolhida. Não estamos colocados onde nossos pais se achavam; consequentemente nossos deveres e responsabilidades não são os mesmos. Não seremos aprovados por Deus olhando para o exemplo de nossos pais a fim de determinar nosso dever, em vez de pesquisar por nós mesmos a Palavra da Verdade. Nossa responsabilidade é maior do que foi a de nossos antepassados. Somos responsáveis pela luz que receberam, e que nos foi entregue como herança; somos também responsáveis pela luz adicional que hoje, da Palavra de Deus, está a brilhar sobre nós.
       Disse Cristo acerca dos judeus incrédulos: "Se Eu não viera, nem lhes houvera falado, não teriam pecado, mas agora não têm desculpa do seu pecado." João 15:22. O mesmo poder divino falara por intermédio de Lutero ao imperador e príncipes da Alemanha. E, ao resplandecer a luz da Palavra de Deus, Seu Espírito contendeu pela última vez com muitos naquela assembleia. Como Pilatos, séculos antes, permitira que o orgulho e a popularidade fechassem seu coração contra o Redentor do mundo; como o timorato Félix ordenou ao mensageiro da verdade: "Por agora vai-te, e em tendo oportunidade te chamarei"; como o orgulhoso Agripa confessou: "Por pouco me queres persuadir a que me faça cristão!" (Atos 24:25; 26:28) e no entanto se desviou da mensagem enviada pelo Céu — assim Carlos V, cedendo às sugestões do orgulho e política mundanos, decidiu-se a rejeitar a luz da verdade.

       Circularam amplamente rumores dos planos feitos contra Lutero, causando por toda a cidade grande excitação. O reformador conquistara muitos amigos que, conhecendo a traiçoeira crueldade de Roma para com todos os que ousavam expor suas corrupções, resolveram que ele não fosse sacrificado. Centenas de nobres se comprometeram a protegê-lo. Não poucos denunciaram abertamente a mensagem real como evidência de tímida submissão ao poder de Roma. Às portas das casas e em lugares públicos, foram afixados cartazes, alguns condenando e outros apoiando Lutero. Num deles estavam meramente escritas as significativas palavras do sábio: "Ai de ti, ó terra, cujo rei é criança!" Eclesiastes 10:16. O entusiasmo popular em favor de Lutero, por toda a Alemanha, convenceu tanto o imperador como a Dieta de que qualquer injustiça a ele manifesta faria perigar a paz do império e mesmo a estabilidade do trono.
       Frederico da Saxônia manteve uma estudada reserva, escondendo cuidadosamente seus verdadeiros sentimentos, para com o reformador, ao passo que o guardava com incansável vigilância, observando todos os seus movimentos e todos os de seus inimigos. Mas, muitos havia que não faziam tentativa para ocultar sua simpatia por Lutero. Ele era visitado por príncipes, condes, barões e outras pessoas de distinção, tanto leigas como eclesiásticas. "A salinha do doutor", escreveu Spalatin, "não podia conter todos os visitantes que se apresentavam." — Martyn. O povo contemplava-o como se fosse mais que humano. Mesmo os que não tinham fé em suas doutrinas, não podiam deixar de admirar aquela altiva integridade que o levou a afrontar a morte de preferência a violar a consciência.

       Fizeram-se ardentes esforços a fim de obter o consentimento de Lutero para uma transigência com Roma. Nobres e príncipes lembraram-lhe que, se persistisse em colocar seu próprio juízo contra o da igreja e dos concílios, seria logo banido do império e não teria então defesa. A este apelo Lutero respondeu: "O evangelho de Cristo não pode ser pregado sem dano. ... Por que, pois, deveria o temor ou apreensão do perigo separar-me do Senhor, e da divina Palavra, que, unicamente, é a verdade? Não! Entregaria antes meu corpo, meu sangue e minha vida." — D’Aubigné.
       De novo insistiu-se com ele para que se submetesse ao juízo do imperador, e então nada precisaria temer. "Consinto", disse ele em resposta, "de todo o meu coração, em que o imperador, os príncipes e mesmo o mais obscuro cristão, examinem e julguem os meus livros; mas, sob uma condição: que tomem a Palavra de Deus como norma. Os homens nada têm a fazer senão obedecer-lhe. Não façais violência à minha consciência, que está ligada e encadeada às Escrituras Sagradas." — D’Aubigné.
       A um outro apelo disse ele: "Consinto em renunciar ao salvo-conduto. Coloco minha pessoa e minha vida nas mãos do imperador, mas a Palavra de Deus — nunca!" — D’Aubigné. Declarou estar disposto a submeter-se à decisão de um concílio geral, mas unicamente sob a condição de que se exigisse do concílio decidir de acordo com as Escrituras. "No tocante à Palavra de Deus e à fé", acrescentou ele, "todo cristão é juiz tão bom como pode ser o próprio papa, embora apoiado por um milhão de concílios." — Martyn. Tanto amigos como adversários finalmente se convenceram de que afirmação seriam quaisquer outros esforços de reconciliação.
       Houvesse o reformador cedido num único ponto, e Satanás e suas hostes teriam ganho a vitória. Mas sua persistente firmeza foi o meio para a emancipação da igreja e o início de uma era nova e melhor. A influência deste único homem, que ousou pensar e agir por si mesmo em assuntos religiosos, deveria afetar a igreja e o mundo, não somente em seu próprio tempo mas em todas as gerações futuras. Sua firmeza e fidelidade fortaleceriam, até ao final do tempo, a todos os que passassem por experiência semelhante. O poder e majestade de Deus se mantiveram acima do conselho dos homens, acima da potente força de Satanás.

