sábado, 7 de novembro de 2015

O DEUS DA BÍBLIA


"Uma mente finita só compreende o que lhe é revelado."

"A paz, se possível, mas a Verdade, a qualquer preço." Martinho Lutero

"As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei."
Deuteronómio 29:29


Conheça Dez Razões Para Crer Na Trindade

O mundo cristão vive novamente um intenso debate sobre a melhor maneira de entender o Deus da Bíblia. Desde o 4º século, quando houve uma enorme polarização em torno da divindade e do status de Cristo e do Espírito Santo, não se via tanto interesse no assunto da Divindade. Há uma verdadeira renascença na área da "trinitologia", para criar uma palavra. Os especialistas creditam o início do moderno interesse pela Trindade a dois grandes teólogos chamados Karl - Larl Barth (1886-1968), e Karl Rahner (1904 - 1984).

     No momento, a Igreja Adventista do 7º Dia enfrenta a acusação por parte de um grupo minoritário, de que ela se distanciou do ensino dos pioneiros e adoptou uma doutrina não bíblica. O que é que há de verdade nisso?
     Com relação à 1ª parte da afirmação, não precisamos de gastar espaço aqui: sabe-se há bastante tempo que pioneiros como Tiago White, Uriah Smith e John Loughborough eram antitrinitarianos. Alguns deles tinham vindo de igrejas que não aceitavam a Trindade, como a Conexão Cristã, e ainda defendiam esse ponto de vista. Porém sabe-se também que eram defensores da verdade progressiva e que a igreja começou a mudar a sua posição ainda no fim do século XIX, especialmente por influência de Ellen White.
     Para os Adventistas (e evangélicos) que têm a Bíblia como única regra de fé e prática, a grande questão é se a doutrina da Trindade tem uma base bíblica sólida ou não. Se não tem, deve ser abandonada; se tem, deve ser defendida e aprofundada. Considerando que a Bíblia não faz nenhuma declaração directa, explícita e indiscutível sobre o assunto, temos que trabalhar com os dados e as evidências disponíveis. Que o tema é complexo, ninguém discute. Agostinho (354-430), influente teólogo cristão, já dizia, a brincar, que quem nega a Trindade corre o risco de perder a salvação, mas quem tenta entendê-la corre o risco de perder a mente!
     Os teólogos que crêem na Trindade estão divididos quanto ao nível de presença do tema na Bíblia, especialmente no Antigo Testamento. Para Roger Olson e Christopher Hall, autores do livro The Trinity (Eerdmans, 2002), a igreja desenvolveu o tema porque ele aparece na Bíblia. "Se não fosse o testemunho bíblico enraizado na própria história da salvação, a igreja, à medida que se desenvolvia, teria tido pouca motivação, necessidade ou desejo de desenvolver um modelo trinitário de Deus", sugerem eles. "Embora a palavra Trindade não apareça na Bíblia, há evidência de que o conceito é bíblicamente apoiado no Antigo Testamento."
     No seu livro The Tripersonad God (Paulist, 1999), Gerald O'Collins observa que "Sabedoria", "Palavra" e "Espírito" aparecem no Antigo Testamento como "vívidas personificações" ao mesmo tempo "identificadas com Deus" e "distintas de Deus". Os três são "agentes personificados da actividade divina", "ainda não reconhecidos formalmente como pessoas", mas operando "com características pessoais".
     Alguns identificam a "Sabedoria" com a "Palavra" (o Filho, Cristo) e outros com o Espírito. De modo que, juntamente com o Pai, formariam uma proto-trindade. "O Antigo Testamento contém, por antecipação, categorias usadas para expressar e aprofundar a Trindade", pensa O'Collins.
     Eu diria que a tri-unidade de Deus, com base num monoteísmo dinâmico, é sugerida no Antigo Testamento, evidenciada no Novo Testamento e desenvolvida ao longo da história da igreja. A matéria-prima está na Bíblia, mas a teoria veio depois. Naturalmente, seria necessário um enorme livro para justificar e documentar essa afirmação. Mas os factos e argumentos apresentados a seguir ajudarão a firmar a nossa confiança no ensino bíblico.

EVIDÊNCIAS BÍBLICAS

Algumas fortes evidências em favor da Trindade vêm do próprio Antigo Testamento. Outras encontram-se no Novo. Vamos começar pelo Antigo. Isso mostrará que a formulação posterior do ensino da Trindade não contraria a revelação inicial.

1. A Combinação de Nomes de Deus no Plural Com os Verbos no Singular Sugere uma Unidade Plural.
     Se os escritores do Antigo Testamento quisessem fechar totalmente a porta à interpretação de que Deus é uma unidade plural, poderiam ter usado apenas as palavras El, Elah, Eloah e Adoni, que são nomes singulares, em vez de Elohim e Adonai, que são formas plurais. Mas não foi isso que fizeram. Na verdade, como lembra John Metzger, autor de The Triunity of God Is Jewish (Cenveo, 2005) "eles usam uma palavra plural na vasta maioria das vezes."
     Elohim, por exemplo, é usado cerca de 2600 vezes para Deus/deuses. Desse total, 2350 vezes o termo refere-se ao Deus de Israel. Como observa Metzger, isso "é muito mais vezes do que os usos no singular de El (258 vezes), Elah (95) e Eloah (58)". Depois da palavra 'filho' (ben), Elohim é o substantivo que mais aparece no Antigo Testamento. Trata-se de um nome genérico para Deus e é empregado 930 vezes em combinação com Yahweh. O interessante é que, em todos esses casos, Elohim aparece com o verbo no singular. Em Génesis, o texto literal do hebraico diz: "No princípio, Deus (plural) criou (singular)."
     Quando a referência é aos deuses falsos, que são muitos, os autores e tradutores usam o verbo no plural. Mas com relação a Deus, que é um, usam no singular. Parece que, ao permitir que os escritores bíblicos usassem essa fórmula de substantivo plural/verbo singular, Deus estava a dizer algo sobre a Sua natureza - uma Divindade formada por várias pessoas. Deus está acima da gramática, fazendo o plural combinar com o singular, e acima da matemática, fazendo três serem um. Filosoficamente, portanto, a ideia de uma unidade complexa e indivisível tem apoio bíblico.

2. O uso do pronome "nós" em referência a Deus sugere a pluralidade na Divindade.
     Na verdade, Deus usa o "nós" apenas quatro vezes (Génesis 1:26; 3:22; 11:7; Isaías 6:8), mas os casos são significativos. Se a Divindade é formada por uma pessoa apenas, porque teria Deus usado a primeira pessoa do plural (nós)? Várias explicações têm sido sugeridas: plural de majestade, plural abstracto de grandeza e majestade, plural de intensidade, plural de universalização, plural para destacar exclusividade, plural de deliberação consigo mesmo, plural que inclui o conselho ou a corte celestial (não outras pessoas da Divindade). Será que essas explicações são convincentes?
     A explicação mais divulgada é que esse "nós" se refere a um plural de majestade, não a uma pluralidade real. Por exemplo, a rainha de Inglaterra diz "nós", mas, na verdade, quer dizer "eu". O problema com essa explicação é que ela se refere a um costume moderno. Essa prática parece estranha à Bíblia hebraica e ao mundo do antigo Próximo Oriente. Na Bíblia, os reis de Israel e Judá usam o singular (eu) e não o plural (nós).

3. Os casos em que aparecem múltiplos Elohim/Yahwehs no mesmo contexto sugerem a existência de pluralidade na Divindade.
     Em Génesis 18, três personagens celestiais aparecem a Abraão em forma humana e comem com ele. A sequência deixa claro que um é Yahweh e os outros dois são anjos. Depois de os anjos saírem para Sodoma, Yahweh e Abraão têm um diálogo sobre a possibilidade de poupar a cidade. O texto indica que Yahweh queria comprovar a situação do povo para o destruir ou não. Então, confirmada a maldade, Génesis 19:24 diz que "fez o Senhor (Yahweh) chover enxofre e fogo da parte do Senhor (Yahweh), sobre Sodoma e Gomorra". Aparentemente, um Yahweh na Terra enviou fogo da parte do outro Yahweh no Céu.
     No Salmo 45:6,7, uma passagem messiânica, há referência a dois personagens divinos. Um ser chamado Elohim fala de outro Elohim, ou seja, Deus chama Deus ao Messias/Ungido. Outros textos que parecem indicar a existência de mais de um ser chamado Yahweh são Isaías 44:6, Oseias 1:7 e Zacarias 2:8, 9, mas não temos espaço para os comentar.

4. Referências a Deus usando verbos/modificadores no plural sugerem pluralidade na Divindade.
     Abraão, Jacob e David referiram-se a Deus usando verbos ou modificadores no plural. Em Génesis 20:13, Abraão diz literalmente: "Quando Deus (Elohim) me fizeram andar errante." Em Génesis 35:7, falando de Jacob, a tradução literal seria: "Deus (Elohim) Se lhe revelaram quando fugia da presença do seu irmão." Em 2 Samuel 7:23, de maneira literal, David afirma: "a quem Deus (Elohim) foram resgatar para Eles mesmos."
     Se o padrão geral, como vimos, é usar a palavra Deus no plural e o verbo no singular, por que razão esses autores/personagens se referiram a Deus como se fosse uma pluralidade? Para a mentalidade hebraica, talvez a ideia da pluralidade interna do Deus único fosse conhecida e aceitável. O monoteísmo radicalmente estrito, no sentido de não aceitar complexidade em Deus, pode ter sido um desenvolvimento posterior.
     Um pormenor pouco lembrado é que o hebraico, assim como o árabe, tem a forma dual. O dual indica plural, mas apenas no sentido de "um par" formado por dois objectos ou seres. Porém, em referência a Deus, nunca é usado o dual, o que indica que se Deus é uma unidade plural, tem que envolver mais de duas personalidades.

5. A existência do Mensageiro (Anjo) de Yahweh que fala/age como Yahweh sugere pluralidade na Divindade.
     O Anjo do Senhor é mencionado 56 vezes no Antigo Testamento e o Anjo de Deus, dez vezes. Em várias passagens, o Anjo de Yahweh aparece como distinto de Yahweh e, depois, fala na primeira pessoa como se fosse Yahweh. Isso fica claro, por exemplo, em Génesis 22, Êxodo 3 e Juízes 6. Em Juízes 2:1, surpreendentemente, esse anjo chega mesmo a dizer que tirou o povo de Israel do Egipto e fez aliança com Israel. Sabemos que foi Deus (Yahweh) quem fez essas coisas. Conclusão: o Anjo de Yahweh é um Yahweh distinto de Yahweh.
     Num artigo recente intitulado "The Identity of the Angel of the Lord", publicado na revista Hiphil, Mart-Jan Paul sugere que esse anjo não era especial e que apenas representava o Enviador (Yahweh), não apenas em palavras, mas também na aparência. A ênfase estaria na mensagem do Enviador divino, não no mensageiro. No entanto, parece que esse Anjo tinha algo mais. Em Êxodo 23:21, Yahweh diz que o Seu nome está no Anjo do Senhor. Isto significa que o Anjo de Yahweh tem a glória, o poder e a reputação de Yahweh (ver Isaías 42:8). Portanto, é provável que o Anjo de Yahweh seja mais do que um mensageiro "vulgar", que falava em nome de Yahweh.
     O Anjo do Senhor não precisa ser um agente criado, como a palavra 'anjo' pode sugerir. A expressão original, Malak Yahweh significa Mensageiro de Yahweh. Acontece que a Septuaginta traduziu Malak como Aggelos (que é a palavra grega para mensageiro), a versão em latim transliterou aggelos como angelus, e as traduções para o português, seguindo esse uso, passaram a usar anjo.

