domingo, 27 de janeiro de 2013




«OS MÉDICOS MALDITOS - Christian Bernadac. Valeria a pena reunirem-se, com tanta fadiga, estes dados incontroversos acerca das 'experiências médicas' realizadas pelo Nazismo em prisioneiros políticos ou de guerra? Que interesse actual representará todo este estendal da crueza a frio, praticada a pretextos 'científicos' e que, todavia, não adiantaram um passo à ciência? Seria apenas para organizar mais um dossier especial do terror concentracionário que Christian Bernadac se entregou à arrepiante missão de procurar, interrogar, uma centena do 'cobaias humanas' excepcionalmente sobreviventes, e umas trezentas outras testemunhas presenciais; de examinar cerca de um cento de livros, artigos, relatórios oficiais ou oficiosos - para seleccionar este material rigorosamente apurado e o divulgar de um modo vivo e inesquecível ao leitor comum? A resposta é impressionante. É o prefácio deste livro, em que todos deveríamos meditar, tendo em vista o requisitório subsequente. A HUMANIDADE ESQUECE DEPRESSA, e por toda a parte voltam a ouvir-se perguntas sobre os 'limites', ou 'condições', em que a experiência sobre o organismo humano seria defensável, além de útil. Alvitra-se mesmo a possibilidade de 'voluntários', pensando naturalmente em presos de delito comum, talvez, sobretudo em condenados à pena capital - como se tal 'voluntariedade' fosse autêntica. A mais simples 'facilidade' de deontologia médica, a menor sombra de desvalorização de uma vida humana, por motivos rácicos, sociais, fisiológicos, ideológicos ou de conveniência 'técnica', desencadeia uma lógica por onde, passo a passo, se chega insensivelmente a 'isto', que Bernadac nos mostra ou relembra. Nunca o esqueçamos. NUNCA O DEIXEMOS ESQUECER.»

DIA INTERNACIONAL EM MEMÓRIA DAS VÍTIMAS DO HOLOCAUSTO

Em 27 de Janeiro de 1945, o exército soviético libertou o maior campo de extermínio nazi, Auschwitz-Birkenau, na Polónia. As Nações Unidas adoptaram esta data para manter viva a memória das vítimas do Holocausto. A ideologia do Partido Nacional Socialista Alemão dirigiu toda a política alemã entre 1933 e 1945. Hitler defendia que a construção da Nova Alemanha deveria basear-se exclusivamente na raça ariana. Isto exigia afastar das funções públicas os "não arianos", proibir os casamentos mistos e esterilizar as raças inferiores e os doentes mentais.

Em 10 de Janeiro de 1933, Hitler assumiu o cargo de Chanceler, e, a 23 de Março, recebeu plenos poderes. Então, o Partido Nacional Socialista, de orientação totalitária, passou a combater todos os membros "não arianos" da sociedade, especialmente os judeus que, de forma sistemática, foram eliminados por meio de assassínios em massa. O estabelecimento e a manutenção deste sistema foram possíveis graças à penetração do aparelho estatal na vida intelectual, social e económica do país, por meio das SS - funcionários do partido, e da Gestapo - Polícia Secreta do Estado.

Aliado à política ditatorial, baseada no racismo e anti-semitismo da superioridade ariana, esteve a teoria expansionista do "espaço vital". As sucessivas anexações da Áustria, Boémia, Morávia e a invasão da Polónia, provocaram a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Desta brutalidade da loucura humana, resultaram um total de 72 milhões de mortes, ou seja, 26 milhões de soldados e 46 milhões de civis. Nos "campos de concentração" nazis, morreram 12 milhões de pessoas, sendo 6 milhões judeus, e também membros de outras minorias que sofreram actos atrozes de discriminação, privações, crueldade, crimes, assassinatos - um genocídio que lesa a humanidade.

Num ensaio filosófico sobre o aviltamento que a morte tem sofrido nos nossos tempos, o italiano Giorgio Agamben escreve: "Em Auschwitz, não se morre, produz-se cadáveres. Cadáveres sem morte, não-homens cujo falecimento é rebaixado ao nível de produção em série. E esta degradação da morte constituiria concretamente... o escândalo específico de Auschwitz, o nome próprio do seu horror."