       Por autorização do imperador foi Lutero logo ordenado a voltar para casa, e sabia que este aviso seria imediatamente seguido de sua condenação. Nuvens ameaçadoras pairavam sobre seu caminho; mas, partindo de Worms, seu coração se encheu de alegria e louvor. "O próprio diabo", disse ele, "guardou a fortaleza do papa, mas Cristo fez nela uma larga brecha, e Satanás foi constrangido a confessar que o Senhor é mais poderoso do que ele." — D’Aubigné.
       Depois de sua partida, ainda desejoso de que sua firmeza não fosse mal-interpretada como sendo rebelião, Lutero escreveu ao imperador: "Deus, que é o pesquisador dos corações, é minha testemunha", disse ele, "de que estou pronto para, da maneira mais ardorosa, obedecer a vossa majestade, na honra e na desonra, na vida e na morte, e sem exceções, a não ser a Palavra de Deus, pela qual o homem vive. Em todas as preocupações da presente vida, minha fidelidade será inabalável, pois perder ou ganhar neste mundo é de nenhuma consequência para a salvação. Mas quando se acham envolvidos interesses eternos, Deus não quer que o homem se submeta ao homem; pois tal submissão em assuntos espirituais é verdadeiro culto, e este deve ser prestado unicamente ao Criador.” — D’Aubigné.
       Na viagem de volta de Worms, a recepção de Lutero foi mais lisonjeira mesmo do que na sua ida para ali. Eclesiásticos principescos davam as boas-vindas ao monge excomungado, e governadores civis honravam ao homem que o imperador denunciara. Insistiu-se com ele que pregasse e, não obstante a proibição imperial, de novo subiu ao púlpito. "Nunca me comprometi a acorrentar a Palavra de Deus", disse ele, "nem o farei." — Martyn. Não estivera ainda muito tempo ausente de Worms, quando os chefes coagiram o imperador a promulgar um edito contra ele. Nesse decreto Lutero foi denunciado como o "próprio Satanás sob a forma de homem e sob as vestes de monge." — D’Aubigné. Ordenou-se que, logo ao expirar o prazo de seu salvo-conduto, se adotassem medidas para deter a sua obra. Proibia-se a todas as pessoas abrigá-lo, dar-lhe comida ou bebida, ou por palavras ou atos, em público ou em particular, auxiliá-lo ou apoiá-lo. Deveria ser preso onde quer que o pudesse ser, e entregue às autoridades. Presos deveriam ser também seus adeptos, e confiscadas suas propriedades. Deveriam destruir-se seus escritos e, finalmente, todos os que ousassem agir contrariamente àquele decreto eram incluídos em sua condenação. O eleitor da Saxônia e os príncipes mais amigos de Lutero tinham-se retirado de Worms logo depois de sua partida, e o decreto do imperador recebeu a sanção da Dieta. Achavam-se agora jubilosos os romanistas. Consideravam selada a sorte da Reforma.

       Deus provera a Seu servo nesta hora de perigo um meio para escapar ao mesmo. Um olhar vigilante acompanhava os movimentos de Lutero e um coração verdadeiro e nobre decidira o seu livramento. Era claro que Roma não se satisfaria com coisa alguma senão sua morte; unicamente ocultando-se poderia ele ser preservado das garras do leão. Deus dera sabedoria a Frederico da Saxônia para idear um plano destinado a preservar o reformador. Com a cooperação de verdadeiros amigos, executou-se o propósito do eleitor, e Lutero foi, de maneira eficiente, oculto de seus amigos e inimigos. Em sua viagem de volta para casa, foi preso, separado de seus assistentes e precipitadamente transportado através da floresta para o castelo de Wartburgo, isolada fortaleza nas montanhas. Tanto o rapto como o esconderijo foram de tal maneira envoltos em mistério, que até o próprio Frederico, durante muito tempo, não soube para onde fora ele conduzido. Esta ignorância não deixou de ter seu desígnio; enquanto o eleitor nada soubesse do paradeiro de Lutero, nada poderia revelar. Convenceu-se de que o reformador estava em segurança e com isso se sentiu satisfeito.
       Passaram-se a primavera, o verão e o outono, e chegara o inverno, e Lutero ainda permanecia prisioneiro. Aleandro e seus partidários exultavam quando a luz do evangelho parecia prestes a extinguir-se. Mas, em vez disso, o reformador enchia sua lâmpada no repositório da verdade; e sua luz deveria resplandecer com maior brilho.
       Na proteção amiga de Wartburgo, Lutero durante algum tempo se regozijou em seu livramento do ardor e torvelinho da batalha. Mas não poderia por muito tempo encontrar satisfação no silêncio e repouso. Habituado a uma vida de atividade e acirrado conflito, mal suportava o permanecer inativo. Naqueles dias de solidão, surgia diante dele o estado da igreja, e exclamava em desespero: "Ai! ninguém há neste último tempo da ira do Senhor para ficar diante d'Ele como uma muralha e salvar Israel." — D’Aubigné. Novamente volvia os pensamentos para si mesmo e receava ser acusado de covardia por afastar-se da contenda. Acusava-se, então, de indolência e condescendência própria. No entanto, produzia diariamente mais do que parecia possível a um homem fazer. Sua pena nunca estava ociosa. Seus inimigos, conquanto se lisonjeassem de que ele estivesse em silêncio, espantavam-se e confundiam-se pela prova palpável de que ainda exercia atividade. Sem-número de folhetos, procedentes de sua pena, circulavam pela Alemanha toda. Também prestava importantíssimo serviço a seus patrícios, traduzindo o Novo Testamento para a língua alemã. De seu Patmos rochoso, continuou durante quase um ano inteiro a proclamar o evangelho e a repreender os pecados e erros do tempo.