6. A palavra hebraica usada na Shema para descrever Deus como "um" pode sugerir complexidade na Divindade.
     Deuteronómio 6:4-9 é o grande credo do judaísmo. Era recitado duas vezes por dia pelos judeus devotos. A essência do texto está no verso 4: "Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus, é o único Senhor." Outras versões dizem: "o Senhor é um".
Como interpretar a palavra echad (um, único) é a questão. Há várias traduções possíveis. Vou mencionar três: 1) Yahweh é um, no sentido matemático, estrito e absoluto; 2) Yahweh é único, no sentido de que o status de Yahweh diante de outras divindades é singular; 3) Yahweh é uma unidade composta, no sentido de que é um Deus, mas inclui mais de uma pessoa.
     Num excelente artigo académico sobre o assunto, publicado no Journal of the Evangelical Theological Society em 2004, Daniel Block diz que "a questão fundamental na Shema é a devoção exclusiva e total a Yahweh". A tradução mais provável, nesse caso, seria: "Ouve, ó Israel, Yahweh é nosso Deus, Yahweh somente." Block cita a observação de H. C. Brichto de que "uma tradução afirmando que uma pessoa conhecida pelo nome próprio 'é um' seria tão sem sentido no caso de uma divindade como seria no caso de um ser humano".
     Apesar disso, o texto ensina o monoteísmo. Mas, será que a ênfase está na singularidade absoluta de Deus? Não necessariamente. Moisés Maimónides (1135-1204), influente filósofo e erudito judeu medieval, escreveu 13 princípios da fé judaica. No segundo princípio, ele expressou a crença num Deus, mas substituiu a palavra echad por yachid em Deuteronómio 6:4, a fim de eliminar qualquer possibilidade de complexidade em Deus. No entanto, o texto original traz echad, que permite essa possibilidade.
     Segundo Metzger, echad aparece na Bíblia hebraica com três sentidos: 1) uma unidade composta (por exemplo, em Génesis 2:24, echad descreve a unidade entre o homem e a mulher no casamento); 2) coisas e pessoas num contexto plural, mas que não precisam de formar uma unidade composta (por exemplo, em Êxodo 17:12, Arão e Hur sustentam as mãos de Moisés "um (echad) de um lado, e o outro (echad) do outro"); 3) coisas ou pessoas individuais, mas normalmente num contexto em que aparecem dois ou mais itens (por exemplo, em Êxodo 40:17, o tabernáculo foi levantado no "primeiro (echad) dia do mês").
     Assim, como observa Metzger, se Moisés estivesse a ensinar o monoteísmo absoluto, diria: "Yahweh, nosso Eloah (ou El, Deus), Yahweh é yachid (um absoluto)". Mas ele escreveu: "Yahweh, nosso Elohenu (nossos Deuses), Yahweh é echad (unidade composta)". A primeira frase reflecte o pensamento de Maimónides; a segunda, o de Moisés. Portanto, a Shema não elimina a possibilidade de complexidade em Deus.

7. No Novo Testamento, Jesus é apresentado como divino, o que sugere pelo menos uma bi-unidade na Divindade.
     No evangelho de João, nas cartas de Paulo, em Hebreus e no Apocalipse, aparece a cristologia mais alta possível.
João inicia o seu evangelho dizendo que "o Verbo era Deus". Em Colossenses 1:15-17, Paulo atribui a Cristo a criação e a preservação do Universo. São funções divinas. Em Filipenses 2:5-8, o apóstolo fala do esvaziamento e da exaltação de Cristo. O Filho existia na forma de Deus (ou seja, reflectia a plenitude da divindade e exercia todos os poderes de Deus), abriu mão das Suas honras e talvez poderes para redimir a humanidade (tornou-Se ser humano), foi exaltado acima de todo o nome (ou seja, tem o status de Deus, pois o nome mais exaltado do Universo é o de Deus), e deve receber adoração de todos (todo o joelho deve dobrar-se diante d'Ele e reconhecê-l'O como Senhor). Em Hebreus 1:1-4, o autor exalta o Filho como Criador/Revelador/Redentor e diz que Ele é a "expressão exacta" de Deus. Por outras palavras, é Deus. No Apocalipse (1:8,17; 21:6; 22:13), o Pai e Cristo partilham o título de Alfa e Ómega, o Princípio e o Fim, o Primeiro e o Último. Note que o autor se baseou em Isaías 44:6 e 48:12, onde Deus aplica o título a Si mesmo.
     A expressão preferida por João para ressaltar a natureza divina de Cristo é "Filho de Deus", ou apenas, "Filho". Embora o termo filho fosse usado num sentido geral (por exemplo, Israel é filho de Deus), o apóstolo usa-o num sentido mais técnico. Filho indica igualdade, não diferença, mesmo quando usado num sentido metafórico. Não é por acaso que João (5:18) regista que os judeus queriam matar Jesus porque "dizia que Deus era Seu próprio Pai, fazendo-Se igual a Deus". Isso mostra a igualdade essencial do Filho com o Pai. Qualquer filho pertence à mesma categoria do pai. Alguns filhos podem até ter mais destaque do que os pais (por exemplo, Alexandre Magno sobrepujou o seu pai, Filipe, rei da Macedónia).
     Já o apóstolo Paulo preferia "Senhor" para indicar o status divino de Cristo. Além de usar o termo cerca de 180 vezes em referência a Cristo, usou-o também em relação ao Pai. Ele aplicou a Cristo passagens que originalmente falavam de Yahweh. Para citar um exemplo marcante, Filipenses 2:10, 11 é uma elaboração de Isaías 45:23-25, que fala de Yahweh. É importante relembrar aqui que Senhor é a tradução do termo grego Kyrios e Kyrios é a tradução do hebraico Yahweh, o nome pessoal do Deus de Israel. Kyrios é o termo que a Septuaginta (versão grega da Bíblia Hebraica) usa para traduzir Yahweh. Para Paulo, é o Espírito Santo que nos leva a reconhecer que Cristo é Senhor/Kyrios/Yahweh (1 Coríntios 12:3).
     Se não bastasse toda essa ênfase na divindade de Cristo, o próprio Jesus Se apresentou como divino. Em João 10:30, disse: "Eu e o Pai somos um." Em certo sentido, Jesus cria uma nova versão para a Shema, a declaração de Moisés em Deuteronómio 6:4 de que Deus é um. O facto é que Cristo Se identificou com o Pai de tal modo que os líderes judeus entenderam que Ele reivindicava o status divino (João 8).

8. No Novo Testamento, Jesus é adorado como Deus, o que sugere uma reinterpretação do monoteísmo judaico.
     Num artigo publicado na revista académica New Testament Studies, intitulado "The Worship of Jesus in Apocalyptic Christianity", o teólogo Richard Bauckham chamou a atenção para o facto de que, nos escritos judaicos e cristãos, as figuras angélicas recusam a adoração (Apocalipse 19:10, 22:8,9), mas Jesus é apresentado como digno de adoração (Apocalipse 5:6-14). No primeiro século depois da nossa era, figuras angélicas e humanas de destaque no Céu (como Moisés) eram exaltadas. Contudo, não eram adoradas, pois a adoração era reservada exclusivamente para Deus, o que configurava o monoteísmo judaico-cristão. Isso mostra a posição divina atribuída a Jesus. Ele é adorado como Deus, ao lado de Deus. A Sua adoração é legítima, porque Ele é Deus.
     Larry Hurtado fez um estudo monumental sobre a devoção a Jesus no período inicial do cristianismo, intitulado Lord Jesus Christ (Eerdmans, 2003). Segundo ele, Jesus era reverenciado e adorado como Deus, mas não tinha um culto separado. Jesus "é caracteristicamente reverenciado pelos primeiros cristãos como parte da sua adoração ao único Deus da tradição bíblica". Nesse sentido, a adoração a Jesus era diferente da adoração aos deuses do cenário religioso romano. "Há duas figuras distintas, Deus e Jesus, mas nas cartas de Paulo vê-se uma clara preocupação em entender a revelação dada a Jesus como uma extensão da adoração a Deus", escreve Hurtado.
     Alguns acham que a devoção a Jesus como divino surgiu tardiamente e num ambiente gentio. Mas Hurtado demonstra que essa devoção surgiu muito cedo, de forma rápida e no ambiente cristão judaico. Antes de os credos serem elaborados, os cristãos já adoravam Cristo e viviam/morriam por Ele. Como poderia um cristianismo nascido dentro do judaísmo adepto do monoteísmo adorar Jesus? Ele sugere que houve uma reelaboração do monoteísmo para incluir Jesus na identidade do Deus de Israel. O altíssimo conceito de Jesus no meio cristão e as revelações de Deus aos apóstolos permitiram que o cristianismo inicial desse esse passo e redefinisse a sua compreensão de Deus.

9. O Espírito Santo é apresentado na Bíblia como um agente inteligente e distinto de Deus, o que sugere a existência de uma terceira pessoa na Divindade.
     A perspectiva bíblica sobre o Espírito Santo é complexa, mas coerente. Em síntese, o Espírito é apresentado como um agente divino pessoal que possui todos os poderes e as qualidades de Deus. Ele pensa, sente, decide, guia e capacita, para citar algumas das Suas actividades. Tem mente e perscruta a mente de Deus. É identificado com Deus, faz o que Deus faz e pode ser enviado/retirado, o que sugere que é divino e distinto de Deus.
     A Bíblia apresenta duas ênfases sobre o Espírito: uma mais impessoal e metafórica (como vento, chuva e fogo), para destacar o Seu ilimitado poder e múltiplas actuações, e outra mais pessoal e realística (como confortador, representante de Cristo e revelador da verdade), para destacar a presença de Deus/Cristo com os crentes. A ênfase metafórica não deve ser usada para descaracterizar a personalidade do Espírito. No Novo Testamento há uma identificação dinâmica entre Deus, Cristo e o Espírito, sem ofuscar a distinção entre Eles. O Espírito incorpora e representa a personalidade de Deus/Cristo em acção, mas tem personalidade/identidade própria.
     Para a mentalidade moderna, a palavra 'espírito' pode sugerir algo etéreo e imaterial. Mas, a intangibilidade não era a ênfase dos antigos autores hebreus. Na Bíblia ruah (espírito, em hebraico) ou pneuma (em grego) não é apresentado como algo abstracto e imaterial, mas como um princípio de vida poderoso, dinâmico e subtil. A ideia de que Deus não pode ter corpo e forma vem da filosofia grega. Na tradição hebraica, Deus é retratado com uma forma antropomórfica gloriosa. Por isso, é perfeitamente bíblico entender o Espírito como um agente real e tangível. Tanto é que, em Hebreus 1:24, os anjos são descritos como 'espíritos' (pneumata) e, no entanto, têm matéria. O Espírito transcende a corporalidade, mas não é incompatível com ela.
     Quando a Bíblia define Deus como espírito, a ênfase está no poder sem limites e na capacidade de cruzar todas as fronteiras e ser efectivo em todos os lugares ao mesmo tempo.
A realidade infinita, poderosa e irresistível do Ruah/Pneuma divino está em oposição à realidade finita, fraca e vencível da carne (basar/sarx) humana. Esse contraste pode ser visto em Isaías 31:3. O Espírito é o glorioso e poderoso agente divino que permite que Deus esteja efectivamente presente em todos os lugares, sem depender das criaturas.