Esta manifestação furiosa de racismo, ódio, fanatismo e desumanidade é uma vergonha dramática para a humanidade, que não soube evitar o Holocausto. Por isso, os horrores da Segunda Guerra Mundial deram lugar aos fundamentos da Carta dos Direitos Humanos, em 1948, artºs. 1 e 2: "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns com os outros em espírito de fraternidade. (...) Todos os seres humanos têm todos os direitos e liberdades proclamados nesta Declaração, sem distinção alguma de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de posição económica, nascimento ou de qualquer outra condição."

É urgente, pois, inventar, construir, criar um mundo onde possamos conviver em paz, reconhecendo a dignidade e igualdade de direitos de todos os membros da família humana. Comprometamo-nos, pois, a trabalhar em conjunto para formar a esperança de hoje no mundo melhor de amanhã. Isto é possível, se cada um quiser ser irmão do seu irmão, enquanto não vem o Pai, e Autor da vida, resolver o que deixamos insolúvel.

Ezequiel Quintino, Teólogo e Jornalista, in Pensar Faz Bem


"E VIREI-ME PARA VER QUEM FALAVA COMIGO. E, VIRANDO-ME, VI SETE CASTIÇAIS DE OURO. Apocalipse 1:12

       Na Páscoa de 1969, tive o privilégio de visitar Roma. Depois de termos ouvido a mensagem do Papa sobre a Páscoa, na praça de S. Pedro, fui, com três amigos, ver as ruínas do Coliseu Romano. Foi um prazer andar pela terra onde Pedro e Paulo devem ter andado, olhar para as ruínas dos edifícios que um dia já foram grandiosos, feitos com as mesmas pedras que os apóstolos terão visto e tocado.
       A maior parte dos turistas que visitam o Coliseu começam pelo lado oposto da Prisão Mamertina (onde Paulo pode ter estado preso). Depois, passa-se pelo templo das Virgens Vestais, sobe-se e desce-se pelo Monte Palatino, e passa-se pela Basílica de Constantino para a outra ponta do Coliseu. Aí passámos pelo Arco de Tito, o general romano que conquistou a cidade de Jerusalém no ano 70 d. C.. Imagine o nosso entusiasmo quando vimos uma ilustração, em alto relevo, de soldados a marchar à volta de Roma, com o candelabro de sete braços que tinha sido tirado do Templo de Jerusalém! Sentimo-nos realmente próximos do mundo da Bíblia.

       Em todo o antigo mundo romano, o menorah de sete braços (candelabro) era o símbolo mais comum do judaísmo,1 tal como o peixe e a cruz se tornaram, mais tarde, nos emblemas da fé cristã. De uma maneira surpreendente, o livro de Apocalipse adota esta imagem do Judaísmo para representar as igrejas da Ásia Menor. Desta forma, João compreendeu claramente que a verdadeira fé cristã era herdeira da herança de Israel, mesmo que, por vezes, a sinagoga excluísse os cristãos (Apocalipse 2:9; 3:9). Foram os que expulsaram que perderam a ligação com a sua herança judaica; não os expulsos, os seguidores fiéis de Yeshua, o Messias.

       Então os Nazis estavam certos? A Igreja cristã substituiu Israel? Foi o Holocausto um julgamento de Deus em vez de maldade humana? É difícil imaginar os cristãos do primeiro século a tomarem uma posição dessas. Eles proclamavam um Messias judeu, que cumpriu as antigas promessas feitas a Israel. Eles converteram pagãos ao verdadeiro Deus de Israel. Embora não exigissem que os gentios fossem circuncidados, os judeus cristãos, tal como Paulo, receberam-nos como novos participantes da sua fé judaica em Jesus. Os crentes gentios eram filhos espirituais de Abraão (Gálatas 3:28), circuncidados interiormente (Romanos 2:28 e 29) e enxertados na árvore de Israel, enquanto os ramos descrentes eram quebrados (Romanos 11:27). 2 No livro de Apocalipse, a imagem do candelabro acentua as raízes judaicas da fé cristã e a íntima ligação dessa fé e da antiga herança de Israel.

       Senhor, ajuda-me a aprender mais sobre as minhas raízes judaicas e a apreciá-las da mesma maneira que Paulo e João.