       Não foi, porém, meramente para preservar Lutero da ira de seus inimigos, nem mesmo para proporcionar-lhe uma temporada de calma para esses importantes labores, que Deus retirara Seu servo do cenário da vida pública. Visavam-se resultados mais preciosos do que esses. Na solidão e obscuridade de seu retiro montesino, Lutero esteve afastado do apoio terrestre e excluído dos louvores humanos. Foi desta maneira salvo do orgulho e confiança em si próprio, tantas vezes determinados pelo êxito. Por sofrimentos e humilhação foi de novo preparado para andar em segurança na altura vertiginosa a que tão subitamente fora exaltado. Ao exultarem os homens na libertação que a verdade lhes traz, inclinam-se a engrandecer aqueles que Deus empregou para quebrar as cadeias do erro e superstição. Satanás procura desviar de Deus os pensamentos e afeições dos homens, e fixá-los nos fatores humanos; ele os leva a honrar o mero instrumento, e desconhecer a Mão que dirige os acontecimentos da Providência. Muitas vezes dirigentes religiosos que assim são louvados e reverenciados, perdem de vista sua dependência de Deus e são levados a confiar em si próprios. Em consequência, procuram governar o espírito e a consciência do povo que se dispõe a esperar deles a guia, em vez de esperá-la da Palavra de Deus. A obra de reforma é muitas vezes retardada por causa deste espírito da parte dos que a amparam. Deste perigo quis Deus guardar a causa da Reforma. Ele desejava que aquela obra recebesse não as características do homem, mas as de Deus. Os olhos dos homens tinham-se dirigido a Lutero como o expositor da verdade; ele foi removido para que todos os olhares pudessem dirigir-se ao sempiterno Autor da Verdade.

Texto extraído do Livro O GRANDE CONFLITO de Ellen White – "O PODER TRIUNFANTE DA VERDADE" - Capítulo 8 (versão brasileira). Pode comprar na CPB - Casa Publicadora Brasileira.
Pode ler e obter grátis esse livro em 1R - (REFLEXÕES e FILMES) - Ler Online, Baixar o livro (PDF) e o audio-livro (MP3).
Ver mais material, muito bom, sobre a Reforma Protestante, um pouco abaixo do início dos links dos meus blogs.

domingo, 1 de outubro de 2017


VISITA -ESPECIAL -A -PORTUGAL -DO -MUITO -CONHECIDO -CONFERENCISTA -PASTOR -ALEJANDRO -BULLÓN



NÃO PERCA ESTAS CONFERÊNCIAS... QUE VÃO SER, COM TODA A CERTEZA, MARAVILHOSAS!

Para Conhecer mais sobre este extraordinário e querido Pastor da IASD pode ver a sua Biografia e Doutoramento Honoris Causa nos Links em 1R - «PESSOAS». Muito interessante!


E Delicie-se TAMBÉM com estas Doces PALAVRAS JUVENIS - mas com a Maturidade de um CORAÇÃO de ADULTO - Repleto do AMOR DE CRISTO!

DECÁLOGO DA CORTESIA CRISTÃ

"O coração alegre aformoseia o rosto, mas com a tristeza do coração o espírito se abate. Provérbios 15:13

Versão 2 - Em Fevereiro de 1995, a Revista Adventista da Argentina publicou o que pensavam os jovens do Instituto Adventista Balcarce sobre a cortesia.
Fiquei impressionado com as ideias desta outra jovem estudante. Transcrevo o seu Decálogo da Cortesia que pode ajudar-nos a viver uma vida mais alegre e feliz aqui na Terra:

1 - Amarei o Senhor com todo o meu coração e ao próximo como a mim mesmo.
2 - Tratarei os que me rodeiam do mesmo modo como eu gosto de ser tratada.
3 - Serei amigável e cultivarei um sorriso sincero.
4 - Saudarei sempre, seja amigo ou desconhecido.
5 - Darei a minha melhor ajuda àquele que necessite dela.
6 - Reconhecerei tanto as minhas limitações como os meus erros e sempre pedirei desculpa.
7 - Estarei sempre disposto a escutar atentamente os outros, manifestando interesse em tudo o que digam.
8 - Serei cuidadoso com o meu vocabulário. Medirei as minhas palavras e ao referir-me aos outros, falarei das suas virtudes e nunca dos seus defeitos. Chamarei sempre as pessoas pelo seu nome.
9 - Respeitarei os meus superiores, darei apoio aos meus iguais e cumprirei com as normas estabelecidas.
10 - Serei sempre o mesmo, em todo o lugar e com todos.

Pastor Leo Ranzolin - (leia a Versão 1 em Leituras para a Vida)


E NADA ALEGRA MAIS O CORAÇÃO DO QUE A ESPERANÇA DE UMA VIDA MELHOR!

ACREDITE: ISSO É POSSÍVEL!

SERÁ UMA REALIDADE - SIM! - QUANDO JESUS VOLTAR!!!


************************

ENTRETANTO VIVA COM MUITA SAÚDE!!!



(Veja mais em Leituras para a Vida)

segunda-feira, 19 de junho de 2017




Também pode ver no LINK da IGREJA ADVENTISTA DO 7º DIA - Portugal, em Notícias:

SITUAÇÃO DE FAMÍLIAS ADVENTISTAS EM REGIÃO AFETADA PELOS INCÊNDIOS - 18.06.2017
ADRA Portugal em Pedrógão Grande, no auxílio a famílias que perderam todos os seus bens - 22.06.2017

Pode conhecer a CLÍNICA VITA SALUS em 4S - Associação Portuguesa de Medicina Preventiva.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

"Então disseram os apóstolos ao Senhor: Aumenta-nos a fé. Lucas 17:5."

"Eles enfrentaram anos de prisão, isolamento e até mesmo de grande brutalidade. Mas os rostos que emergiram de 'algum lugar no Líbano' não eram bem aquilo que se esperava ver. Eles não pareciam abatidos pela longa provação pela qual passaram como reféns. Os seus largos sorrisos e riso fácil dizia algo totalmente diferente. ...
O que é que manteve Terry Anderson durante os 2455 dias de cativeiro? Ele disse que foi a Bíblia e a fotografia da filha recém-nascida, a quem nunca tinha visto. No cativeiro, ele redescobriu a sua fé.
O refém Benjamim Weir olhou à volta da sua cela, um dia, e notou 3 fios descarnados pendurados no teto. Por algumas razões, aqueles fios sugeriam os dedos de Deus estendidos num dos frescos de Miguel Ângelo, na Capela Sistina. Weir relembra: 'Aquilo tornou-se para mim uma representação da mão sustentadora e providencial de Deus.' ..." Mark Finley in Sobre a Rocha.