10. As fórmulas triádicas sugerem a tri-unidade da Divindade.
     No Novo Testamento há várias menções ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo (Mateus 28:18; 1 Coríntios 12:4-6; Romanos 15:30; 2 Coríntios 1:21,22; 13:14; Efésios 2:18; Judas 20, 21). Nos escritos de Paulo, há pelo menos 14 passagens com padrão trinitário, com diferentes ordens/combinações. Essas sequências sugerem uma igualdade em natureza e posição, embora não em função. Se os três aparecem no mesmo plano, então devem pertencer à mesma categoria divina. Além disso, não faria sentido os escritores bíblicos mencionarem duas pessoas reais e um poder impessoal em paralelo. Se o Pai e o Filho são seres pessoais, então o Espírito Santo também deve ser.

A UNIDADE DIVINA

Para concluir, podemos dizer que a fórmula da Trindade é baseada na revelação pessoal de Deus. Karl Barth disse: "Deus revela-Se a Si mesmo. Ele revela-Se a Si mesmo através de Si mesmo. Ele revela-Se a Si mesmo." A revelação de Deus em Cristo é directa/divina. A Sua comunicação connosco através do Espírito Santo é directa/divina. A ideia de um Deus que nos cria e salva pessoalmente, por meio do Filho e do Espírito Santo, faz parte da própria essência do evangelho.

     A nossa compreensão da identidade de Deus é definida pelos eventos temporais, ou seja, as acções divinas entre nós, as quais são evidentemente trinitárias. Querer raciocinar abstractamente sobre o ser de Deus, independente da Sua revelação, é quase um acto de incredulidade e presunção.
     É correcto, portanto, adoptar o paradoxo bíblico de um Deus singular e plural, uno e triúno. Deus não é complicado, mas é complexo. Embora certas interpretações trinitarianas sejam anti-bíblicas, o conceito é bíblico. Longe da rigidez, impassibilidade e atemporalidade das pressuposições metafísicas, a Divindade bíblica é composta por três pessoas reais, eternas e iguais, o que não significa uma simetria absoluta em todos os detalhes.
     Deus é uma sociedade de amor. O Pai, o Filho e o Espírito são distintos, mas não são deuses separados e concorrentes, o que seria triteísmo. Estão unidos por vínculos indissolúveis. São um em natureza, propósito, vontade, poder, amor, posição e glória. Mais do que isso, Jesus disse que podemos tornar-nos um com Deus através da união espiritual (João 17:20-23). Assim, o círculo trinitário de amor é expandido para incluir toda a humanidade.
     Não é fácil entender a complexidade do ser divino, especialmente porque não temos boas analogias disponíveis. Mas isso serve de estímulo para continuarmos a estudar. Se compreendêssemos totalmente Deus, perderíamos o interesse por Ele e pararíamos de crescer. Ao estudá-l'O, a compreensão é ampliada e a teologia refinada. O infinito expande a nossa mente.

Sem dúvida, o Deus bíblico é dinâmico, activo, inclusivo, envolvente e complexo de mais para ser entendido e explicado pela mente humana finita. Diante da Sua infinita grandeza, a última palavra não é teologia, mas doxologia.



Marcos de Benedicto, Editor de livros da Casa Publicadora Brasileira in Revista Adventista, Novembro 2007.
Pode ler mais em: http://centrowhite.org.br/perguntas/perguntas-e-respostas-biblicas/a-trindade-na-biblia/

LOUVOR  AO  TRINO  DEUS


(Gostará de ler mais em Leituras para a Vida, links 1R, 07.11.2015)

segunda-feira, 26 de outubro de 2015


NOVA  OPORTUNIDADE






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domingo, 4 de outubro de 2015

Dia Mundial do Animal



(Ai que ternurinhas!... eu não tenho nada disso!... Fiel)


FIEL
Na luz do seu olhar tão lânguido, tão doce, havia o que quer que fosse d’um íntimo desgosto: era um cão ordinário, um pobre cão vadio que não tinha coleira e não pagava imposto. Acostumado ao vento e acostumado ao frio, percorria de noite os bairros da miséria à busca dum jantar. E ao ver surgir da lua a palidez etérea, o velho cão uivava uma canção funérea, triste como a tristeza osseânica do mar. Quando a chuva era grande e o frio inclemente, ele ia-se abrigar às vezes nos portais; e mandando-o partir, partia humildemente, com a resignação nos olhos virginais. Era tranquilo e bom como as pombinhas mansas; nunca ladrou dum pobre à capa esfarrapada, e, como não mordia as tímidas crianças, as crianças então corriam-no à pedrada.

Uma vez casualmente, um mísero pintor, um boémio, um sonhador, encontrara na rua o solitário cão. O artista era uma alma heroica e desgraçada, vivendo numa escura e pobre água furtada, onde sobrava o génio e onde faltava o pão. Era desses que têm o rubro amor da glória, o grande amor fatal, que umas vezes conduz às pompas da vitória, e que outras vezes leva ao quarto do hospital. E ao ver por sobre o lodo o magro cão plebeu, disse-lhe:
- O teu destino é quase igual ao meu: eu sou como tu és, um proletário roto, sem família, sem mãe, sem casa, sem abrigo; e quem sabe se em ti, ó velho cão de esgoto, eu não irei achar o meu primeiro amigo!...

No céu azul brilhava a lua etérea e calma; e do rafeiro vil no misterioso olhar via-se o desespero e ânsia d’uma alma, que está encarcerada, e sem poder falar. O artista soube ler naquele olhar em brasa a eloquente mudez dum grande coração; e disse-lhe:
- Fiel, partamos para casa: tu és o meu amigo, e eu sou o teu irmão.
E viveram depois assim por longos anos, companheiros leais, heroicos puritanos, dividindo igualmente as privações e as dores. Quando o artista infeliz, exausto e miserável, sentia esmorecer o génio inquebrantável dos fortes lutadores; quando até lhe acudiu às vezes à lembrança partir com uma bala a derradeira esp’rança, pôr um ponto final no seu destino atroz; nesse instante do cão os olhos bons, serenos, murmuravam-lhe: "Eu sofro, e a gente sofre menos, quando se vê sofrer também alguém por nós."

Mas um dia, a Fortuna, a deusa milionária, entrou-lhe pelo quarto, e disse alegremente: "Um génio como tu, vivendo como um pária, agrilhoado da fome à lúgubre corrente! Eu devia fazer-te há muito esta surpresa, eu devia ter vindo aqui p’ra te buscar. Mas moravas tão alto! E digo-o com franqueza, custava-me subir até ao sexto andar. Acompanha-me; a glória há de ajoelhar-te aos pés!..." E foi; e ao outro dia as bocas das Frinés abriram para ele um riso encantador; a glória deslumbrante iluminou-lhe a vida como bela alvorada esplêndida, nascida a toques de clarim e a rufos de tambor! Era feliz. O cão dormia na alcatifa à borda do seu leito, e logo de manhã vinha beijar-lhe a mão, ganindo com um ar alegre e satisfeito.

Mas ai! O dono ingrato, o ingrato companheiro, mergulhado em paixões, em gozos, em delícias, já pouco tolerava as festivas carícias do seu leal rafeiro. Passou-se mais um tempo; o cão, o desgraçado, já velho e no abandono, muitas vezes se viu batido e castigado pela simples razão de acompanhar seu dono. Como andava nojento e lhe caíra o pelo, por fim o dono até sentia nojo ao vê-lo, e mandava fechar-lhe a porta do salão. Meteram-no depois num frio quarto escuro, e davam-lhe a jantar um osso branco e duro, cuja carne servira aos dentes d’outro cão. E ele era como um roto, ignóbil assassino, condenado à enxovia, aos ferros, às galés. Se se punha a ganir, chorando o seu destino, os criados brutais davam-lhe pontapés. Corroera-lhe o corpo a negra lepra infame. Quando exibia ao sol as podridões obscenas, poisava-lhe no dorso o causticante enxame das moscas nas gangrenas.

Até que um dia, enfim, sentindo-se morrer, disse: "Não morrerei ainda sem o ver; a seus pés quero dar meu último gemido..." e meteu-se-lhe no quarto, assim como um bandido. E o artista ao entrar viu o rafeiro imundo, e bradou com violência:
- Ainda por aqui o sórdido animal! É preciso acabar com tanta impertinência, que esta besta está podre, e vai cheirando mal!
E, pousando-lhe a mão cariciosamente, disse-lhe com um ar de muito bom amigo:
- Ó meu pobre Fiel, tão velho e tão doente, ainda que te custe anda daí comigo.
E partiram os dois. Tudo estava deserto. A noite era sombria; o cais ficava perto; e o velho condenado, o pobre lazarento, cheio de imensas mágoas sentiu junto de si um pressentimento, o fundo soluçar monótono das águas.

Compreendeu enfim! Tinha chegado à beira da corrente. E o pintor, agarrando uma pedra atou-lh’a na coleira, friamente cantando uma canção d’amor. E o rafeiro sublime, impassível, sereno, lançava o grande olhar às negras trevas mudas com aquela amargura ideal do Nazareno recebendo na face o ósculo de Judas. Dizia para si: "É o mesmo, pouco importa. Cumprir o seu desejo é esse o meu dever. Foi ele que me abriu um dia a sua porta. Morrerei, se lhe dou com isso algum prazer." Depois, subitamente, o artista arremessou o cão na água fria. E ao dar-lhe o pontapé caiu-lhe na corrente o gorro que trazia. Era uma saudosa, adorada lembrança outrora concedida pela mais caprichosa e mais gentil menina, que amara, como se ama uma só vez na vida.