1 -
Ver Craig S. Keener, Revelation, The NIV Application Commentary (Grand Rapids: Zondervan, 2000), p. 85, notas 22 e 23.
2 -
Ibidem, p. 89.

Jon Paulien (foi Professor de Interpretação do Novo Testamento na Universidade Adventista de Andrews; a partir de 2007 é o Diretor da Faculdade de Teologia da Universidade de Loma Linda; autor de 11 livros e mais de 100 artigos científicos, é um especialista reconhecido nos escritos bíblicos de João) in Meditações Matinais 2013, 19.01, Apocalipse - O Evangelho de Patmos, Publicadora Servir - ver links 4LS e 3I.
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EDITORIAL

Após o primeiro homicídio neste planeta, veio a pergunta de Deus: "Onde está o teu irmão?" A pergunta não era um convite a um diálogo filosófico sobre os mistérios da vida; nem era um pronunciamento cósmico sobre a vida após a morte. O Seu propósito era ao mesmo tempo imediato e duradouro.
As circunstâncias levaram Caim a comparecer diante da justiça e graça divinas: de um lado, para ser acusado pelo assassinato do seu irmão, para enfrentar o pecado como traição da fraternidade, e para ser condenado como pecador diante do tribunal da justiça divina; de outro, para encarar a possibilidade de ser reintegrado em virtude do mistério da graça e amor redentor do Criador.

O intento duradouro da pergunta ainda preocupa a História. A pergunta fez saber para sempre, a gerações ainda não nascidas, que pessoa alguma é uma ilha, e que a vida para ser significativa precisa de ser vivida dentro do contexto de Deus e do ser humano. O pobre Caim errou o alvo, e nisto consistiu o seu pecado. E Caim, aterrorizado pela pergunta, deixou uma herança de medo e uma consciência perturbada, sem que jamais faltassem herdeiros.

Ao confrontar a pergunta: "Onde está o teu irmão ou irmã?", teremos respondido a uma das grandes perguntas da vida. A pergunta não é social, económica, política, filosófica, ou mesmo moral. É primariamente religiosa. Pelo facto de Caim ter-se afastado de Deus, por não ter desejado relacionar-se com Ele do modo como lhe fora dito, e porque queria ser senhor do seu destino, ele não podia se relacionar com o seu irmão Abel. Preferiu o homicídio ao relacionamento; preferiu solidão em vez de comunidade; negou a Deus a fim de ser deus.

Aí jaz a raiz da sua desumanidade para com o outro, escreveu Ellen White, há muito tempo (O Desejado de Todas as Nações, pág. 21). Mais recentemente, Reinhold Niebuhr, um dos grandes teólogos que a América produziu, fez uma contribuição notável ao pensamento cristão em reconhecer o pecado - seja o mais complexo ou o mais simples - pelo que ele é essencialmente: egocentrismo, que, de um lado, surgiria para se proclamar deus, e, de outro, não hesitaria em remover o que quer que o impedisse. Assim foi com Lúcifer. Assim foi com os tiranos da História. Assim poderia ser comigo.

Talvez seja por isso que Lutero definiu o cristão como um 'cruciano' - alguém que ouviu o chamado do Mestre e que crucificou o eu. O abandono total do eu - seja no lar, na escola, no trabalho, no culto - é o alfa do chamado do evangelho, não de um modo místico, mas de um modo relacional. Este chamado implica que reconheço o Outro como minha primeira prioridade e o outro como minha segunda prioridade. Isto é, abandono o eu em primeiro lugar porque o Criador tem direitos sobre mim, e em segundo lugar, aquele imperativo colocou sobre mim a responsabilidade de olhar para a frente, para trás, de lado, e ver aí o meu próximo.
Os semelhantes aparecem em diferentes matizes, mas juntos formam um arco-íris - um arco-íris divino. Onde há um senso do arco-íris, os matizes diversos cedem lugar à criação de uma humanidade comum que se apega à promessa de Deus e à visão de Deus sobre um lar onde o amor, e unicamente amor, reina. E o amor perfeito, banhado no sangue da Cruz, pode banir o Caim que espreita em todo o coração humano.

John M. Fowler, Editor, in Revista Diálogo Universitário, Fevereiro de 1997.

(Pode ler mais em Leituras Para a Vida - Links 1R)