Estimado Amigo/a, não perca estas Conferências Públicas de 4 a 10 de OUTUBRO que lhe trarão, com toda a certeza, Pérolas Preciosas retiradas da Palavra de Deus - A ÚNICA DE CONFIANÇA E INFALÍVEL!!! Um abraço amigo, Edite Esteves.

(Clique na imagem para poder ler)

DIA DO ARTISTA
Diálogo com um Escultor Adventista - ALAN COLLINS


(Por favor, clique nas imagens para poder ler)

Nos seus anos de serviço para a Igreja Adventista do Sétimo Dia, através da sua arte, o escultor britânico Alan Collins tem frequentemente se tornado um nome familiar. Ele tem se comunicado com o público, deplorando toda a forma de pretensão e modismos. Uma pessoa solitária por natureza, Alan não luta por conquistas. No entanto, ele não é nenhum asceta, pois possui uma cálida personalidade e um vivo e peculiar senso de humor.
Enquanto que relutante em avaliar-se a si mesmo, Alan espera que seu trabalho reflita "percepção, reflexão, criatividade, atenção aos detalhes e consideração pelos sentimentos das outras pessoas." Nunca um plagiador, qualquer coisa de sua criação que ele sinta ter visto em algum lugar antes, dá-lhe pouca satisfação.


- O senhor lembra-se da 1ª vez em que percebeu que podia fazer algo fora do comum com as suas mãos?
       Creio que quando ainda criança na escola primária. Eu tinha a habilidade para cortar as coisas com arte e moldá-las com uma tesoura. Uma vez o professor teve a ideia de que metades de cascas de ovos, se cuidadosamente aparadas nas beiradas, poderiam servir como interessantes abajurs de brinquedo. E parecia que eu era o único da classe que conseguia fazer isso corretamente.

- Os adultos em sua vida continuaram a encorajar os seus talentos?
       Felizmente sim. O meu professor de artes no 2º grau, por treino um ourives, deu-me uma experiência tridimensional em arte volumétrica. Um dia, na escola de artes, modelei um pássaro de barro num galho de árvore, em atitude de voo. Agradou-me ouvir um professor dizer para outro: "Há um toque artístico nesta peça." Meu professor de escultura tinha sido aluno de Henry Moore, e assim fui colocado também sob sua influência.

- Os seus pais concordaram com sua escolha profissional?
       Meu pai tentou interessar-me pela carreira bancária. Contudo, alegremente, eu ficava acordado até tarde da noite preparando desenhos dos deveres escolares, e ele podia ver facilmente meu tédio diante dos trabalhos que ele trazia do escritório e estendia sobre a mesa para atrair minha atenção. Assim ele teve suficiente visão para permitir que eu seguisse meu próprio caminho.

- Quais foram as recompensas de sua longa carreira como professor?
       Eu sempre apreciei observar os estudantes despertarem para a beleza daquilo que eles estavam criando. Saboreava o momento em que eles percebiam o prazer de modelar formas, organizar cores e descobrir a harmonia dos elementos do desenho.

- Partilhar os momentos da descoberta?
       Precisamente. Então, pode-se, também partilhar alguns aspetos da fé com algum aluno que possivelmente está enfrentando dúvidas e tentando sobreviver a um período de questionamento. Ser capaz de confirmar alguém na fé - isto é algo de que realmente sinto falta quando não estou ensinando.

- Que conselho o senhor daria a um criativo jovem adventista do sétimo dia que tenha terminado a faculdade e espera fazer carreira na arte?
       A habilidade de desenhar bem, certamente é basica para todo o trabalho de arte. Depois disto, decida em que área da arte você se ajusta melhor - artes finas, pintura, escultura, impressão, ou desenho gráfico. Depois treine mais na técnica... Os problemas relacionados com o estilo de vida geralmente não são uma questão de maior importância. O trabalho privado num estúdio isola a pessoa de muito contato com o mundo. A influência de um cristão adventista, mesmo quando ele ou ela não está envolvido/a socialmente, será sentida de igual forma através da sua arte.


- É o prazer em seu trabalho proporcional à satisfação que outras pessoas tiram dele?
       Certamente eu tenho desfrutado de algumas coisas feitas apenas para mim mesmo, e quando outras pessoas reconhecem e respondem ao meu trabalho, isso traz-me deleite. Mas o cliente deve ficar satisfeito.

- De todas as suas obras, qual a sua favorita?
       Humm... Há algumas que ainda me dão prazer quando volto a vê-las depois de anos, apesar dos efeitos do tempo e das estações.

- Onde e quando aconteceu o seu momento mais difícil?
       Em Saltdean, na costa sul da Inglaterra. Ali esculpi a figura de Santo Nicolau, santo patrono dos marinheiros. Quase dois metros de altura em baixo relevo, com uma grande quantidade de pedra a ser retirada. Trabalhando até às 10 horas da noite, a escultura ficou completa em dez dias.

- As pessoas criativas são frequentemente estereotipadas como sendo impacientes. Pensamos no artista enfurecido num acesso temperamental. Que diz?
       Isso não faz nenhum sentido. Você não joga suas ferramentas no chão e diz: "Ah, não farei mais isto. Toma muito tempo." Não, nunca! Você deve ser paciente. Mas uma certa dose de impaciência leva a perseverar na tarefa. Como um escultor frequentemente fico impaciente para ver como a ideia sairá esculpida da pedra.

- O senhor recentemente retomou à atividade independente. Foi isto amedrontador?
       Bem, sim. Foi a mudança de uma condição com renda assegurada como professor. Na Inglaterra eu abandonei dois cargos de professor. Na medida em que o caderno de encomendas ficou cheio, eu gradualmente levantei um pé da plataforma de apoio e o coloquei tentativamente no trabalho solicitado. Quando vi que isto poderia sustentar o meu peso, suspendi o outro pé. Agora tenho encomendas multiplicando-se o suficiente para retirar-me antecipadamente do ensino.