E ao recolher a casa ele exclamava irado:
- E por causa do cão perdi o meu tesouro! Faria bem melhor se o tivesse envenenado! Maldito seja o cão! Dava montanhas d’oiro, dava a riqueza, a glória, a existência, o futuro, para tornar a ver o precioso objecto, doce recordação daquele amor tão puro.
E deitou-se nervoso, alucinado, inquieto. Não podia dormir. Até que ao nascer da manhã o vivido clarão, sentiu bater à porta. Ergueu-se e foi abrir. Recuou cheio de espanto: era o Fiel, o cão, que voltava arquejante, exânime, encharcado, a tremer, e ao uivar no último estertor, caiu-lhe da boca, ao tombar fulminado, o gorro do pintor!


Guerra Junqueiro (Apresentação livre)
E agora, quem tiver Coragem (não tive para colocar aqui), pode ver e chorar com este vídeo:
https://www.youtube.com/watch?v=P0CRbUDHCbc

PESSOAS  MARAVILHOSAS  QUE  FAZEM  A  DIFERENÇA

         
"... Até 1870, podia-se contar por milhões o número de bisontes que viviam em liberdade nas pradarias do continente americano. Quando chegava o Outono, época da sua migração, os índios viam desfilar rebanhos com longos quilómetros de comprimento. Conta-se que, um ano, se viu mesmo um rebanho de 60 km, o qual precisou de mais de 5 dias para atravessar a região! '... Os dorsos lanosos dos colossos formavam uma escura massa movente que se estendia até ao horizonte.'
         Durante as últimas décadas do século passado o número destes animais diminuía rapidamente em consequência da chegada do homem a estas regiões. Com efeito, cerca de 1830, o caminho-de-ferro transcontinental atravessava o território dos bisontes e, com ele, um exército de caçadores. Uns foram abatidos e abandonados, outros mortos por causa da sua pele e outros apenas porque a sua língua era um prato muito apreciado.


(Também é sorte demais... não era preciso tanto!)

         Em 1880, após um recenseamento no território dos Estados Unidos, contaram-se apenas 1600 bisontes... mais uma espécie animal estava em perigo de extinção à superfície da Terra! Foi preciso esperar por 1920, quando o número destes animais era ainda mais reduzido, para o Estado decretar leis que permitissem salvaguardar a espécie mais característica da pradaria americana. Foi escolhida uma área do parque nacional de Yellowstone, onde se encerraram todos os bisontes encontrados nos Estados Unidos: - e eles foram apenas 21!"

Tout L'Univers, 10 de Outubro 1962.


O MELHOR AMIGO DO HOMEM

"Ela, porém, respondeu, e disse-lhe: Sim, Senhor; mas também os cachorrinhos comem, debaixo da mesa, as migalhas dos filhos" (dos seus senhores). Marcos 7:28.

     O que lhe vem à mente quando ouve a frase "o melhor amigo do homem"? Se a sua mente estiver programada como a minha, pensará no seu cão preferido, ou talvez num animal de estimação que tem agora ou que já teve. É possível que conheça um cão que queira ficar ao seu lado, correr à sua frente quando vai dar um passeio, que volta constantemente para se certificar do seu progresso, se senta ao seu lado quando faz uma pausa para descansar, que apanha um pau ou uma pedra que quer que você atire para o ir apanhar. Um cão destes protegê-lo-á de pessoas suspeitas ou lutará por si até à morte.
     No número de novembro de 1878 de Our Dumb Animals (Os Nossos Animais Irracionais), newsletter da Associação de Massachusetts para a Prevenção da Crueldade para com os Animais, foi publicada a história de um cão chamado Delta.
     Delta e o seu dono, Severinus, viveram em Herculaneum pouco tempo antes da erupção do Monte Vesúvio. Delta não só salvou o seu dono de morrer afogado no mar, mas protegeu-o de um bando de ladrões e, de outra vez, de uma loba a quem tinham sido roubados os filhotes. A história continua a descrever como o animal se tornou no melhor amigo e protetor do único filho de Severinus. Quando se deu a erupção, Delta cobriu a criança com o seu corpo, mas sem sucesso. Ficaram os dois soterrados juntos.
     Embora os cães nos sirvam extraordinariamente bem nos dias de hoje (cães trabalhadores de todos os tipos, ex.: cães-polícias, guardas, pastores, socorristas, guias para cegos, cães de companhia e animais de estimação), a Bíblia tem pouco a dizer a seu favor nas 47 referências que faz a seu respeito. Job 30:1 menciona um cão-pastor de uma forma depreciativa. A conversa de Jesus com a mulher cananeia sugere que os cães eram animais de estimação que viviam nas casas, e apanhavam as migalhas que caíam da mesa, tal como o fazem hoje. Possivelmente os cães serviriam como cães de guarda (cf. Êxodo 11:7). Contudo, a maior parte das passagens referem-se a eles de forma negativa: como animais alimentados de carniça (Êxodo 22:31; I Reis 14:11; 16:4; 21:19), criaturas com hábitos nefastos (Juízes 7:5 e 6; Salmo 22:20; 59:14; Provérbios 26:11), e rejeitados (I Samuel 17:43; 24:14; II Reis 8:13; Filipenses 3:2; Apocalipse 22:15). Em sítio algum da Bíblia se descreve ternamente a devoção e o serviço de um cão pela humanidade.
     Faz-me pensar no porquê, uma vez que os cães são agora tão amados. Será, eventualmente, porque O Próprio Deus Quer Ser O Melhor Amigo Do Homem?


Senhor, o Teu amoroso cuidado, atenção, provisão, cura, proteção e salvação são infinitamente mais importantes para mim. Dá-me um coração que Te seja sempre fiel.

David A. Steen, Professor Catedrático de Biologia e Presidente do Departamento de Biologia da Universidade Adventista de Andrews, EUA, in O Deus das Maravilhas, 21 de dezembro de 2014.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015


"Apesar dos Dias Cinzentos NÃO Podemos Perder
a Capacidade de Rir."

"RIr é O MeLhoR ReMédIo."


     

ENCHA DE RISO A SUA RECEITA

      Imagine telefonar ao seu médico e ouvi-lo dizer: "Veja umas comédias no seu vídeo e telefone-me amanhã." Esta receita não é assim tão disparatada. Na verdade, está baseada nos mais diversos estudos médicos e até num texto do sábio Salomão que diz: "O coração alegre serve de remédio, mas o espírito abatido virá a secar os ossos."
      Há alguns anos, o Dr. Lee Berk e outro investigador, o Dr. Stanley Tan, da Universidade de Loma Linda, nos Estados Unidos da América, estudaram o efeito do riso sobre o sistema imunitário. Os resultados foram publicados no número de Setembro/Outubro de 1996 da edição Humor & Health Journal. Os investigadores descobriram que o riso baixa a tensão arterial, reduz as hormonas do stresse, aumenta a flexibilidade muscular. E aumenta as funções imunitárias ao elevar os níveis das células T que lutam contra a infeção, das proteínas Gamma-interferons, que lutam contra a doença, e das células B, que produzem os anticorpos que destroem a doença. Eles relataram que o riso também despoleta a libertação de endorfinas, os analgésicos naturais do organismo, e produzem um sentimento de bem-estar geral.
      Não é, portanto, surpreendente que, uma vez que o riso é tão eficaz na convalescença de doenças, muitos hospitais têm salas onde passam vídeos de comédias, e contam com a participação de palhaços para alegrar os seus pacientes, especialmente na ala pediátrica.
O riso é, não só benéfico para a saúde individual, mas tem também um efeito positivo em toda a família. Quando rimos juntos, formamos um elo de ligação. A alegria partilhada encoraja a compreensão, facilita a comunicação e constrói um espírito de harmonia.
      Em famílias com crianças pequenas, o humor pode aliviar o que, de outra forma, poderia ser um assunto emocionalmente pesado, incentivando medidas disciplinares equilibradas. Onde existe humor, existe, normalmente, um espírito de cooperação.
      Aqui estão outros argumentos para um caso de gargalhadas. O riso une as pessoas, aumenta o nosso nível de energia, capacita-nos a recordar melhor as coisas, ajuda-nos a resolver problemas e a lutar contra o stresse.
      O riso até é um bom exercício. Alguém um dia descreveu-o como "levar o nosso interior a uma corrida". Dar 100 boas gargalhadas equivale a passar 10 minutos numa máquina de remo, ou 15 minutos numa bicicleta estática.
      Há alguns anos, o autor e editor Norman Cousins usou as emoções positivas da fé, esperança, riso e alegria para contrariar os efeitos de um estilo de vida stressante que, acreditava, lhe tinham causado uma doença. Decidiu tratar a sua doença vendo comédias várias vezes ao dia - criando, assim, amplas oportunidades para rir. A sua ideia funcionou tão bem que ele recuperou completamente de Espondilartrite Anquilosante (até o nome da doença soa doloroso!).
      A sua experiência causou a curiosidade da comunidade médica, e foi convidado a dar aulas no Centro Médico da USCL. Mais tarde, coordenou os esforços de investigação de cientistas em todos os Estados Unidos da América. Um resumo das suas conclusões foi publicado no livro Head First: The Biology of Hope and the Healing Power of the Human Spirit.
      Já alguma vez observou as crianças a brincar e reparou como elas se riem? Há estudos que revelam que as crianças se riem cerca de 300-400 vezes por dia, enquanto os adultos só o fazem cerca de 15 vezes no mesmo espaço de tempo.
      Uma vez visitei um campo de refugiados de uma área devastada pela guerra e fiquei horrorizado pela expressão vazia e sem esperança dos rostos, inclusive os das crianças e jovens. À medida que a tão necessitada ajuda era distribuída, foram as crianças as primeiras a rir e a brincar. Talvez nós, mais velhos, nos tomamos demasiado a sério. Não estou a sugerir que comecemos a rir 400 vezes por dia, mas penso que muitos de nós poderíamos fazer melhor do que fazemos. Na realidade, a espécie de humor mais saudável É QUANDO NOS RIMOS DE NÓS PRÓPRIOS. Se for como eu, dará a si próprio muitos motivos para se rir.
      Conta-se a história de um homem que estava a sentir-se deprimido. De repente, ouviu uma voz que lhe disse: "Anime-se, as coisas poderiam ser piores." O homem animou-se e, sem dúvida nenhuma, as coisas pioraram!
      É provável que a experiência nos mostre exactamente o contrário. Embora as circunstâncias não sejam as que gostaríamos que fossem, cultivar a capacidade de ver as coisas pelo lado mais positivo irá, certamente, melhorar a nossa saúde física, emocional e espiritual. Muitos de nós sentir-nos-íamos muito melhor se nos animássemos e ríssemos.
      Porque não deixar que estes poderes curadores, postos à nossa disposição, melhorem a nossa saúde e felicidade? O riso é contagioso. Seja um portador e contagie!


Richard O'Ffill, Psicólogo, Pastor e Escritor in Saúde e Lar, Maio 2008.