- Descreva um dia típico de seu trabalho.
       É difícil mas é muito necessário manter um estrito número de horas no estúdio. Tenho que conservar minha cabeça voltada para o trabalho, para mantê-la em movimento. Há pequenas tarefas a serem executadas, correspondência, compras de material, contabilidade pessoal, e assim por diante. Costumo ser noturno, trabalhando até tarde da noite. Meu ritmo de trabalho agora está mudado, e tiro uma pequena soneca no meio da tarde, um grande restaurador de energia.

- Quanto tempo pode tomar uma escultura de maior importância?
       De nove meses a um ano. Não tivesse tido nenhuma outra coisa para fazer, poderia ter esculpido as quatro figuras do grupo "O Bom Samaritano", na Universidade de Medicina de Loma Linda, em um ano. Provavelmente necessitarei de um ano para a peça proposta pela Universidade de Andrews e dois para o grupo "Os Atalaias", de nove figuras.


- O senhor tem algum hobby?
       Creio que não. Mas, enquanto trabalho, gosto de ouvir música clássica especialmente Mozart.

- Quando o senhor tem um feriado, o que mais provavelmente faz?
       Oh, ir a museus de arte - muitos deles. E, naturalmente, ver esculturas públicas. Tirando isso, eu sempre desfruto a vida na praia - o lugar de encontro entre a terra e o mar. Gosto de observar as formas das ondas que se quebram, o voo de pássaros... e sentir o movimento do ar.

- Por que o senhor tem tido sucesso?
       (Risadas) Porque eu sempre tentei fazer o meu melhor.

- Então, a perseverança, o senhor diria, é essencial?
       Muitos artistas têm sido de tal modo persistentes a ponto de serem um pouco malucos. Mas não se deve exagerar. Ao contrário, demonstre entusiasmo pelo seu trabalho e o desejo de ajustar-se às necessidades do cliente. O princípio bíblico do desenvolvimento dos talentos aplica-se aqui. Nunca devolva a Deus o seu talento não utilizado. Mesmo em tempos difíceis, há trabalho para quem pratica a diligência.

- O senhor frequentemente colabora com outros artistas?
       Sim, tenho sempre feito isso com prazer. Discordo de artistas que pensam que o trabalho deles está no centro do universo, e que a opinião de qualquer outra pessoa deve ser desprezada. A oportunidade vem com a pergunta: "Você estaria disposto a colaborar com outro grupo de artistas, com um músico, ou um poeta?" Ascetismo pode ser perigoso.

- Como o senhor se relaciona com o fracasso, o momento em que percebe que sua obra não saiu como havia sido idealizada?
       Bem, uma ocasião fui levado a uma mal sucedida técnica com uso de bronze, a qual abandonei. Uma outra vez a madeira vermelha que utilizava partiu-se e tive que desistir.

- Depois de um episódio assim, como o senhor se cura emocionalmente?
       Realmente tenho dificuldade em aceitar o fracasso em mim. É a analogia a uma corrente, eu imagino. Quando alguém demonstra um elo fraco, é sempre um pouco embaraçoso.

- O senhor é um perfecionista?
       Oh, sim, certamente. Gostaria de ser mais espontâneo. Gostaria às vezes de afastar-me de algo sem desejar voltar, observar outra vez sem desejar revisar e remodelar. Contudo, gasto muito tempo em cada trabalho para torná-lo realmente compensador. Sempre desejo gastar muito tempo em cada peça - voltar na manhã seguinte, e ter uma nova visão dela.

- Em que ponto a arte e a fé se convergem?
       Humm... há arte sem fé. E há muita fé que não reconhece a arte. Nem todo o produto de um artista crente, contudo, necessita de ser acerca de doutrina. Simplesmente sendo criterioso em sua obra, você pode adaptar a ela o seu senso artístico e habilidade. E além disso, fé em Deus e em Sua criatividade significa que o próprio artista deve ser um inovador, não um plagiador.

- Quais têm sido as coisas mais importantes em sua vida de artista cristão? Além de pedras esculpidas ou de uma figura em bronze, qual será o seu legado?
       Espero que haja um senso de bondade acerca de minha obra - a forma adequada ao seu contexto. E então desejo que aqueles para quem fiz tal trabalho o aceitem e desfrutem-no.


O CURRÍCULO DE ALAN COLLINS

Nascimento: Nasceu em 15 de agosto de 1928, filho de William Robert Collins, funcionário bancário e sua esposa, Edith, em Beddington, Surrey, Inglaterra.
Educação: Wimbledon College of Art, seguido por um período de três anos no Royal College of Art (Londres). Graduou-se em 1951.
Serviço Militar: Serviu em tempo de paz ao Exército Britânico, de 1946-1948.
Igreja: Cresceu como um cristão anglicano; tornou-se adventista do sétimo dia em 1947. Seus familiares foram membros da Igreja Adventista de Croydon, Surrey, Inglaterra.
Família: Casou-se com Jeanne Fuegi em 1954. Dois filhos: Marianne (1955) e Mark (1964). Tendo ficado viúvo, casou-se com Aliki Snow (1993), e agora reside em Salinas, Califórnia, E.U.A.
Filiações e honras: Eleito associado (1958) e depois membro da Royal Society of British Sculptors (1962).
Medalha de escultura Sir Otto Beitz (1964). Doutor honorário em Fine Arts, Andrews University (1988).
Membro: The International Sculpture Center, Washington, D.C.; Golden State Sculptor's Association.

Carreira Profissional:
Ensino:
-Inglaterra: Hertfordshire College of Art (1951-1958); Berkshire College of Art (1951-1959)
-Estados Unidos: Atlantic Union College (1968-1971); Andrews University (1971-1978); Loma Linda University (1978-1989)
Trabalho Independente: (1989 até o presente)
Apresentações em galerias através de Zantman Art Galleries, Carmel e Palm Desert, Califórnia, E.U.A.
Endereço do Artista: 17577 River Run Road; Salinas, CA 93908-1413, E.U.A.

ENTREVISTA POR Dorothy Minchin-Comm
Dorothy Michin-Comm (Ph.D., Universidade de Alberta) ensinou composição criativa e literatura inglesa na Jamaica, Canadá e Filipinas; desde 1970 leciona em La Sierra University, na Califórnia, E.U.A. Ela já publicou dez livros e numerosos artigos.

Texto da Revista Diálogo Universitário, Volume 5: nº2, 1993.


terça-feira, 26 de julho de 2016

Lições do TITANIC


               

       De vez em quando, o mundo é sacudido com a recordação da tragédia do Titanic.
       Após as recordações dramáticas vividas pelos que directamente viveram e relataram os factos, inúmeras tentativas foram feitas para encontrar os restos desse navio mítico (custando cada uma delas uma pequena fortuna) até que há bem poucos anos, finalmente, se deu a descoberta dos seus destroços, no fundo do Atlântico, a cerca de quatro mil metros.
       A partir daí, não mais se deixou de falar no caso. Ou porque se queriam tirar lucros financeiros da descoberta, ou porque os descendentes daqueles que perderam a vida no naufrágio achavam que a memória dos seus deveria ser deixada em paz, e que os restos do navio deveriam ser considerados "lugar sagrado" como tumba das vítimas mortais.
        Ultimamente o tema voltou à ribalta, desde que se produziu mais um filme sobre o assunto, filme esse que tem reunido à sua volta opiniões de grandeza tal que se está a tornar, ele próprio, num caso cinematográfico.
       Porém, a verdade é que ao longo destes quase noventa e seis anos, se tem vindo a confirmar que esta foi uma tragédia que podia ter sido evitada, não fora a insensatez e a vaidade humanas, que achavam ter feito uma obra tão perfeita que nada nem ninguém a poderia destruir. Nem o próprio Deus!
       Quer os tripulantes do Titanic, quer os dos outros navios que navegavam mais ou menos próximos, todos descansaram na certeza da "impossibilidade" deste barco se afundar.
       Todas as disposições tinham sido tomadas para esse fim.
       Eram quatro grandes compartimentos estanques e o barco poderia navegar com três deles inundados.
       Havia icebergs nas imediações? Que importância tinha isso? A prudência mandava que se diminuísse a velocidade do navio? Mas então como se provaria que ele seria capaz de fazer a travessia em tempo recorde? E além do mais para quê precauções? Ele não iria ao fundo!
       Só que o iceberg não sabia que aquele navio era insubmersível... e, por isso, rasgou os quatro compartimentos estanques. E a partir daí o Titanic não tinha salvação possível.
       Aliás, o desastre do Titanic começou a sua contagem decrescente, a partir do momento em que ao estabelecer os planos para a sua construção se formou na cabeça dos seus construtores e patrocinadores, a ideia de que ele era insubmergível. E isso custou a vida a mil, quinhentas e três pessoas.
       As vaidades humanas têm sempre um alto preço. O mais grave é que raramente são apenas os culpados os únicos a sofrer. Há sempre vítimas inocentes.
       Quando aprenderemos a lição do Titanic e de uma vez por todas reconheceremos as nossas limitações e nos colocaremos humildemente perante Deus, para que Ele nos guie?
       Meditando neste episódio, fazemos votos para que aprendamos, cada vez mais, a confiar no Deus que nos ama e dirige todas as coisas, e que nós costumamos dizer amar também.