     

"SEGUIREMOS"


BARAFUNDA's Park

          Quem tem a coragem de utilizar o parque de estacionamento do Hospital onde se situa o S4, fá-lo à sua conta e risco, e pode orgulhar-se de uma qualidade de vida invejável.
          Ao chegar, o utente do parque tem o duvidoso prazer de esperar em fila cerca de uma hora. Conversa nervosamente com os seus colegas de infortúnio, a olhar constantemente para o relógio, sabendo que já estão vinte pessoas à sua espera no serviço. O mais afoito toma uma bica à pressa no café da esquina, sempre de sobreaviso a controlar o avanço da fila; além disso, tem de se precaver contra algum malandreco a tentar furar a fila, bem como estar atento à aproximação de algum polícia que decerto o irá chatear para ir estacionar noutro lugar.
          Um ou outro, menos paciente, vai de facto estacionar nas imediações: Erro! dado que, para além de ganhar gratuitamente uma úlcera a calcular ao longo do dia o tempo que lhe resta no parquímetro, frequentemente descobre o seu carro não no sítio onde o deixou, mas sim no depósito de carros da polícia, situado a 10 km de distância.
          Voltando ao nosso camarada da fila, ele lá consegue, finalmente, entrar no parque. Como de costume, o único lugar vago é aquele em baixo da palmeira, que, misteriosamente, foi o único naquela zona que não foi atribuído aos Directores de Serviço... Mas o nosso utente sabe porquê: Sabe perfeitamente que ao fim do dia, ao anoitecer, terá o seu querido Porche profusamente decorado com produtos excrementícios de aves das famílias dos columbídeos e dos fringilídeos, que abundam nos coqueiros e nos telhados do hospital; estes excrementos, deixem-me dizê-lo, custam mesmo muito a retirar da capota.
          Mas continuando, deixa o seu carro a travar a saída a mais três, confia a chave ao porteiro para a eventualidade de algum dos travados querer sair, e, no fim, lá vai experimentar o prazer supremo de chegar atrasado uma hora ao serviço, onde os olhares de soslaio e os comentários sarcásticos em surdina do pessoal o esperam.
          Entretanto, o seu precioso carro vai ficar sujeito a toda uma série de acidentes. Já não falamos nos comezinhos, do dia-a-dia: Patadas oleosas de gatos, poeira densa proveniente de intermináveis obras, sementes a cobrirem totalmente o veículo, graffitti, notas de papel com recados ou comentários pouco recomendáveis, de tudo um pouco. Os riscos e amolgadelas são também frequentes, tão frequentes que as pessoas só se limitam a um simples encolher de ombros ao depararem com algum. Aliás, existe uma raça especial de utentes do Barafunda's Park que nem deveriam guiar um carrinho de mão: Alguns conseguem a proeza incrível de demorar mais de uma hora a andar 1 (Um!) metro em marcha-atrás.
          No entanto, acontecem acidentes mais graves: Retrovisores misteriosamente arrancados, pára-choques a olhar nostalgicamente para o céu (ou mais prosaicamente, para o chão); portas totalmente dentro das cabines; chega a haver extremos de carros quase totalmente destruídos, como no caso em que um contentor de entulho resolveu fazer uma viagem sozinho, abalroando no caminho alguns veículos; ou noutro, quando um camião destravado realizou idêntica proeza.
          Como exemplo extremo do Barafunda's, não se podia deixar de mencionar a experiência do chefe Marthin's, pessoa respeitabilíssima no hospital, e um dos enfermeiros-chefes mais ocupados, num sector muito difícil. Tinha acabado de entrar no hospital, antes das 7 horas, descansado da vida (ele é daqueles que chega mais cedo para escapar ao inferno dantesco das horas seguintes), quando vê crescer em sua direcção... não, não um gato, nem uma pessoa, nem tão pouco um carro; era sim, um gigantesco camião do lixo, que corria veloz no meio do Barafunda's em sua direcção. Num reflexo, encolheu-se, encomendou a alma ao Criador*, e esperou pelo inevitável. Um barulho ensurdecedor, um estremeção violento, e foi tudo. Olhou para trás, e viu o camião prosseguir a sua marcha, levando consigo o pára-choques do seu carro! Felizmente que o porteiro tinha presenciado a cena, e fechou o portão, impossibilitando a saída do veículo. O motorista, com ar de já ter bebido uns copitos, saiu do camião e começou a barafustar.
          Não entrando em pormenores, bastar-nos-á dizer que este acidente fez com que o chefe Marthin's, que, como já afirmámos, é um elemento importante num sector do hospital, roubasse a este último um dia completo de trabalho, ao ter de chamar a polícia para o auto do acidente, telefonar para a câmara municipal, contactar com o depósito de material da câmara, preencher os papéis do seguro, deslocar-se à sua seguradora e à da câmara para comunicar o ocorrido, levar o carro à garagem e discutir o orçamento com o mecânico.
          Ainda bem que certos membros da administração não ouviram falar nisto, senão decerto iriam descontar-lhe o ordenado desse dia; é que eles já tinham previamente anunciado que não se responsabilizariam por quaisquer acidentes que ocorressem no Barafunda's Park...

Última Hora: Soube-se por fonte autorizada que o Barafunda's vai encerrar durante um dia, para permitir o estacionamento a uma centena de VIP's que vem inaugurar uma nova unidade de cuidados intensivos. Os utentes não podem assim estacionar no local habitual, mas fazem encarecidos votos que todos os columbídeos e fringilídeos das vizinhanças tenham uma gastroenterite das grandes!!!


Dr. Luís Miranda in Revista da Ordem dos Médicos, Junho 2004.
*(ideia vulgar mas sem fundamento bíblico - EE)

     




     

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

QUESTÃO DE DIGNIDADE!
Assunto Também Para Jovens e Crianças...



A LIÇÃO DE ANATOMIA
      
      Para quem seja distraído, indisciplinado ou simplesmente desatento das "setas" que lhe colocam no caminho, o mais provável é entrar na sala pela porta por onde seria pressuposto sair.
      A disposição das salas do "Mauritshuis" de Haia leva a tal inconveniência que se a visita se fizer num dia de sol mas gelado de Novembro, ver os patos caminhar, em vez de nadar no lago, atrai inexoravelmente para o lado das janelas.
      Quem assim entra na sala central do lº andar onde o penduraram não o vê de imediato e necessita procurá-lo para concluir que ele ficou à esquerda e para trás na parede por cuja porta se entrou.
      A sensação é indescritível. Aquela tão conhecida imagem dos livros de pinturas das paredes, dos consultórios alugados e dos folhetos da propaganda médica, afinal é uma espantosa tela de mais de um metro e meio de altura por dois metros de largura.
      A luz imensa que irradia do seu centro atinge-nos como um soco. Fica-se esmagado como no dia em que nos sentámos na cadeira do anfiteatro a responder para as alturas habitadas pelo júri devidamente barricado atrás da secretária. Foi talvez nessa altura que me apercebi como se aprende em Anatomia quer ela seja a lição de Rembrandt quer a do Professor Armando Moreno.
      É mesmo curioso como de uma e outra nos resta pela vida o essencial, e, rapidamente esquecidos os músculos do antebraço e os ramos da maxilar interna, hoje só retemos a experiência de a ter vivido.
      Tal como todos conhecemos A Lição de Anatomia e o génio que a pintou, provavelmente quase todos ignoramos que o seu nome completo é "A Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp". Doutor esse que em 1632 a pagou e mandou pintar para sua própria glória e permanente recordação e não propriamente para que prestássemos homenagem a Rembrandt. Pobre colega Nicolaes Tulp que há trezentos e tal anos segura o "flexor comum dos dedos" sem ninguém lhe prestar atenção.
      Também das lições de Anatomia e do Teatro Anatómico, talvez hoje só nos reste a memória do essencial e relevante e não os pormenores da ciência ou do assistente que nos massacrou os dias. Pessoalmente recordo-me do sol lá fora e eu lá dentro a estudar; das deambulações entre paredes a memorizar mnemónicas idiotas ou a tentar adquirir conhecimentos, alguns hoje tão úteis como os resultados do Campeonato de Futebol de 1961, e lembrar-me da descoberta da Medicina.

      Perante o cadáver aprendia-se que maioritariamente eram os homens que desmaiavam, aprendia-se a relatividade da vida humana, a irrelevância dos factos do dia-a-dia, o sarcasmo da auto-suficiência dos convencidos.
      Aprendia-se na Anatomia a respeitar mais o cadáver do que o Dr. Nicolaes Tulp. Aprendia-se a ficar grato pelo direito conquistado a estar ali. Aprendia-se essencialmente a falar, como quem aprende línguas, e munido do código entrava-se para o clube dos médicos.
      Mais que uma "cadeira" era um ritual de iniciação. Quem não foi vítima de alguma paródia alarve ou correu a buscar a namorada à porta da faculdade de Letras com aquele cheiro entranhado até à alma, não acreditou que poderia vir a usar estetoscópio.
      Também se aprendiam os Planos Anatómicos.
      Das profundezas do tempo ressurgia a geometria descritiva do liceu, para quem ainda a estudou, e habituávamo-nos a dissecar de imediato, seccionando em três planos qualquer um que se nos plantasse na frente.
      Aprendia-se que a posição do homem era de pé, com a cabeça erguida, e a olhar a linha do horizonte, eternamente sujeito a ser dissecado por três planos mentais.
Aprendia-se, em resumo, a ver as estruturas, das mais simples às mais complexas, como se as percorrêssemos de cima para baixo, de trás para a frente, ou de fora para dentro, conforme o plano que escolhêssemos.
      No plano frontal as estruturas, e também as ideias, deslocavam-se da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, conforme a preferência. Aceitando-as todas como planares, ao nível da ética e do querer dos médicos ...

Dr. Pedro Nunes, ex-bastonário da Ordem dos Médicos in Editorial de Medi.com, Boletim Informativo da Secção Regional do Sul da Ordem dos Médicos, Ano 1, Nº 4, Quinzenal, 15 de Setembro de 2000.

DIGNIDADE  TAMBÉM  NA  MORTE.  SEM  DÚVIDA!

Talvez o episódio mais forte e emocionante da minha vida. Lembro-me como se fosse hoje.
Comecei a namorar com o meu marido no início de maio de 1966, por altura da Queima das Fitas. Ele estava a estudar medicina e vivia em Coimbra tendo os pais, que eram missionários adventistas, longe de Portugal.
No último domingo de junho do mês seguinte tive a festinha de aniversário dos meus 17 anos. E logo no dia a seguir, segunda-feira, a nossa querida mãe, com uma malinha na mão, despediu-se de nós dizendo que estava doente e por isso ia ser internada na Clínica de Saúde da Sofia em Coimbra (ainda existe com outro nome).
Oh! Seria possível? Nós nem sabíamos que a nossa mãe estava doente! A vida em casa corria normal!
A minha irmã e eu amávamos muito, muito, a nossa mãe. Ela era, praticamente, 'o nosso Deus', a nossa estrela, a nossa segurança, a nossa alegria, pois ela era muito espiritual, estudava connosco a Bíblia e a lição da Escola Sabatina todos os dias ao serão, e íamos felicíssimas com ela à igreja todos os sábados de manhã e muitas vezes de tarde, domingos de tarde e 4ª feira à noite. E lá, tínhamos muitas atividades que recordo com tanta saudade! (um dia hei de escrever sobre isso...)