       A Redacção


Mulheres e Crianças Primeiro

"Pensa bem! O Titanic! Um barco novo, maravilhoso, o barco dos sonhos! O Insubmergível! Vais estar lá na sua viagem inaugural!"
Ruth Becker sabia que o pai lhe dizia aquilo para a consolar, para a alegrar, já que não poderia acompanhá-los na viagem.
Estava-se em Fevereiro de 1912. Ruth Becker tinha doze anos e os seus pais, Allen e Nellie Becker, eram há quinze anos missionários adventistas na Índia. Agora a Sra. Becker e os seus três filhos preparavam-se para regressar aos Estados Unidos, mas o Sr. Becker não poderia acompanhá-los. O médico tinha-lhe recomendado repouso absoluto "durante algum tempo" lá nas montanhas da Índia, pois ele estava doente com uma grave erupção cutânea por todo o corpo.
"Não podemos esperar e ir mais tarde com o pai?" perguntou Ruth. E Marian, que tinha apenas quatro anos, acrescentou alegremente: "Vamos todos esperar pelo pai!"
"Não se esqueçam de que o médico disse que o pequeno Richard deve sair quanto antes do clima húmido da Índia. É por isso que temos de partir agora, pois não sabemos quando haverá novamente barco." Então voltando-se para o marido disse: "Há tanto tempo que esperamos ansiosos esta viagem de regresso a casa, que é um grande desapontamento não te termos connosco, querido."
"Coragem, meu amor!" disse ele, "A Ruth ajuda-te a cuidar da Marian e do Richard. Eu também em breve vou para casa."
Além de ter sido retido pela erupção na pele, o Sr. Becker queria ficar para terminar o seu período de trabalho.
"Vocês farão uma óptima viagem" continuou. "O navio de Bombaim para a Inglaterra é confortável. De lá vocês embarcarão no Titanic para Nova Yorque. Muitas pessoas vos vão invejar, porque nem todos os que queriam fazer a viagem inaugural do Titanic conseguiram lugar."
"Na verdade estou contente por irmos no Titanic", concordou ela "mas vai ser uma viagem muito triste sem a tua companhia". Marian, que ainda não tinha compreendido o porquê de tudo aquilo, começou a chorar...
"Porque é que o papá não pode vir com a gente? Porquê mamã, porquê? Eu quero o papá com a gente!" "Vamos. Não fiques triste" disse a Sra. Becker pegando-lhe ao colo.
"Nós não podemos realmente entender o porquê. Deus não nos está a dizer agora. Mas um dia havemos de compreender, vais ver."
Allen Becker não sabia o motivo, naquela ocasião, mas iria descobrir algumas semanas depois. No dia 18 de Abril receberia um telegrama que lhe mostraria a razão pela qual Deus o manteve por mais tempo na Índia.
Ruth, a mãe, a Marian e o bebé, partiram da Índia na data marcada. Ao chegar a Southampton, em Inglaterra, embarcaram no lindo e maravilhoso Titanic para fazerem a viagem através do Atlântico para Nova Yorque.
O Titanic tinha a bordo 2.207 passageiros e tripulantes registados ao iniciar a sua viagem naquela fria manhã de Primavera. Dizia-se que o navio era insubmergível. Acreditava-se que os compartimentos estanques com os quais fora dotado, impossibilitavam esse luxuoso navio de naufragar.
Mas na quinta noite de viagem, na fatídica noite de 14 de Abril, Ruth e a sua mãe foram acordadas, não por barulho, mas por um silêncio repentino. As gigantescas máquinas do Titanic tinham parado. Era quase meia-noite.
Então perceberam que se estava a passar alguma coisa estranha. Ouvia-se o barulho de pessoas nos corredores e no convés. Passos apressados seguidos pela voz do camaroteiro que batia na porta do seu camarote: "Toda a gente deve subir para o convés! Venham imediatamente!"
"Temos tempo para nos vestirmos?" perguntou a Sra. Becker. "Minha senhora" respondeu o camaroteiro "não há tempo para nada!"
E correu para o camarote ao lado. A Ruth e a mãe acordaram rapidamente as duas crianças, ajudaram-nas a calçar os sapatos e meias e a vestirem os casacos por cima dos pijamas. A Sra. Becker pegou então no seu dinheiro e desceram a correr as sete escadarias até ao convés superior.
Já se encontravam ali outros passageiros e havia mais gente a chegar; alguns já vestidos, outros apenas com roupões ou casacos a cobrir a roupa de dormir. Soprava um vento gélido, e havia gelo espalhado no convés.
Os passageiros não foram informados imediatamente sobre o que se passara, mas o gelo no convés só podia significar uma coisa: O Titanic tinha chocado com um iceberg! Este provocara um corte de aproximadamente 100 metros de comprimento no casco do navio. Essas notícias estarrecedoras foram divulgadas enquanto se ordenava que todos colocassem os coletes de salvação, e a tripulação preparava os botes salva-vidas. Algumas mulheres choravam silenciosamente. As crianças choramingavam e agarravam-se às saias das mães.
Mas mesmo assim, muitas pessoas não consideravam a situação grave. Afinal, o Titanic não era insubmergível? Em Southampton um dos marinheiros dissera a uma passageira: "Minha senhora, nem mesmo Deus conseguiria afundar este navio!" De acordo com a tradicional lei dos navios e do mar "Mulheres e crianças primeiro", os passageiros foram distribuídos pelas suas respectivas posições de salvamento, e as mulheres e as crianças foram as primeiras a entrar nos botes. Algumas mulheres recusaram-se a ir, preferindo permanecer com os maridos. Muitas não acreditavam que o Titanic se pudesse afundar. Mas também não havia botes que chegassem para todos.
Enquanto a Ruth e a mãe aguardavam a sua vez, a Sra. Becker percebeu que no meio daquelas águas encapeladas pelo vento, elas precisariam de algo mais do que os casacos para se aquecerem.
"Ruth, volta ao camarote e traz alguns cobertores. Ainda há tempo se fores depressa" disse ela para a filha. A Ruth saiu a correr para cumprir a sua missão e rapidamente estava de volta com três cobertores.
Marian e o bebé foram então colocados num salva-vidas e a tripulação gritou: "Já chega! Está cheio!"
"Não! Não!" suplicou a Sra. Becker. "São os meus filhos. Deixem-me ir com eles!" Finalmente ajudaram-na a subir e alguém gritou: "Mais ninguém! Está cheio! Passem ao próximo!"
Um oficial segurou Ruth e levou-a para outro salva-vidas. Quando finalmente já boiava nas águas escuras, ela reparou que ainda estava abraçada aos três cobertores.
Os homens que remavam no seu barco eram os que trabalhavam na casa das máquinas e por isso usavam roupas muito leves. Ali no meio do frígido Atlântico Norte, molhados pelo mar e cercados pelos icebergs, esses homens estavam realmente a sofrer com o frio. A Ruth deu-lhes então os cobertores; alguém os rasgou em pedaços e cada tripulante foi coberto, para que não morresse de frio.
A menina ouvia as pessoas dos outros botes chamarem e perguntou a si mesma, se a mãe e os irmãos estariam a salvo em algum deles. Ela orou pedindo segurança para os seus. Silenciosamente, orou dizendo:
"Por favor, Senhor, envia outro navio para nos encontrar". Ela observou o Titanic enquanto foi possível. Viam-se as filas de luzes. Via que, uma após outra, essas filas se apagavam enquanto o navio se afundava nas águas. Por fim deixou de ver o navio. E o que a Ruth não sabia, na altura, era que centenas de pessoas estavam presas no seu interior e que se afundaram juntamente com ele.
A 93km do Titanic, um navio bem mais pequeno, o Carpathia, viajava de Nova Yorque em direcção ao Mediterrâneo. O operador de rádio desse navio tinha captado o pedido de socorro do Titanic e deslocava-se a toda a velocidade para socorrer os seus passageiros.
Mas demorou quatro horas. E antes do Carpathia cobrir a distância, o Titanic já estava submerso no Atlântico.
Ao chegar, navegou em círculos na área do desastre, resgatando as pessoas que estavam nos salva-vidas que boiavam à deriva.
Logo após o raiar do dia, Ruth foi puxada para dentro do Carpathia. Foi envolta num cobertor quentinho e seguiu rapidamente para a sala de jantar, onde lhe foi servida uma bebida quente. Ali encontrou a mãe e os irmãos. A Sra. Becker abraçou a filha e chorou ao dizer repetidas vezes:
"Graças a Deus estamos salvos!"
Assim que o Carpathia se certificou de que não havia mais ninguém para salvar, dirigiu-se de volta a Nova Yorque. A viagem durou três dias. O nevoeiro era cerrado e intenso, de modo que o navio tinha de avançar devagar e cuidadosamente, com as sirenes de nevoeiro a soarem quase continuamente.
Apenas 704 passageiros e tripulantes sobreviveram ao desastre do Titanic. Mil, quinhentas e três pessoas morreram naquela noite, afundando-se com o navio, ou afogadas nas águas gélidas, à temperatura de dois graus centígrados, do Atlântico Norte.
Em Nova Yorque, Ruth e a mãe enviaram um telegrama ao Sr. Becker: "Chegámos bem a Nova Yorque. Os quatro salvos."