Passou-se um mês e a nossa mãe não estava melhor, outro mês e cada vez pior, até que a levaram para o Hospital da Universidade de Coimbra porque o dinheiro estava a acabar e ela, em vez de melhorar, piorava a olhos vistos. Até que poucos dias depois faleceu!!! Com 52 anos de idade!
Que coisa horrível, nem podíamos acreditar! Ela estava tão bem, raramente ou nunca adoecia, e acontecer uma coisa destas!... Muito chorámos naquele hospital com o nosso pai e alguns familiares e amigos que iam chegando.
Mas pior viria ainda a seguir, e eu como filha mais velha tinha de agir (a Gaby tinha apenas 13 anos) mas não estava preparada de maneira nenhuma, porque, talvez por termos nascido 12 anos após o seu casamento, éramos muito protegidas, muito poupadas a quaisquer dificuldades e até a muitos trabalhinhos domésticos... O nosso dever era sobretudo estudar, eram as palavras frequentes dos nossos pais.

Enquanto no hospital as coisas se tratavam para o funeral, levaram as 'meninas' para casa do meu namorado pois coincidiu os seus pais estarem lá em Coimbra numas férias mais prolongadas a que tinham direito depois de uns tantos anos de trabalho fora do país, na altura, em Angola.
E lá estávamos nós com as nossas lágrimas e a nossa tristeza, mas graças a Deus muito bem apoiadas, à espera que nos viessem buscar para o velório. Eram talvez umas 17h quando tocaram a campainha e para minha grande admiração a minha futura sogra veio ter comigo dizendo que era um primo que me queria falar.
Não me admirei de ser um primo porque temos, felizmente, muuuitos primos e mais velhos do que nós. Mas para falar comigo! Porquê? Admirei-me, mas mal eu imaginava quem era o primo e o que me diria!...
Era o marido da Olga, sobrinha do meu pai, o Ângelo Palrilha (na foto abaixo que nos enviaram há uns meses num convite para os seus 50 anos de casamento), primo por quem fiquei, e então a partir daí!... com uma afeição Muito, Muito Grande, e a quem nunca, por mais que vivesse, pagaria este favor, que NÃO TEM PREÇO! Mas o mais 'engraçado' é que ele... até seria 'a última pessoa do mundo' que eu esperaria que viesse ter comigo com esta conversa, porque para além de ser familiar só por afinidade, era católico.

Logo que me viu, ansioso e preocupado, perguntou-me:
- Dite, sabes onde querem pôr a tua mãe para o velório?
- Não. Nem pensei nisso! (Claro!... Não estávamos habituadas a problemas. E muito menos a resolvê-los...)
- No Clube Desportivo de Celas!
Ai!!! Nem podia acreditar! Que sensação horrível, que aflição senti de imediato! Foi autenticamente "O Minuto da Minha Vida em Que Passei de Menina a Mulher".

Aquele clube, muito amado pelo meu pai, era pelo contrário, o local que a minha mãe... enfim... diga-se a palavra certa - detestava! E até nós, as filhas! E porquê? Não preciso de muitas explicações. Toda a gente sabe, de uma maneira geral, qual o ambiente e como se fala, o que há e se faz num Clube. (Só conheço os "Clubes de Tições, Desbravadores, Companheiros, etc." onde tudo ali é bom, puro, saudável. Pode ver em 2J – Juventude Adventista – Quem Somos).
Mas conheci um bocadinho este clube quando surgiu em Portugal a Televisão e íamos lá ver o Camilo de Oliveira... algumas vezes. E também a sua pequena biblioteca, mas com muitos livros e de bons escritores. Tirando isso, era para chamarmos o nosso pai para vir para casa... Em resumo, o Clube Desportivo de Celas era "a pedra de tropeço" do nosso pai e o "espinho na carne" da nossa mãe!

Voltando ao problema, então eu saí da casa dos meus futuros sogros, sozinha com o Ângelo que me deixou ficar ao cimo da rua onde morávamos (Rua Bernardo de Albuquerque) e, um pouco mais abaixo, em frente ao antigo "BCG" (como as pessoas lhe chamavam) e hospital pediátrico, era a casa da tia Isilda, irmã do meu pai, onde se juntou a família mais chegada. E logo a seguir, poucos metros abaixo, o dito Clube.
Bem, escusado será dizer que eu ia completamente transtornada, era como uma leoa, feroz, que ia defender a sua cria. E a bem ou a mal!!! Já tinha o plano todo esquematizado na cabeça. 'Só por cima do meu cadáver' a minha querida mãe (que foi a melhor mãe do mundo com toda a certeza) iria para esse local!
Lembro-me tão bem de pela rua abaixo (antigamente era assim) estarem já colados muitos papéis nas paredes dizendo que certa pessoa tinha falecido e os seus familiares comunicavam o local onde o corpo se encontrava.
Pois eu, furiosa, ia atravessando a rua de um lado para o outro e rasgando todos os papéis, tirando-os da parede. Acho que nem um ficou! Passei pela minha casa mas nem sequer entrei para mudar de roupa.
Cheguei finalmente à casa da tia, mas, antes de tocar a campainha, orei mentalmente a Deus, de novo, para que me ajudasse. Depois de abraçar e beijar o meu pai e os tios e tias, pedi-lhe, baixinho, para falar com ele à parte. Tenho que dizer que o nosso pai era uma pessoa maravilhosa, muito humano, bondoso e humilde. Eu sabia que ele iria compreender e aceitar o meu pedido difícil, e certamente muito dispendioso, mas o pior eram os tios... e a sua grande influência sobre o nosso pai.

Então num quartinho ao fundo do corredor, abracei-me a ele, e chorando e soluçando, pedi-lhe 'do fundo do coração' que a mãezinha (era assim que antes se tratavam os pais) não fosse para aquele lugar do qual ela não gostava nada. E prometi-lhe que logo que eu trabalhasse (iria entrar nesse ano em medicina) lhe pagaria toda a despesa, por maior que fosse. Estava preparada até para me ajoelhar aos seus pés se fosse preciso! Mas não foi. Ele amava-nos muito, nós bem sabíamos.
Então, coitado, chorando também, explicou-me que dado que a nossa mãe não iria para a Igreja Católica ele pensou não a levar para casa a fim de as filhas não terem no futuro a imagem desagradável de lembrarem-se da mãe, morta, em sua casa.
Saí de ao pé dele confiante embora sem certezas... mas sem coragem para forçar mais. Fui a casa mudar de roupa. Mas não só! Por precaução... fui preparar o nosso quartinho e sobretudo a minha cama com uma colcha de algum modo adequada...

Passado um tempo voltei à casa da tia e soube então, graças a Deus, que a mudança já se estava a fazer e a minha mãe iria para o salão central da nossa Igreja situada nessa altura na Ladeira do Carmo, na Baixa de Coimbra. Agora é um grande edifício pertíssimo do Penedo da Saudade. Muito bonito, e ainda mais por dentro. Merece uma visita...


Que alegria senti com a resolução deste grande problema! Só Deus o conhece na totalidade e pode melhor compreender! Ele que sabia da minha inflexível decisão, agiu nos corações do nosso pai e família, porque se ele não tivesse feito essa mudança, ai! garanto que iria haver cenas bem sérias e feias... Eu chegaria ao Clube e com a força fisica e psíquica com que estava, levantaria a minha mãe do caixão, agarrava-a com os meus braços e sairia com ela, fosse de que maneira fosse, pela rua acima até minha casa. E era mesmo na minha cama que eu poria a minha querida mãe! Morta ou viva era a nossa mãe!

Perguntei-me a mim mesma já muitas vezes: como me sentiria para o resto da vida se não tivesse feito isto? Mais! Era até obrigatoriamente o meu dever fazer por ela tudo o que ela já tinha feito, e viria a fazer ainda por mim!
E que falta de dignidade era essa de: em vida, ela não frequentava aquele lugar, e depois de morta, como não podia nada dizer ou fazer, era lá colocada! Completamente inimaginável! Mas que grande drama vivi naquele dia!!! E, diga-se outra vez... sem estar preparada...
Em conclusão: realmente o respeito pela dignidade de qualquer ser humano é fundamental. Vital! Mesmo na morte, não interessa, é um ser criado por Deus, logo merece toda a consideração. Seja que pessoa for! Até pelos animais e plantas devemos ter respeito porque foram também criados por Ele, quanto mais com o SER HUMANO!

Só acrescentar que o meu pai nunca me pediu qualquer centavo... e quando me formei em Medicina, lá em Coimbra, com o exame oral de Psiquiatria feito pelo Professor Doutor Adriano Vaz Serra, por ter tido uma nota muito alta (era a regra do Sr Professor quando a nota do exame escrito fosse superior a 18. Saí com 19, graças também a Deus, que tem sido o meu Amigo permanente...), fui logo ter a casa do meu pai e chamei-o para o quintalzito onde lhe dei a feliz notícia de ter terminado o curso. Chorámos muito, mas agora era a tristeza misturada com alegria, e embora já casado de novo, ele muito comovido e eu também por nos lembrarmos de 'alguém especial' que poderia estar ali... ele me disse estas palavras que nunca esquecerei: "Quanto a tua mãezinha gostaria de estar aqui neste momento!"
Mas não é problema, porque temos a esperança (para mim a certeza absoluta) da ressurreição dos mortos, como a Bíblia diz. E ela estará um dia, sim, lá no Céu! Resta-me a mim preparar-me para também lá estar... Só depende agora de mim...

A Gaby lembrou-me da cena do último dia de vida da nossa mãe. Estávamos no seu quarto do hospital e ela olhava (durante muito tempo) fixamente para um ponto alto distante à sua frente (não olhava nem falava para nós) e ao mesmo tempo dizia versículos bíblicos, um pouco impercetíveis, e cantava hinos, os lindos hinos que ela mais gostava...
Fiquei sempre a pensar que ela poderia estar a ter uma visão do Céu e de Jesus... porque não? Entretanto, ainda ela estava assim e nós num silêncio absoluto, a enfermeira entrou no quarto e disse-nos para sairmos que a "mãezinha está muito mal". Passadas umas horas, faleceu. Foi a última vez que vi a minha mãe. Porque apesar de toda a minha coragem, preferi não a ver morta. De nada adiantava! Assim, todos os sonhos que sempre, até hoje, tenho sonhado e em que ela aparece, é sempre viva. Que maravilha!
Mas o melhor de tudo, será um dia encontrarmo-nos pessoalmente, vivas, no Céu, e com os nossos corpos e mentes transformados, perfeitos, vivermos todos lá, juntos, para sempre!!! Edite Esteves



(Os meus queridos priminhos Olga e Ângelo Palrilha - o anjo que Deus me enviou...
e acima à esquerda a foto da nossa amada mãe quando jovem. Bonita, não era?)

DOROTHEA LINDE DIX
"Amarás o teu próximo." S. Mateus 5:43.
                                (clique para ver a placa)

Acha você que poderia amar o seu próximo, caso ele fosse louco ou criminoso? Dorothea Dix cria que sim! Ela gastou a maior parte de sua vida procurando conseguir melhores hospitais psiquiátricos e prisões para aqueles que pareciam pessoas sem atrativo e detestáveis.
O pior caso que teve ocasião de presenciar foi o do Sr. Simmons, no asilo de Little Compton, um povoado da Baía de Narragansett. Era um dia de vento frio e penetrante, de fevereiro, quando Dorothea acompanhou a enfermeira-chefe através de um quintal esburacado e de celeiros destruídos, até um campo pantanoso de lama preta gelada.
Aproximou-se de uma estrutura de pedra parecida com uma sepultura. Descendo alguns degraus, dirigiu-se a uma porta que se achava fechada com uma enorme corrente de ferro. A enfermeira abriu então o cadeado.
- Mantenha distância! - recomendou a enfermeira. - Ele é louco. Mesmo preso, ele ainda poderia matá-la.
Desatendendo a advertência, Dorothea entrou num quarto tão baixo que precisou encurvar a cabeça. De início não conseguia ver o pobre Simmons, mas ouviu o barulho da corrente e sentiu-lhe a respiração. Assim que seus olhos se acostumaram com a escuridão, viu ela um homem magro, de cabelos brancos e desalinhados a caírem-lhe sobre os ombros. Roupa rasgada, estava em pé, descalço na lama fria, com uma corrente presa à perna. Olhou-a firmemente com os encovados olhos, quando ela lhe estendeu os braços e o abraçou fortemente.
Ela soluçava ao pensar na crueldade que ele suportara durante três anos, naquela masmorra sem os confortos da vida. Desejava muito fazê-lo saber que se interessava por ele, mas as lágrimas não deixavam que as palavras saíssem. Enquanto ela o segurava, ele chorava como uma criança.
Em 10 de abril de 1844, foi publicado no jornal um artigo que ela escreveu. Dizia o artigo: "Sem dúvida as pessoas de Rhode Island professam adorar. Ora elas, pergunto a mim mesma, adoram o mesmo Deus que contempla o pobre Simmons?" Movidos por seu apelo de misericórdia, as pessoas daquele Estado se organizaram para construir melhores casas para os doentes mentais.
Estou certa de que você não conhece ninguém tão repulsivo como o pobre Simmons. Mas há pessoas do seu relacionamento às quais é difícil amar, por causa da maneira como olham ou agem. Deus espera que você as ame também. Elas também são seu próximo!


Dorothy Eaton Watts in Meu Herói de Cada Dia.
Pode ver mais em https://en.wikipedia.org/wiki/Dorothea_Dix


"A DIGNIDADE - As mãos de Deus comprometeram-se com a nossa existência. Deus fez-nos não só com a Sua palavra; fez-nos com o Seu coração, com o Seu amor, com o Seu entusiasmo." Jorge Mario Bergoglio - Papa Francisco. Pensamento da capa de um dos seus vários opúsculos, recentes, editados pelo Correio da Manhã, 2015.

"A religião pura dirige o possuidor sempre para o Alto, inspirando-lhe nobres desígnios, ensinando-lhe a conduta apropriada e comunicando dignidade a cada ação." Ellen White in A Nossa Alta Vocação, 31.07.2015.



Mas chegará "o momento de destruíres (Deus) aqueles que destroem a terra!" Apocalipse 11:18. (E com toda a justiça! E.E.)

"O ato de dignidade para com a Natureza que Deus criou, só revela que quem o faz tem uma mente nobre, superior."

terça-feira, 14 de julho de 2015

RUMO AO ALVO


     
(clique na imagem)
       
"O êxito em qualquer coisa que empreendamos exige um objectivo definido. Aquele que desejar o verdadeiro êxito na vida deve conservar firmemente em vista o alvo digno dos seus esforços." Ellen G. White, Educação, pág. 262.
       "Já vi muitas pessoas destruídas - não pelo mundo, mas por si mesmas."

       O escritor inglês Godfrey Winn que fez essa afirmação a um jornalista, passou por uma árdua escola no seu caminho para o sucesso. Ele submeteu a sua primeira obra literária a Somerset Maugham. Depois de lê-la, o famoso autor disse: "O seu manuscrito é promissor. Porque não vem jogar um pouco de ténis connosco?"
       Mas, quando Winn chegou, Maugham recebeu-o com as seguintes palavras: "Você não veio aqui só para jogar ténis. Vou exigir-lhe que escreva 1000 palavras durante cada manhã. Ao meio-dia e meia em ponto, quero ler o que você escreveu. Se não for bom, não terá almoço. Não existe essa coisa chamada inspiração. Trabalho duro é a única coisa que conta!"
       Winn obedeceu e com isso aprendeu uma lição de valor incalculável para a sua futura carreira. Daí em diante, era como se o seu dia tivesse sido perdido, se não escrevesse 2000 palavras antes do almoço. Ele escreveu mais de 6 500 000 palavras, as quais foram publicadas em jornais, e dois milhões e meio nos 25 livros que comprovam o seu esforço. Dois desses livros estão entre os mais vendidos e os seus leitores compraram mais de 500 000 exemplares.

       Há algum tempo, li um artigo escrito por um homem que passou 25 anos a ensinar homens e mulheres a vender livros de casa em casa. Ele teve muitas experiências interessantes, contratando pessoas para esse tipo de trabalho. Muitas vezes, depois de conversar com um vendedor em perspectiva, disse a si mesmo: "Este homem será um excelente vendedor. Ele tem tudo a seu favor. Tem boa aparência, é bem qualificado e sabe expressar-se com facilidade." Mas com muita frequência esse grande vendedor fracassou. Porquê? Não sabia como ser o seu próprio chefe.
       Noutros casos, a situação inverteu-se. Um homem com praticamente nenhuma das qualificações de um bom vendedor e que fora mesmo aconselhado a não entrar nessa carreira, teve um enorme sucesso. O escritor do artigo conclui com estas palavras: "Baseado nos meus 25 anos de experiência neste trabalho, cheguei à conclusão de que é virtualmente impossível predizer quem terá ou não terá êxito. Tudo depende da capacidade pessoal do indivíduo em ser o seu próprio chefe."

SE TU FOSSES O CHEFE

       Na parede de uma sala de recepção de uma grande indústria está pendurado um lema paradoxal, mas que faz com que o leitor reflicta. Ele diz: "Se você fosse o chefe e pedisse emprego aqui, contratar-se-ia a si mesmo?"
       A ideia de ser o seu próprio patrão não é tão disparatada como parece. Nem sequer é uma ideia nova. Há aproximadamente 3000 anos, o rei Salomão, famoso pela sua sabedoria, chegou à mesma conclusão e deixou-a escrita para que não fosse esquecida: "Vale mais ser paciente do que ser valente; mais vale saber-se dominar a si mesmo do que conquistar uma cidade." Provérbios 16:32 (BN).
       A pessoa que viaja pelo mundo visita, obrigatoriamente, os numerosos monumentos erigidos em honra de homens considerados grandes. Entre eles estão os líderes militares - poderosos generais e almirantes. Mas na sua profunda sabedoria, Salomão ressalta que a grandeza e a honra do domínio próprio são maiores do que qualquer vitória militar. Do ponto de vista humano, a conquista de uma cidade é uma vitória memorável. Pelas normas divinas, desenvolver o controlo sobre si mesmo - ser o seu próprio chefe - é uma conquista muito maior. E esta espécie de grandeza não está reservada só a alguns. Está ao alcance de cada um de nós!
       Tu és o teu melhor amigo. Ou inimigo!

       "Uma velha lenda nórdica conta acerca de um homem possuído por uma espécie de ser maligno que tentava arruinar a sua vida. O monstro levantou o tecto da sua casa, estilhaçou as janelas e destruiu o jardim. Matou-lhe o gado e destruiu a sua colheita.
       Finalmente, o homem, não suportando mais a situação, decidiu lutar contra o monstro. Iniciou-se uma árdua batalha. Ambos caíram e rolaram pelo chão. Durante algum tempo, o resultado foi incerto. Então, reunindo todas as forças, o homem ficou sobre o monstro e segurou-o contra o solo. Puxou a faca para exterminar o inimigo. Mas, exactamente nesse momento, o vento afastou as nuvens e um brilhante facho da luz do luar iluminou a face do monstro. O homem sentiu-se sacudido por um choque que afectou a sua vida. A face que estava ali à sua frente era a dele!

A VERDADEIRA GRANDEZA


       Há muitos anos, uma professora, em Inglaterra, pediu à sua classe que fizesse uma composição cujo tema era "A Verdadeira Grandeza". Entre os estudantes havia uma menina de família pobre, sem cultura, de quem a professora não esperava nada de excepcional. No entanto, o que a menina escreveu impressionou-a tanto que ela enviou o trabalho ao jornal local, para ser publicado. O artigo suscitou logo um grande interesse. Jornais em todo o país publicaram e republicaram o que essa jovenzinha tinha escrito. Ninguém já se lembra do seu nome. Mas o que ela escreveu continua a ser verdade até aos nossos dias. Eis aqui alguns parágrafos:
"Uma pessoa nunca consegue a verdadeira grandeza esforçando-se por obtê-la. Alcança-se quando não se procura. É bom andar bem vestido. Dessa maneira é mais fácil impor respeito; mas é um sinal de verdadeira grandeza quando alguém, apesar de humildemente vestido, consegue o mesmo resultado. Quando a minha mãe era criança, havia um passarinho em sua casa chamado Guilherme, o qual quebrou uma perna. Eles pensaram que teriam de matá-lo; mas, na manhã seguinte, encontraram-no apoiado sobre a perna boa, cantando. Aquilo era um exemplo de verdadeira grandeza.

Conta-se que, em tempos, houve uma mulher que, depois de lavar muita roupa, a pendurou no varal. O varal quebrou-se. Mas ela, sem dizer nada, lavou-a toda novamente e desta vez estendeu-a sobre a relva, de onde não podia cair. Mas, naquela noite, um cão passou por cima das peças de roupa, deixando as marcas das patas enlameadas. Quando ela viu o que acontecera, sentou-se e disse simplesmente:
'Não é interessante que o cão não tenha deixado uma peça sem as suas marcas?' Aquilo era um outro exemplo de verdadeira grandeza, mas só os que lavam roupa sabem isso." "Self Control in Small Things", Sunshine Magazine.
       O domínio próprio é fundamental na vida. É o que faz a diferença entre o líder e o liderado. O Líder sabe dominar-se. O homem comum não sabe. O que Salomão escreveu acerca do domínio próprio é valido ainda hoje e sê-lo-á sempre.