O Sr. Becker, que se encontrava numa remota região montanhosa da Índia, estranhou o telegrama.
"Porque será que gastaram tanto dinheiro num telegrama?" pensou consigo mesmo. "É claro que chegaram bem! Viajaram no Titanic!"
Porém, ainda no mesmo dia, soube do desastre e compreendeu o porquê do telegrama. Agora todos podiam perceber claramente porque é que Deus retivera o Sr. Becker na Índia. Se ele tivesse viajado no Titanic com a família, a lei do mar, "Mulheres e crianças primeiro", teria significado morte certa para ele. Deus sabia o que aconteceria e misericordiosamente impediu que o pai fizesse a viagem com a família. Oito meses mais tarde, toda a família se reuniu nos Estados Unidos.

Ruth, mais tarde Sra. Ruth Blanchard, foi professora no Estado de Michigan, nos Estados Unidos. Nunca esqueceu a noite de 14 de Abril de 1912 e a maneira maravilhosa que Deus usou para salvar a vida do seu pai missionário.

Texto de Irene Butler Engelbert in  Revista  Adventista,  Abril 1998.

Nota da Redacção - Enquanto o barco se afundava, a orquestra de bordo não parou de tocar. Nos momentos finais tocou um hino que no hinário adventista tem o nº 377 - "Mais Perto Quero Estar".


VIAJANDO  JUNTOS  PARA  O  LAR

Voltarei e vos receberei para Mim mesmo, para que, onde Eu estou,
estejais vós também." João 14:3

               Já vi o monte Rushmore. Visitei as cataratas do Niágara;
               Contemplei as obras de Miguel Ângelo, as paredes do museu Rijks;
               A Abadia de Westminster, as gôndolas de Veneza, o rio Reno,
               O arco do Triunfo, Petra e a fortaleza de Masada.

               Examinei as geleiras do Alasca; aspirei o ar dos Alpes Suíços;
               Vi os campos de tulipas em Amsterdão; o Kremlin e a Praça Vermelha;
               A Capela Sistina, a antiga Viena, os penhascos de Dover,
               O Coliseu de Roma e a iluminada Torre Eiffel à noite.

               Alegrei-me com a música de Chopin; vi a abóbada de pedra,
               A catedral de S. Basílio, o poderosos Big Ben,
               O treinamento dos cavalos de Lipizzaner; o muro ocidental,
               Getsêmani, Monte das Oliveiras, a tumba de Jesus - Gostei de tudo!

               Mas passei pela Via Ápia e vi as catacumbas;
               Os cruéis campos de concentração; lares em ruínas;
               Furacões e miséria; os resultados da guerra;
               Calamidades e corações angustiados; Não quero ver mais!

               Anelo ver a Terra renovada, sem espaço
               Para mísseis e arsenais, armas de fogo e tumbas silenciosas,
               Hospícios e prisões, câmaras de gás e polícia.
               Quero ver uma Terra mais feliz, de paz e alegria!

               Todas as atrações de que este mundo se orgulha somem na obcuridade
               Quando reflito sobre as maravilhas que Deus planeou para mim.
               O esplêndido Taj Mahal é apenas uma cabana em comparação
               Com as mansões que o precioso Senhor vem preparando.

               Muito além da escuridão da Terra existe um lugar glorioso
               Onde os cavalos de Lipizzaner poderão correr sobre colinas;
               Onde colheremos as flores do Éden, beberemos da fonte cristalina,
               Andaremos entre árvores gigantescas, seguros para sempre.

               Creio que haverá sendas adornadas de esmeraldas,
               Onde saudaremos patriarcas que se dirigem às ruas de ouro,
               Ou nos sentaremos com amigos para ver leões brincando com cordeiros,
               Na certeza de que nesse lugar não existe a sombra do temor.

               Quero ouvir o Salvador contando aquela "metade que não se contou"
               E pedir que a repita, pois será sempre nova.
               Ver o Pai em Seu trono de safiras, curvando-Se para dizer
               "Eu te amo!" com a face iluminada por um sorriso.

               O mundo está ficando escuro, muito escuro!
               Queridos nossos dormem nos leitos de pó.
               O Senhor está ansioso por retornar. Mal pode esperar!
               Tem saudades de Seus filhos. Por que, então, hesitamos?

               Façamos já as reservas. Nosso Guia está esperando
               Além do corredor de Órion, para conduzir-nos em segurança.
               Venha, então, viajar comigo, pois o Rei dos reis planeou
               A mais emocionante das viagens - rumo à Terra gloriosa!


Lorraine Hudgins
Pode conhecer o "corredor de Órion" e outros aspetos interessantes no vídeo abaixo, colocado também nos links 1R - "Os mistérios de Órion".

https://www.youtube.com/watch?v=1D89ATEAi9o