CRIANDO OPORTUNIDADES

       Falando aos jovens, no 25° aniversário da fundação da sua firma, um dos mais bem-sucedidos homens de negócios da Noruega disse: "A todos os jovens que desejam o sucesso, direi isto: 'Decidam-se quanto aos objectivos que querem atingir na vossa vida. Façam planos adequados e trabalhem arduamente, com vontade firme e constante. Tenham fé no futuro, mas não fiquem sentados, esperando pelas oportunidades - criem-nas vocês mesmos!'"
       Esta atitude faz com que a vida valha a pena ser vivida, porque uma das maiores satisfações do homem encontra-se no próprio acto de lutar. Talvez isso seja mais importante até do que alcançar o alvo. Uma vez, num voo para Londres, eu discutia este assunto com o meu companheiro do lado, que era sueco. Ele citou o poeta sueco Karin Boye, cujas palavras me soaram tão significativas que as anotei na minha agenda: "Há um propósito e um alvo na vida, mas é o caminho a ser percorrido que faz valer o esforço."

       A partir de então, tenho notado muitas vezes até que ponto estas palavras são verdadeiras. Basta ouvir um idoso a recordar as suas experiências da vida. Podem ser pessoas muito bem-sucedidas que ocupam postos elevados, tendo grande influência, ou grande poder administrativo e bons rendimentos. Mas não é neste assunto que gostam de demorar-se. Os anos em que estiveram no auge do sucesso não são os que se destacam nas suas recordações. Não, o que eles gostam de repetir são as lutas por que tiveram de passar durante os anos de escalada até ao êxito. Os anos nos quais tiveram de vencer obstáculos foram os melhores da sua vida. Sim, "é o caminho a ser percorrido, que faz valer o esforço."
       Os nossos melhores anos não estão no futuro distante. Quando tivermos alcançado os nossos objectivos, a maior parte das batalhas estará no passado. O tempo mais desafiante para nós é agora - agora, enquanto os nossos sonhos mais acariciados ainda não se tornaram realidade.


       Não é errado sonhar com o futuro. Quase tudo o que é hoje motivo de orgulho para a civilização existiu porque alguém ousou sonhar, pensar e trabalhar. Todas as invenções modernas foram antes de tudo uma ideia na mente de alguém. Diz-se sobre Henry Ford, que a sua cabeça estava "cheia de rodas". E por isso, as suas rodas passaram a percorrer todos os caminhos do mundo!
       Um dia, John Rockefeller meteu a cabeça por entre a porta de um dos seus escritórios, surpreendendo o seu contabilista, que estava concentrado, inclinado sobre os livros. "Tire os seus pés do chão e ponha-os sobre a escrivaninha!" - ordenou Rockefeller. "Encoste-se para trás na sua cadeira e comece a sonhar."
       Surpreendido com esta ordem vinda do seu chefe, o homem perguntou-se onde é que ele queria chegar. Mas, quando Rockefeller repetiu a sua ordem, o contabilista colocou cautelosamente os pés sobre a mesa, recostou-se na cadeira e perguntou educadamente: "O senhor quer que eu sonhe com quê?"
       "Rockefeller respondeu laconicamente: "Sonhe com maneiras de ganhar dinheiro para a Standard Oil Company. De agora em diante, esse é o seu trabalho!"

       Os pensamentos de Rockefeller estavam no dinheiro e no poder. Mas, além dessa, há muitas outras coisas melhores e mais dignas com que sonhar. Existem ainda grandes empreendimentos a realizar neste mundo. Como diz o ditado: "O homem que nunca se perdeu numa causa maior do que ele mesmo, perdeu uma das experiências mais culminantes da vida."
       Por ocasião do funeral do seu irmão, o Senador Edward Kennedy citou uma observação que John F. Kennedy fez, poucos meses antes de ser assassinado: "Alguns homens veem as coisas como são e perguntam 'Porquê?' E eu sonho com coisas que não existem e digo: 'Porque não?'"
       No seu livro The Dream of Youth (O Sonho da Juventude), Hugh Black escreve:        
"Conta-me os teus sonhos e eu poderei ler os mistérios da tua vida. Conta-me as tuas preces e eu escreverei a história da tua alma. Conta-me os teus pedidos e eu falar-te-ei das tuas aquisições. Conta-me o que procuras e eu dir-te-ei o que és.
Não desejo saber o que possuis - apenas o que desejas. Não me importa saber o que tens - guarda-o! - apenas o que não tens e desejas ter; nem os teus triunfos, mas aquilo que ainda não conseguiste e que persegues. Tudo o que se apresente nos teus sonhos de dia e de noite, o ideal que tens colocado diante de ti, as coisas que aprovas como excelentes, que procuras e às quais tens entregue o teu coração - estas são a medida da grandeza do homem." Hugh Black, The Dream of Youth, pág. 15. Coisas que podemos ver não são, nem de perto, tão importantes como as que não podemos ver, tais como a vontade, a coragem e o carácter.

O "NÃO!" PODE SER POSITIVO
       No primeiro dia que passou no seu novo emprego, o chefe da secção ofereceu-lhe um grande copo de cerveja. "Não, obrigado", respondeu ele. Esta resposta calma irritou o chefe da secção que lhe disse, irado: "Não há ninguém abstémio neste lugar!"
       "Enquanto eu estiver aqui, haverá uma pessoa", respondeu o aprendiz.
       "Ainda contrariado, o chefe ameaçou: "Ouve, rapaz, vais tomar esta cerveja aqui ou lá fora!"
       "Bem", replicou o rapaz, "faça como quiser. Cheguei hoje com um casaco limpo e um carácter limpo. O senhor pode sujar o meu casaco, se quiser, mas não pode sujar o meu carácter."
       O facto de se ter um ideal para a vida, e estar determinado a apegar-se a certas normas, pode tornar a pessoa diferente. Mas isso importa?
       Na cidade de Oslo, existe um monumento singular pelo facto da sua inscrição ter apenas uma palavra norueguesa: "Nei". Ela quer dizer simplesmente "Não".
       Por detrás dessa inscrição, está a história de um dos grandes heróis da Segunda Guerra Mundial, Lauritz Sand. Foi levado prisioneiro pelos nazis, que suspeitavam que ele tivesse contacto com o movimento secreto da resistência. Prenderam-no. Interrogaram-no. Torturaram-no. Mas, para todas as perguntas, a sua única resposta era: "Nei!" Finalmente, ele acabou por morrer em consequência dos maus tratos recebidos. Nada o induziu a revelar segredos, o que poderia custar a liberdade ou mesmo a vida de outros.
       Ainda que consideremos o "Não!" como uma resposta negativa, ela pode ter um significado positivo. Para Lauritz Sand, "Não!" era a expressão das suas convicções quanto ao que era correcto e verdadeiro, do seu amor pelo seu povo e país, da lealdade e do idealismo.
       Ter uma atitude positiva para com a vida não significa necessariamente dizer sempre "Sim" a tudo o que enaltece e edifica. Também significa dizer "Não!" a tudo o que destrói e degenera.
       "O sucesso é filho da coragem", disse Disraeli. Aquele que tem em vista o alvo, precisa de ter coragem para tomar uma decisão, para definir a sua posição e correr os riscos que sejam necessários. Porque aquele que não arrisca nada, nada ganha.
Alf Lohne, Escritor com uma vasta obra, in Prepara o Amanhã, Junho 2006, Publicadora SerVir, Sabugo, Portugal.


QUE TENS EM TUA MÃO?
Conta-se a história de um herói e um covarde. Este último, de um lado do campo de batalha, olhou sua espada e disse: "Que posso fazer com esta velha espada? Se ela fosse de aço nobre eu poderia fazer algo. Suponho que o príncipe tenha uma espada dessa espécie. Mas, que farei eu com esta velharia?" E firmando-a contra seu joelho quebrou-a em dois pedaços, atirou-os sobre a areia e abandonou a luta.
Enquanto isto, o príncipe não tinha nada em suas mãos. Estava lutando com os punhos nus. Havia perdido tudo na peleja, mas não fugiu. De repente tropeçou no cabo da velha espada que o covarde havia desprezado. Tomando-a, levantou-a bem alto, e dando um grito semelhante ao de um rei, avançou sobre o inimigo.
Ao vê-lo atacando com uma velha espada, seus soldados se reuniram em torno dele e com brio renovado se lançaram contra o inimigo. Ganharam a batalha e também a guerra. Sim, alguns podem fazer mais com meia espada que outros com uma inteira.

Estamos nós fazendo o possível com o que temos ao nosso alcance?

Sansão, valente guerreiro do antigo povo de Israel, não tinha mais que uma queixada de jumento e nem sequer meia espada. Mas, com ela, matou mil filisteus, inimigos de seu povo.

Dorcas, uma ativa mulher do século I de nossa era, tinha apenas uma agulha em sua mão, mas, como disse alguém, "movimentava-a muito mais que a língua." Com essa agulha costurou roupas para os necessitados, e o fez com tanta dedicação que atualmente há muitas sociedades beneficentes que levam o nome daquela humilde mulher que usou para o bem o que tinha em sua mão: uma agulha.

Jovem leitor, que tens em tua mão? Por mais modestos que sejam teus talentos e por mais limitadas que sejam tuas possibilidades, se usares com todo empenho o que tens ao teu alcance, poderás obter grandes resultados.

A Moisés, o grande legislador e libertador de seu povo, também foi feita a pergunta decisiva: "Que tens em tua mão?" a resposta foi: "Uma vara." E com ela se apresentou ante o Faraó do Egito para libertar da escravidão os israelitas.

Davi, o jovem pastor de ovelhas, respondeu à mesma pergunta: "Apenas uma funda para defender minhas ovelhas das feras que as querem arrebatar." E com essa funda derrotou o gigante Golias, cuja armadura pesava 55 quilos, e sua lança 8 quilos.

Cristóvão Colombo respondeu: "Não tenho nada, nem barco, nem sextante, nem binóculo. Só tenho uma ideia fixa, e continuarei batendo às portas e corações até que me escutem." A ideia se transformou em ação, e assim é que hoje podemos desfrutar da maravilhosa terra do continente americano.


Poderíamos passar em revista todos os homens e mulheres que têm prestado sua contribuição maior ou menor à humanidade, e veríamos que, sem exceção, usaram com fé e perseverança o que tinham em suas mãos. Essa pergunta é feita a cada um de nós. Como estamos respondendo?

Jovem secretária, que tens em tua mão? Apenas uma máquina de escrever? Usa-a para fazer bem teu trabalho, de tal modo que te faças necessária.
Jovem agricultor, que tens em tua mão? Apenas um arado? Usa-o para produzir nobre colheita, nunca algo que possa prejudicar o próximo, e serás respeitado.
Jovem mecânico, que tens em tua mão? Apenas uma caixa de ferramentas? Usa-a de modo eficiente e honrado, e conseguirás a gratidão e o apreço dos demais.

Lembremo-nos que estamos construindo um caráter e decidindo nosso destino com as pequenas ações de cada dia, com o uso daquilo que temos na mão. Aproveitaremos ao máximo nossa oportunidade?
Paulo R. Gomes, Advogado, in Revista O ATALAIA - Intérprete dos Tempos, Setembro de 1979, Casa Publicadora Brasileira.



SE A MÃO DE DEUS TOCAR EM MIM